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Vítor Gaspar falou com o Expresso. E dá a receita contra o “crescimento fraco”

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alberto frias

Ex-ministro das Finanças avisa que os países devem estar preparados para atuar se o crescimento abrandar e o risco de deflação se materializar. E política orçamental deve ajudar: “Crescimento fraco por demasiado tempo exige combinação das políticas monetárias, orçamental e estruturais”

Vitor Gaspar deixou o ministério das Finanças em 2013, depois da célebre crise política do verão desse ano em que Paulo Portas esteve quase a demitir-se, mas não largou a política orçamental. Mas agora acompanha o assunto a partir de Washington, onde assumiu, em 2014, a direção do Departamento de Assuntos Orçamentais do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em entrevista ao Expresso, que será integralmente publicada na edição de sábado, Gaspar sublinha algumas das preocupações do relatório Fiscal Monitor sobre política orçamental que hoje foi divulgado na capital norte-americana, onde esta semana decorrem as reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial.

O ex-ministro das Finanças avisa que há riscos na economia mundial e que, a nível global, é necessário “estar preparado para atuar, de forma coordenada, no caso de se concretizarem riscos recessivos e desinflacionistas”. Recorde-se que, ontem, o FMI avançou novas previsões para a economia mundial que, entre outras coisas, passaram por uma nova revisão em baixa da estimativa de crescimento do PIB global este ano para 3,2%.

Ao mesmo tempo, o FMI alertou que os riscos relacionados com o abrandamento económico na China, os mercados financeiros ou as matérias-primas podem agravar a situação para lá do esperado. A resposta, diz Vítor Gaspar, deve ser múltipla e em várias frentes: “Os últimos tempos têm sido caracterizados por crescimento nominal demasiado fraco por demasiado tempo. Esta situação exige uma combinação consistente das políticas monetária, orçamental e estruturais.”

Esta solução tripartida, incluindo a política orçamental que tem sido recusada por alguns governos na zona euro, é algo que tem sido fortemente sublinhado por vários responsáveis do FMI e do Banco Central Europeu que, por diversas vezes, pediu ‘ajuda’ para enfrentar os problemas económicos na zona euro. Designadamente, o esforço de levar a inflação de volta aos 2% que é a meta da política monetária europeia.

Qualquer impulso orçamental na zona euro, ressalva Gaspar, deve, no entanto, ser realizado dentro do espaço orçamental “permitido pelas regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento”. O Fiscal Monitor, aliás, deixa bem claro que os países com margem orçamental devem atuar, mas apenas estes. Uma mensagem sem destinatário identificado no relatório mas que, no caso da zona euro, visa em particular países como a Alemanha.

Sobre o caso concreto português, o ex-ministro das Finanças não quis fazer comentários, porque “não está na tradição do FMI que funcionários comentem questões relativas aos países de que são nacionais”.