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É preciso um plano B para a economia mundial, avisa o FMI

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O Fundo Monetário Internacional voltou a cortar a sua previsão de crescimento mundial para este ano. Mas se os riscos mais negativos se materializarem, o “World Economic Outlook” divulgado esta terça-feira quer “planos de contingência”

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) quer um plano B, de contingência, se quatro tipos de riscos mais negativos se materializarem, sublinha o “World Economic Outlook” (WEO), o documento de previsões macroeconómicas que foi esta terça-feira divulgado em Washington no âmbito da reunião da Primavera da organização liderada por Christine Lagarde.

“O WEO avisa que os decisores de políticas têm também de realizar planos de contingência e desenhar medidas coletivas para um futuro próximo no caso de se materializarem os riscos descendentes”, refere o documento. E, referindo-se explicitamente às maiores economias, recomenda: “Devem identificar proactivamente ações adicionais de políticas que possam ser implementadas rapidamente” se surgirem tais sinais.

O plano B será inevitável se ocorrerem situações “menos favoráveis e mais prováveis fora do cenário base”: se a turbulência nos mercados financeiros regressar como ocorreu no início de janeiro; se os preços do petróleo continuarem baixos e desestabilizarem seriamente as economias exportadoras do ouro negro; se a China abrandar mais do que o previsto; se se agravarem as saídas de capital dos mercados emergentes; e se não forem controlados regional e globalmente “choques não económicos”, derivados da geopolítica, de crises políticas internas e de guerras civis, do terrorismo, da vaga de refugiados e de epidemias globais.

Um quadro negro de nacionalismo crescente, Brexit e recuo da globalização

Na apresentação esta terça-feira do WEO, o economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld, fala inclusive da subida do nacionalismo protecionista na Europa, da “real possibilidade de que o Reino Unido saia da União Europeia” (o que tem sido designado por Brexit), de uma reversão nomeadamente na Europa e nos Estados Unidos da tendência de abertura comercial após a 2ª Guerra Mundial, que impulsionou a globalização, da sensação em muitos países de uma desigualdade crescente em que uma elite tem saído beneficiada, e do risco do que “alguns economistas têm caraterizado como estagnação secular”.

Entretanto, face a “um crescimento persistentemente fraco”, o FMI reviu em baixa, uma vez mais, as suas previsões de crescimento para a economia mundial e para as principais economias e grupos de países. A nova previsão de crescimento mundial do PIB para 2016 é, agora, de 3,16%, cerca de uma décima mais do que o crescimento registado no ano anterior. Em outubro de 2015, na reunião de Outono, os técnicos do FMI avançaram com uma previsão de 3,6% para 2016; em janeiro deste ano, cortaram-na para 3,4%.

Em seis meses reduziram a previsão para 2016 em 0,4 pontos percentuais. Em relação a 2017, as previsões, desde outubro passado, levaram um corte de 0,3 pontos percentuais. O maior corte acumulado em 2016 abrange as economias emergentes e em desenvolvimento. O economista-chefe do FMI não deixou de confessar que “ao longo do tempo, as nossas projeções continuam a ser progressivamente menos otimistas”.

O ritmo anual de crescimento da economial mundial desceu abaixo de 4% em 2012. Nas projeções atuais do FMI, nem mesmo em 2021 se regressará ao nível de 2011, quando o PIB mundial cresceu 4,2%. Será, de facto, um crescimento "muito lento por muito tempo", como se intitula o WEO deste ano. Desde o ano 2000, o crescimento mundial cresceu abaixo de 3% em 2001 e 2002 e registou uma contração ligeira de 0,05% em 2009, após a grande crise financeira do ano anterior.

Japão cai em recessão em 2017

Nas maiores economias desenvolvidas, o “motor” de crescimento estará nos Estados Unidos, com um ritmo de 2,4% em 2016 e 2,5% no ano seguinte, quase 1 ponto percentual mais do que as previsões para a zona euro, que continuará com um crescimento “modesto”, marcado por baixo investimento e alto nível de desemprego. O ponto mais negativo estará no Japão com uma recaída na recessão em 2017.

No mundo emergente e em desenvolvimento, o FMI corrigiu em alta o crescimento para a China em 2016, situando-o, agora, em 6,5%, em consonância com as metas políticas de Pequim, e agravou as previsões de recessão para o Brasil e a Rússia este ano.

O Brasil deverá afundar-se 3,8% este ano, o mesmo do que no ano passado, destacando-se pela negativa no universo dos emergentes e no “clube” do BRICS. A revisão em baixa do crescimento brasileiro desde outubro do ano passado é de 2,8 pontos percentuais, um corte brutal. A previsão da recessão russa em 2016 agravou-se desde o WEO de Outono passado, situando-se, agora, numa quebra de 1,1%, mas ficará aquém do afundamento de 3,7%, registado em 2015.

No entanto, o FMI prevê que a Rússia regresse ao crescimento no próximo ano, ainda que inferior a 1%, e que o Brasil normalize a situação política e que a economia estagne, deixando de se contrair em 2017.

A Índia surge nas grandes economias como o “motor” mundial, com níveis de crescimento persistentes de 7,5% este ano e no próximo.

Resposta proactiva imediata quer Lagarde

Num quadro de crescimento mundial próximo de 3%, o FMI apela a uma “resposta proactiva imediata”, como sublinhou Obstfeld. “Um crescimento fraco significa que há menos margem para errar”, recordou duas vezes o economista-chefe.

Por isso, a organização chefiada por Christine Lagarde quer “ações de política mais agressivas” e baseadas em três eixos, e não apenas na política monetária. O que, aliás, já havia sido sublinhado no último encontro de ministros de Finanças e de banqueiros centrais do G20 e na reunião de março do Banco Central Europeu, em que se fez um “apelo forte” aos governantes da zona euro para não “sobrecarregarem” a política monetária. Em relação à frente monetária nos países desenvolvidos, o FMI continua a insistir que uma “política acomodatícia” (de estímulos monetários) continua a ser essencial para apoiar o crescimento e aumentar as expetativas de inflação.

A nova “combinação” de políticas que o FMI advoga insiste em que se faça mais na política orçamental expansionista, onde haja margem para tal, e se faça diferente nas reformas estruturais.

“Para um certo número de países, o investimento em infraestruturas parece atrativo, tanto do ponto de vista do curto quanto do longo prazo, tendo em conta as atuais baixas taxas de financiamento de que os governos dispõem”, refere-se, por um lado. Por outro, defende-se que as reformas estruturais devem ser acompanhadas de estímulos orçamentais.

O capítulo do WEO sobre esta matéria, divulgado antecipadamente na semana passada (e a que o Expressp então se referriu), apontava para uma revisão das políticas de reforma estrutural baseadas em corte de subsídios de desemprego e agravamento da legislação de emprego, que têm efeitos recessivos quando as economias têm problemas sérios de subutilização de recursos (de capital e de trabalho). O FMI defende que se deve dar primazia à redução da carga fiscal sobre o trabalho e ao aumento do gasto público em investigação e desenvolvimento e em políticas ativas de emprego.

Impulso orçamental face ao pior cenário

No caso dos riscos se agravarem e do quadro evoluir para uma situação de "estagnação secular" nas economias desenvolvidas com baixa inflação, que poderá gerar uma quebra acumulada de cerca de 2,5 pontos percentuais no PIB mundial até 2021 em relação ao nível de 2015, o WEO recomenda um plano B, um "resposta coletiva expansionista a nível orçamental".

Esse "impulso orçamental" deverá equivaler a 1,5% do PIB nas economias desenvolvidas e 1% do PIB nas economias emergentes. Esse impulso deve basear-se em investimentos geradores de "multiplicadores elevados no curto prazo", nomeadamente em infraestruturas, inovação, políticas ativas de emprego e inclusive "transferências direcionadas para as famílias que forem mais atingidas pela redução da atividade".