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Há falta de profissionais qualificados

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As empresas nacionais querem contratar, mas em áreas como as tecnologias ou a engenharia não é fácil

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

O recrutamento está inscrito nas orientações estratégicas para 2016 de 74% das empresas nacionais. O número foi recentemente avançado pela multinacional de recrutamento Hays, com base no seu inquérito nacional às intenções de contratação das empresas, conduzido junto de 800 empregadores. Depois de, em 2013, o desemprego nacional ter alcançado os 17,8% (fixando-se agora nos 12,2%), a estimativa avançada pela consultora Hays relança o otimismo entre os profissionais que procuram novos desafios de carreira. Os sinais são positivos, mas os recrutadores hesitam em falar de uma retoma sustentada do mercado de trabalho, argumentando que Portugal está a criar emprego em várias áreas, mas a velocidades distintas. Em alguns sectores, como as Tecnologias de Informação (TI) ou alguns ramos da Engenharia, a dinâmica das contratações é acelerada e há já dificuldade em recrutar perfis qualificados.

Na semana em que começa a segunda edição da iniciativa Portugal a Recrutar, promovida pelo Expresso Emprego com o objetivo de dinamizar o recrutamento nacional — através da realização de várias feiras virtuais de emprego — e o debate em torno da empregabilidade, o Expresso chamou à discussão os líderes de algumas das principais consultoras de recrutamento. Em sintonia, os seis especialistas destacam a crescente dinâmica na criação de emprego, mas confirmam a existência de desafios, como o de atrair de volta ao país os mais de 100 mil profissionais qualificados que nos últimos dois anos emigraram, fosse por falta de oportunidades de carreira ou por melhores condições oferecidas no estrangeiro.

Depoimentos

(da esquerda para a direita e de cima para baixo)

Tanto o país como as empresas precisam de ter uma base de execução dos seus planos assente no rigor e na agilidade operacional, fiscal e laboral, que certamente irá maximizar a sensação de melhoria que se sente e que se quer consistente e duradoura”

Afonso Carvalho, Diretor-geral da Kelly Services e presidente da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego (APESPE)

2015 acabou por ser um ano de aumento generalizado nas contratações. Contudo, verifica-se uma grande dificuldade do mercado de trabalho em dar resposta ao elevado volume de solicitações de profissionais qualificados”

Paula Batista, Diretora-geral da Hays

Há uma significativa onda de progresso nas áreas tecnológicas, na saúde, na agricultura e no turismo, que infelizmente ainda não chega para alavancar os indicadores de emprego a nível nacional.”

Amândio da Fonseca, Administrador do grupo EGOR

Para que o crescimento económico e a criação de emprego sejam sustentados, é fundamental que exista um quadro governativo, financeiro e legal estável em Portugal. Foi visível o impacto que a recente instabilidade causada pelos resultados das últimas eleições teve nos processos de decisão”

Álvaro Fernández, Diretor-geral da Michael Page

A fuga de cérebros não deve ser vista como um problema no seu todo. Claro que é fundamental para as nossas empresas e para o país, ser atrativo para trabalhar. Mas, ao mesmo tempo, é muito importante que haja também este interesse mundial nos nossos talentos”

José Miguel Leonardo, Diretor-geral da Randstad

Após a saída da troika de Portugal e a previsão de uma maior estabilidade financeira, há um sentimento de maior confiança dentro das empresas, estimando-se que 2016 seja um ano de evolução do mercado de trabalho. É expectável um maior investimento na procura de profissionais em diferentes áreas”

Pedro Mota, Diretor de Negócios da Wyser Portugal

O real impacto, para as empresas e para a economia, da fuga de ‘cérebros’ altamente qualificados que o país tem enfrentado ainda não é possível avaliar. Mas para Paula Baptista, diretora-executiva da Hays Portugal, esta fuga de talento, maioritariamente centrada em engenheiros informáticos e de outras especialidades, perfis das TI e profissionais de saúde, já tem impactos evidentes nos desafios de contratação das empresas nestas áreas. “A escassez de determinados perfis, fundamentais para sectores-chave da economia portuguesa já se faz sentir e é previsível que se torne ainda mais problemática a curto prazo”, realça a líder da Hays.

A maioria dos especialistas enfatiza que não se pode olhar para a emigração qualificada apenas na perspetiva da perda de talento, realçando a aposta estruturante que o país deve fazer na sua capacidade de atração destes perfis, promovendo o seu regresso à economia nacional, com boas oportunidades de carreira e desenvolvimento profissional. Para Amândio da Fonseca, administrador do Grupo Egor, “o brain drain hunting a que as universidades tecnológicas são sujeitas leva a que muito do talento gerado em Portugal seja atraído pela emigração. Em muitos casos, não por ausência de oportunidades em Portugal, mas pelo desejo de acesso a novos conhecimentos e experiências”. Uma opção que José Miguel Leonardo, diretor-geral da Randstad, encara com algum positivismo: “É muito importante que haja também interesse mundial nos nossos talentos, aumentando a competitividade das nossas escolas e colocando-as entre as melhores a nível global”.

Talentos em falta

Mas à medida que a economia nacional ganha dinamismo e as empresas retomam as contratações, a necessidade de perfis qualificados é maior e a sua atração comporta desafios acrescidos. Pedro Mota, diretor de Negócio da consultora Wyser, realça que o foco das contratações das empresas nacionais está em áreas como as TI, a Saúde, Engenharia, Arquitetura, Gestão, Economia ou Marketing. Algumas destas áreas são, exatamente, as que mais profissionais colocaram no estrangeiro, gerando as dificuldades de contratação atuais que Paula Baptista elenca e cuja resolução depende, segundo Afonso Carvalho, diretor-geral da Kelly Services, de uma progressão sustentada e estrutural da criação de emprego. “Só isto poderá trazer de volta muitos destes profissionais. É importante que a nível socioeconómico estas pessoas consigam perspetivar um país sólido que resolve os seus problemas e cria condições (fiscais, governativas e empresariais) para as gerações vindouras”.

Um quadro de estabilidade é também apontado por Álvaro Fernández, diretor-geral da Michael Page, como fundamental para o crescimento sustentado do emprego nacional. “Muito dificilmente Portugal conseguirá competir com grandes potências a nível salarial, pelo que tem de procurar outras formas de atrair talento”, reforça, destacando a necessidade de investimento das empresas em planos de carreira que permitam o desenvolvimento, uma aposta sustentada na formação contínua e em planos de mobilidade que permitam aos profissionais capitalizar conhecimento e boas práticas internacionais, regressando depois ao país e colocando-os ao serviço das empresas portuguesas.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 abril 2016