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O dia de Brutus

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tiago miranda

Foi exatamente há cinco anos. O drama já se vinha a arrastar desde o chumbo do PEC IV no dia 23 de março de 2011 e a consequente demissão do Governo. Mas o primeiro-ministro de então. José Sócrates, ainda tentava evitar um pedido de assistência internacional. Nesse dia à tarde, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, utilizou o punhal com que liquidou a teimosa esperança que Sócrates ainda acalentava

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Por sua iniciativa, Teixeira dos Santos fez uma declaração ao “Jornal de Negócios”, afirmando que, no seu entender, era “necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu em termos adequados à atual situação política”. Às 18h02, o jornal publicou a declaração de Teixeira dos Santos com o título “Portugal vai pedir ajuda externa”. A partir daí, a pradaria pegou fogo. As agências noticiosas fizeram a noticia correr rapidamente por todo o mundo. O primeiro-ministro só tinha duas opções: ou demitia o ministro das Finanças ou confirmava a sua declaração. Inclinou-se perante o inevitável. Sócrates tinha encontrado o seu Brutus.

Às vinte para as nove da noite, na residência oficial do primeiro-ministro em São Bento, Sócrates, tendo ao seu lado um Teixeira dos Santos esfingicamente tenso, dirigiu-se ao país para anunciar a decisão. Tomou-a como sendo sua e do Governo, não sem antes lembrar que tudo tinha feito para que tal não acontecesse. “A verdade é que tínhamos uma solução e ela foi deitada fora”. Sócrates referia-se ao PEC IV e ao seu chumbo pelo PSD e toda a oposição, abrindo uma crise política e fragilizando ainda mais a posição portuguesa perante os mercados internacionais. “Sempre encarei um pedido de ajuda externa como uma solução de último recurso (…) Tudo tentei. Mas em consciência julgo que chegámos ao momento em que não tomar essa decisão acarretaria riscos que o país não deve correr”. E concluiu: “Por isso, gostaria de comunicar aos portugueses que o Governo decidiu hoje mesmo dirigir à Comissão Europeia um pedido de assistência financeira”.

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Depois, saiu da sala sem sequer olhar para Teixeira dos Santos, que permaneceu sempre hirto e ligeiramente atrás de si e desceu à sala da cave de São Bento, onde reuniu o Conselho de Ministros. Fez uma curta intervenção, dando depois a palavra aos ministros. Todos falaram, com exceção de um: Teixeira dos Santos. Como relatam David Dinis e Hugo Filipe Coelho no seu livro “Resgatados”, a mais minuciosa descrição do que passou naqueles dias de brasa e de que são retirados os dados factuais do que escrevo, “a tensão na sala era notória. Ninguém olhava para Teixeira dos Santos mas cada palavra era dita como se todas fossem uma só: traição. O ministro das Finanças entrou como saiu, sem uma justificação do ato ou um pedido de desculpa. Foi o único que não tomou a palavra”.

É óbvio que fora de São Bento Teixeira dos Santos tinha apoios de peso. Desde logo do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. Seu amigo desde os tempos da universidade. Costa estava mais que convencido que Portugal tinha mesmo de pedir ajuda internacional. Nesse sentido escreveu uma carta ao Presidente da República, Cavaco Silva, e outra ao primeiro-ministro, dando conta de que o resgate tinha de ser feito ou o Estado entraria em incumprimento. Depois, também os cinco maiores banqueiros portugueses apoiavam o resgate, até porque Carlos Costa lhes tinha dito, preto no branco, que não podiam continuar a financiar a República. “O risco é afundarem-se os bancos, a parte sã, e a República, que é a parte que criou o problema. Portanto, temos de dizer ao Governo que é tempo de pedir o resgate”. E eles assim fizeram, primeiro indo dizer isso mesmo a Teixeira dos Santos na tarde de 4 de abril e depois em sucessivas entrevistas à TVI e à RTP a reafirmar a mesma coisa: Portugal tinha de pedir ajuda internacional – apesar de Sócrates lhes ter pedido mais um esforço até às eleições por entender que não deveria ser um Governo de gestão a fazer esse pedido.

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Em Belém morava outro inimigo declarado das opções de Sócrates: Cavaco Silva, que fora violentíssimo contra o Governo nos seus discursos de vitória e de posse aquando da reeleição e também na sua intervenção no 25 de abril. Cavaco recebeu todos os banqueiros (Faria de Oliveira, Ricardo Salgado, Santos Ferreira, Nuno Amado e Fernando Ulrich) e falou várias vezes com o governador do Banco de Portugal. Também teve contactos frequentes com o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, pelo que é muito difícil aceitar que não sabia que estava em preparação um plano, que tinha o suporte da Comissão e da chanceler alemã Angela Merkel, que passava pelo PEC IV e que evitava que Portugal pedisse um resgate nos moldes da Grécia e da Irlanda.

Em qualquer caso, havia uma grande unanimidade entre Carlos Costa, os banqueiros portugueses, Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas no sentido de que era urgente pedir ajuda internacional e chamar o FMI. Viam esse pedido não só como incontornável, mas também como uma forma de derrotar Sócrates e afastar o PS do poder. E sucediam-se as garantias de que, desde que houvesse vontade política para cortar as gorduras do Estado, as contas públicas rapidamente regressariam à normalidade.

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Cinco anos depois, o que se pode dizer é que Sócrates conduziu o país ao abismo, embora fizesse tudo para evitar o pedido de ajuda internacional; que afinal os problemas do país eram de muito mais difícil resolução do que os defensores da intervenção proclamavam na altura; que alguns bancos e banqueiros faziam parte do problema e não da solução e estavam tão mal ou pior que a República; que o governador do Banco de Portugal que garantiu sempre a solidez do sistema financeiro teve de ordenar a resolução do terceiro e do sétimo maiores bancos portugueses e que enfrenta ainda hoje uma enorme crise no setor; que Passos Coelho aproveitou o programa de ajuda internacional para ir além da troika e reconfigurar as relações na economia portuguesa; e que infelizmente o desafogo que o país hoje conhece no acesso aos mercados financeiros decorre essencialmente da política de estímulos à economia europeia conduzida pelo presidente do BCE, Mario Draghi.

Tão isolado e com inimigos tão poderosos, dificilmente Sócrates poderia sobreviver. Faltava apenas encontrar quem quisesse empunhar o punhal e desferir o golpe fatal. Foi Teixeira dos Santos. Brutus é sempre quem está mais próximo do líder.