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Juncker sai em defesa de Tsipras. Ressuscitar a Grexit é brincar com o fogo

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JULIEN WARNAND/GETTY

O presidente da Comissão Europeia diverge do FMI quanto à estratégia a seguir em relação à conclusão do primeiro exame ao terceiro resgate à Grécia. Em entrevista ao site financeiro grego Euro2day também defendeu que a reestruturação da dívida helénica deve ser discutida e condenou os que regressaram com o aviso de uma saída da Grécia do euro ( Grexit)

Jorge Nascimento Rodrigues

Jean-Claude Juncker sugeriu esta quarta-feira que não há necessidade da Grécia adotar já um pacote de contingência de mais medidas de austeridade como exige o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas não recusa tratar do assunto se isso for uma forma de encerrar o primeiro exame ao terceiro resgate que continua a marcar passo. Mas exige que isso seja feito em estreita cooperação com o governo grego.

O presidente da Comissão Europeia, em entrevista ao site financeiro grego Euro2day, defendeu, também, o direito do governo de Alexis Tsipras apresentar no Parlamento helénico um pacote de medidas relativo à reforma do sistema de pensões e ao IRS, mesmo sem a aprovação dos credores oficiais, ainda que ache que essas decisões unilaterais produzem um efeito negativo nas negociações em curso. Disse mesmo que “não estava muito alarmado com isso. É um direito do governo grego colocar propostas de lei no parlamento”.

Discordando do ministro alemão Wolfgang Schäuble defendeu que a questão do alívio da dívida grega deve ser discutida agora.

A entrevista foi realizada no sábado, mas só hoje foi publicada pelo site grego, e os analistas locais estão a interpretar as palavras de Juncker como um apoio ao governo de Atenas chefiado por Alexis Tsipras nesta ponta final das discussões no âmbito do exame ao resgate.

Quem tem os "números certos"

“Eu e a Comissão [Europeia] somos de opinião que os nossos números estão certos e que não há necessidade de medidas de contingência. Tornei isso perfeitamente claro quando falei com [Christine] Lagarde dizendo-lhe que os nossos pressupostos básicos estavam certos e estão certos. Mas, se para colmatar as diferenças entre as instituições e o governo grego, tais medidas forem apresentadas como opção examinaremos o assunto. Mas não é o caminho que apoiamos”, disse Juncker que defende os pressupostos e os números do excel da Comissão quanto a metas orçamentais e medidas para lá chegar.

O tira-teimas sobre os “números” do excel vai ocorrer amanhã, quando o Instituto de Estatísticas Helénico (ELSTAT) divulgar os valores do saldo orçamental primário para 2015, que são o ponto de partida dos cenários para os anos posteriores da Comissão, do governo de Atenas e do FMI. Vários analistas e o jornal grego "Kathimerini" referem que, em 2015, a Grécia deverá ter registado um excedente orçamental primário entre 1,1 a 1,2 mil milhões de euros, ou seja, entre 0,6 a 0,7% do PIB, ao contrário das previsões do Fundo que apontavam para um défice primário de 0,5% do PIB em outubro passado, agora agravado para 0,6%, no recém publicado "Fiscal Monitor" do FMI.

Não há imposição de dogmas

Juncker acha que a Grécia “sendo uma das mais antigas democracias do mundo, precisa de espaço a fim de decidir, com o nosso acordo, sobre a estrutura exata dos esforços que deve fazer”, pois “não se trata de impor dogmas”. Recordou inclusive o contexto difícil que o país atravessa atualmente: “A Grécia está enfrentando enormes problemas, problemas orçamentais, o programa económico e a crise de refugiados. Eu tenho a impressão que muitas pessoas esquecem que a Grécia está a enfrentar um grave problema de refugiados. Eu tenho isso bem em mente”.

Repudiou, também, as especulações sobre um novo verão quente com o risco de um novo incumprimento nos pagamentos aos credores oficiais e de uma saída da Grécia do euro (a Grexit). “Nem por um segundo acho que seja ajuizado e inteligente recomeçar esse debate. Uma Grexit não ocorreu e não acontecerá. Aqueles que regressaram com essa discussão estão a brincar com o fogo. Já temos crises que cheguem, não precisamos de mais uma”, disse Juncker.

Necessidade política de discutir o alívio de dívida

Quanto ao tema sempre polémico, na zona euro e na União Europeia, de uma nova reestruturação da dívida grega, o presidente da Comissão sublinha que “temos de dar um sinal de que algo mudou e, agora, cabe-nos dar um passo na direção do alívio da dívida”.

Neste assunto crítico, aproxima-se da posição do FMI – que considera indispensável uma nova reestruturação da dívida grega que garanta a sua sustentabilidade -, mas coloca de parte a possibilidade de um corte nominal na dívida aos credores oficiais europeus.

No entanto, discorda claramente do ministro das Finanças alemão: “Julgo que Schäuble se referia a que não haveria necessidade de discutir o assunto no curto prazo. Mas existe uma necessidade política. Nós queremos abordar o assunto da dívida e ninguém tem o direito de nos proibir de discutir e de refletir sobre isso”.