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Alemanha diverge do FMI

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O Comité Financeiro e Monetário do FMI quer o uso flexível da política orçamental e a continuação da política monetária de estímulos. O ministro das Finanças alemão contrapõe que os impactos negativos das políticas expansionistas são cada vez mais visíveis. Posições divergentes este sábado em Washington na ponta final da reunião de Primavera do FMI

Jorge Nascimento Rodrigues

O Comité Financeiro e Monetário Internacional do Fundo Monetário Internacional (FMI) reuniu-se este sábado em Washington para aprovar “uma resposta de políticas” aos riscos crescentes para a economia mundial apontando para a combinação das políticas monetária, orçamental e de reformas estruturais num quadro de apoio à procura mundial.

Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, tem dito que a resposta tem de ser tripla e não sobrecarregar a política monetária e que alguns governos mais reticentes têm de ultrapassar “linhas vermelhas” que traçaram em relação à conjugação dos três vetores.

O Comité aprovou hoje essa tripla estratégia. Primeiro, política orçamental amiga do crescimento “em todos os países”, implicando o “uso flexível da política orçamental” e uma política fiscal e de despesa pública “o mais amigas possível do crescimento, dando prioridade a gastos em investimento de alta qualidade”. Segundo, a política monetária “acomodatícia” tem de prosseguir nas economias desenvolvidas “onde o desvio do produto for negativo e a inflação estiver abaixo da meta”, mas não pode agir sozinha, tem “de ser acompanhada por outras políticas”. Terceiro, reformas estruturais beneficiando de “sinergias com outras políticas de apoio à procura”. O Comité pede, depois, que haja cooperação internacional nestas várias frentes.

Na conferência de imprensa que se seguiu, Lagarde disse que as reuniões do Comité são "uma espécie de terapia, uma terapia coletiva para passar de uma situação negativa que enfrentamos e dos desafios que se colocam no horizonte, para uma abordagem positiva".

Schäuble: cautela na política orçamental

Mas há quem, na "terapia coletiva", marque a diferença, ainda que usando, por vezes, expressões similares no que respeita à necessidade de políticas “amigas do crescimento” e concordando com aspetos parciais da estratégia global. Na intervenção na reunião de hoje, o ministro das Finanças alemão frisou que “a política monetária não é substituta de uma política orçamental sólida e sustentável e de reformas estruturais” e que, “tendo em conta as circunstâncias extraordinárias nos mercados financeiros, as políticas orçamentais têm de ter um alto grau de cautela e de controlo dos gastos”. Wolfgang Schäuble disse inclusive que a “política orçamental [alemã] em 2016 já é consideravelmente expansionista” e que, até 2019, o governo aumentará em média 4% ao ano o investimento público em áreas como a investigação e desenvolvimento, as infraestruturas e a educação.

Quanto ao que está em jogo na tripla estratégia de que fala o FMI, o ministro germânico sublinhou: “As limitações e efeitos negativos colaterais das políticas macroeconómicas expansionistas têm-se tornado mais visíveis quanto mais são aplicadas. Elas podem facilitar a complacência em relação às reformas orçamentais, financeiras e estruturais necessárias”. E, mais adiante sobre a política monetária atual do Banco Central Europeu (BCE), Schäuble chamou a atenção que” a eficácia das políticas extraordinárias e de taxas de juro muito baixas tem sido posta em causa e temos de prestar muita atenção aos efeitos colaterais negativos na estabilidade financeira”. O FMI, no "World Economic Outlook" divulgado durante a semana, havia considerado "apropriado" o recente pacote de mais estímulos monetários aprovado pelo BCE na reunião de março.