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Preço da OPA do Caixabank sobre o BPI dececiona

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Gustau Nacarino / Reuters

A bolsa de Lisboa acordou esta segunda-feira com uma oferta pública de aquisição do Caixabank sobre o BPI, a 1,113 euros por ação, valor considerado dececionante pelos analistas. Em fevereiro de 2015, o banco catalão tinha oferecido 1,329 euros

Depois de o BPI ter vindo anunciar, este domingo, a rutura das negociações entre Isabel dos Santos e o grupo La Caixa, esta manhã o banco espanhol lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre o banco liderado por Fernando Ulrich. É um passo em frente depois de ter falhado uma tentativa de entendimento com a empresária angolana, e uma forma de contornar a barreira criada pela dificuldade em chegar a acordo.

O Caixabank, maior acionista do BPI, com 44,1%, oferece 1,113 euros por ação. É, dizem analistas ouvidos pelo Expresso, um valor "dececionante". É que em fevereiro de 2015, o CaixaBank tinha oferecido €1,329 por ação. E a 11 de abril, último dia de negociação das ações do BPI, as ações tinham transacionado a €1,19. A oferta do Caixabank avalia o BPI em €1,6 mil milhões, abaixo da capitalização bolsista do banco que se situa nos €1,7 mil milhões. "O preço da OPA não é atrativo. O Caixabank está a tentar adquirir o controlo do BPI sem pagar um prémio", afirmou um analista que pediu anonimato.

A negociação das ações do BPI encontra-se suspensa desde a passada segunda-feira, e aguarda-se agora a qualquer momento que seja levantada e as ações voltem a transacionar.

O sucesso da OPA do Caixabank está dependente da desblindagem dos estatutos do BPI, cujos votos estão limitados a 20% do capital, e à obtenção de mais de 50% do capital do banco. O Presidente da República já tem entretanto em Belém uma proposta de lei do Governo para desblindagem dos estatutos. O diploma que permite a alteração da legislação foi aprovado pelo executivo de António Costa na passada quinta-feira. Com a desblindagem dos estatutos a cada ação corresponderá um voto, e os acionistas irão passar a votar com todo o capital que detêm. Hoje os 44,1% do Caixabank em termos de poder de voto valem praticamente tanto quanto os 18,6% de Isabel dos Santos.

Com a OPA, e se esta tiver sucesso, o Caixabank cria condições para responder à exigência do Banco Central Europeu (BCE) de reduzir a exposição do BPI ao Banco Fomento de Angola (BFA), já que poderá avançar mais facilmente para uma solução, admitem analistas. Já Isabel dos Santos, detentora através da Santoro de 20% do capital do BPI, perde poder negocial. Não obstante, não é certo que o Caixabank consiga encontrar uma solução eficaz para o BFA, já que o que vier a ser decidido para o banco angolano, controlado em 49% pela Unitel, terá em princípio de ter a "luz verde" do Banco Nacional de Angola.

O BPI tinha até ao dia 10 de abril para resolver a situação do BFA e da exposição a África, caso contrário poder-lhe-ia ser aplicada pelo BCE uma coima diária de até 5% do volume de negócios (cerca de 160 mil euros no máximo). Resta agora saber o que irá fazer Frankfurt.

O facto de o Banco de Portugal, conforme foi noticiado ontem pelo Expresso, não ter dado a idoneidade aos novos órgãos sociais do BIC Portugal, banco onde Isabel dos Santos detém uma participação de 42,5%, pode ser um factor adicional de instabilidade face ao posicionamento da empresária angolana em relação ao BPI, dizem analistas. Aparentemente, a atribuição de idoneidade aos órgãos sociais do BIC era uma das contrapartidas pedidas por Isabel dos Santos para dar o sim à venda da sua posição ao Caixabank. A outra era a cotação do BFA na Bolsa de Lisboa. O nome proposto para a liderança do BIC era o de Jaime Pereira, atualmente número dois do banco e sob alegada suspeita de branqueamento de capitais. A idoneidade de Isabel dos Santo também estava em avaliação no Banco de Portugal.

"Entendemos que a falta de entendimento entre os dois maiores acionistas do banco tende a limitar de forma significativa o BPI. Como as últimas Assembleias Gerais tornaram evidente, a falta de entendimento entre o CaixaBank (participação de 44.1% no BPI) e a Santoro Finance (18.6%), num contexto da limitação estatutária de 20% na contagem de votos expressos, é um fator de bloqueio para a tomada de quaisquer decisões relevantes para o futuro do banco", afirma André Rodrigues, analista do Caixa-BI, no comentário diário do banco de investimento da CGD.