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Licor de laranja seduz estrangeiro

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Isabel Bensaúde e Ana Cerqueira juntaram-se para produzir o licor feito com o desperdício da laranja do Algarve

Alberto Frias

Uma ideia nascida numa viagem, duas amigas que se juntaram sem expectativas. O Orangea, um licor feito com o desperdício da laranja do Algarve, vai ser exportado

Há uma imagem que se associa à dos empreendedores: são pessoas sem medo de risco e em fase inicial de vida. Ou são jovens acabados de sair da faculdade, de cursos ligados às novas tecnologias, que têm a receita para a próxima app de sucesso, ou são jovens adultos dispostos a trocar o conforto de uma multinacional por uma start-up. Ana Cerqueira, 58 anos, e Isabel Bensaúde, 51, não se enquadram em nenhum destes grupos. Chegaram à fase da vida em que já não precisavam de provar nada a ninguém a nível profissional e em que a saída dos filhos do ninho lhes retirou responsabilidades na parte pessoal. Foi aí que arriscaram e criaram o Orangea – um licor feito com o desperdício da laranja do Algarve –, que está agora a ganhar asas e a voar para o estrangeiro. Esta é a história de um entretém que se tornou numa coisa séria.
A matéria-prima está no Sul do país; as origens da ideia, em Itália. Numa viagem à Costa Amalfitana, Ana conheceu o sucesso do limoncello. Rapidamente estabeleceu uma comparação entre os dois países e viu que Portugal e Itália tinham muitas semelhanças. “Lembrei-me das laranjas que apodreciam no chão nos pomares no Algarve. Fazer um licor com elas era algo que lhes podia dar dignidade e incentivar a economia local”, conta. Nascia ali, naquela viagem de férias, uma ideia de negócio. Para a concretizar, Isabel, uma amiga botânica, juntou-se à aventura. Começaram em casa – agora vão ter o Orangea à venda nas lojas dos aeroportos de Lisboa e Faro. Foi o cartão de visita para o plano de exportação que começam a concretizar este ano. Um investimento entre os 100 e os 150 mil euros, recorrendo a capitais próprios e ao programa de fundos europeus do Portugal 2020, que irá transformar a produção e a comunicação da empresa. Uma fábrica, na zona de Cascais, irá substituir o pequeno laboratório onde têm confecionado o licor. E um plano de marketing e comunicação prevê a participação em três feiras internacionais: Colónia, na Alemanha, Londres e Paris. “A de Colónia, só para produtos gourmet, é muito importante. É a participação nestas feiras que faz ultrapassar o investimento de 100 mil euros. Ir e divulgar bem custa uma fortuna, e nem sempre há retorno imediato; é um investimento a longo prazo que tem de ser feito”, frisa Ana.
Na base de tudo está o case study do limoncello, não apenas a bebida em si. O aproveitamento que produtores e indústria hoteleira fizeram de um produto que estava ao abandono serviu para recuperar da perda do turismo, que nos anos 60 começou a desaparecer da região. “Veio contrariar uma tendência de empobrecimento do Sul de Itália, cujo turismo se tinha deslocado, tornando-a numa zona bastante pobre”, conta Ana. Numa costa onde a paisagem era quase só composta por limões, os proprietários deste fruto uniram-se às autarquias, aos hotéis e restaurantes e fizeram uma “espécie de uma megacooperativa para encontrar o preço e a qualidade certa do licor”, levando-o primeiro para os restaurantes no Norte do país e depois transformando-o numa bebida nacional. Uma ambição que Ana e Isabel gostariam de replicar. Devagar. Como até aqui. Tem sido essa a chave para o sucesso. “Até podíamos ter começado logo numa de ‘somos as maiores, vamos já abrir uma fábrica e exportar’. Foi ao contrário”, sublinha Ana, a que menos tem medo do risco. Sentada ao lado, no escritório de uma das Torres das Amoreiras, Isabel, a mais contida, reforça: “Nós fomos [andando] tendo a noção, aos poucos, do que tínhamos em mãos. A princípio também pensávamos, ‘ah isto vai ser pequeno, vamos lá ver como vai funcionar’. Era uma parceria entre amigas.”
Parece um caminho fácil e vítima da sorte do caso. Antes de chegarem até aqui, contudo, Ana e Isabel não desenvolveram apenas uma receita, nem se limitaram a aproveitar a laranja que apodrecia no chão algarvio. Timidamente, estabeleceram um plano e foram-no seguindo. A ideia surgiu há dois anos e começou a ser posta em prática há um. “Foi preciso definir a receita, apurá-la e controlar o nível de álcool. Estivemos um ano em fase de testes”, explica Isabel. Depois, houve a preocupação com o aspeto – sim, porque a embalagem também conta. E antes de chegarem ao mercado fizeram um teste cego. “As primeiras provas foram feitas no Eurotel [do qual Ana é uma das proprietária], em Altura, com os hóspedes. Ninguém sabia ao que ia, as pessoas iam comer e no fim nós dávamos a provar. Fazíamos uma prova cega e depois votavam, classificando numa ficha o licor”, recorda Ana, que esteve ligada à gestão de empresas da indústria têxtil. Ana e Isabel tiveram aí, logo no arranque, o sinal de qual seria o destino mais provável para o Orangea. Os turistas gostavam e perguntavam se podiam comprar para levar para os seus países. “Os que queriam mais eram os espanhóis, a seguir os ingleses, depois os alemães e, por fim, os franceses.” Estavam definidos os mercados a atacar.

Cartão de visita no aeroporto


Apesar do público alvo estar identificado, as empresárias começaram a comercializar o licor em Portugal, em especial no Algarve, por ser a zona de origem da matéria-prima e a região onde mais se concentram os estrangeiros. Uma parceria com a Garrafeira Soares – o maior distribuidor de bebidas alcoólicas na região – confirmou o que a prova cega já tinha dito. Os portugueses aderiam – afinal, uma das tendências mais recentes tem sido a aposta em bens e artigos nacionais – e os estrangeiros compravam e pediam para embalar e levar para casa. Sem grandes expectativas, um representante de bebidas alcoólicas pediu uma amostra para levar, juntamente com outras 99, à gestão das lojas dos aeroportos nacionais. Os artigos seriam testados e provados para ver quais poderiam integrar as suas prateleiras.
Pouco mais de um ano depois veio a resposta. O Orangea era selecionado para a entrar nos aeroportos de Lisboa e Faro. “Pensámos que não tivesse dado em nada. Entretanto, soubemos que a ANA teve uma remodelação enorme e foi aí que nos contactaram e disseram que queriam experimentar em Lisboa e Faro”, conta Ana. A expectativa é que sirva de âncora para ajudar o plano de exportação. Para o Orangea esta não será uma montra, será ‘a montra’. “Há sempre a questão do preço e da margem, porque no duty free é mais baixa. A internacionalização já consegue margens maiores, porque encolhe o segmento de mercado. Mas é fundamental na nossa estratégia de divulgação. É um teste. E dá prestígio, porque eles têm marcas muito internacionais, e para nós termos entrado há outra que saiu”, continua. Funciona como um selo de validação.
Em Portugal, a aposta continuará a ser comercializar o licor em lojas gourmet, por ser um produto da gama média-alta, e alargar a rede de distribuição. A prioridade, no entanto, passa por encontrar o local para a fábrica. “A primeira, por uma questão de controlo de qualidade, será aqui, em Cascais, onde moramos”, especifica Ana. A gestora fala em primeira porque o business plan do Orangea inclui uma segunda, no Algarve. Se tudo correr bem, em 2018 a faturação chegará a 773 mil euros e será precisa uma segunda unidade de produção.
“É engraçado isto estar a acontecer nesta fase da vida”, solta Ana. É um bocado como se se sentissem a recomeçar. Uma gestão feminina que recupera o desperdício de um produto nacional, ajudando os produtores, e quer dar a conhecer uma versão moderna e sofisticada do país. “Os produtores gostam de ver as laranjas reconhecidas, estão muito mal tratadas no comércio português. São vendidas a 20 cêntimos o quilo – temos de ter noção do que isto quer dizer ao nível dos intermediários”, conta Isabel. Será que esta preocupação é sinónimo de gestão no feminino? A pergunta já foi feita algumas vezes. “Um modelo de negócio para as mulheres é algo que tem muito a ver com o bom senso e com o sentir. Os homens ficam a olhar para os papéis e a analisar os dados todos; as mulheres são capazes de estar a fazer isso e, ao mesmo tempo, estar a falar com a designer por causa do rótulo. Isto não quer dizer que sejamos melhores que eles”, frisa Ana.

Este artigo é parte integrante da edição de março de 2016