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Portugal lidera subidas nos juros da dívida nos periféricos

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Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam esta terça-feira em 3,15%, o nível mais elevado desde 9 de março. Foi a maior subida hoje registada nos periféricos do euro. Prémio de risco da dívida portuguesa encerra acima de 3 pontos percentuais

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, fecharam esta terça-feira em 3,15% no mercado secundário da dívida soberana, um nível que já não se registava desde 9 de março. Em relação ao fecho do dia anterior, foi uma subida de 21 pontos base (0,2 pontos percentuais), a mais elevada verificada hoje nos periféricos da zona euro. Trata-se da quarta maior subida diária este ano no caso português, depois do stresse de 8 a 11 de fevereiro, com as yields naquele prazo de referência a atingirem um pico de 4,5%.

Fruto desta subida significativa esta terça-feira, e da descida para 0,1% das yields relativas às obrigações alemãs, o prémio de risco de Portugal voltou a situar-se acima de 300 pontos base, o equivalente a um diferencial de 3 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã. No início do mês registava 281 pontos base.

O “Financial Times” noticiou esta terça-feira que 14 investidores internacionais decidiram contratar o escritório britânico de advogados Clifford Chance para processar o Banco de Portugal (BdP) exigindo a recuperação das perdas resultantes da decisão da equipa do governador Carlos Costa em transferir para o "banco mau" do BES cinco linhas obrigacionistas sénior do Novo Banco. No final da semana passada já se soubera que haviam dado entrada no Tribunal Administrativo de Lisboa 29 processos com o BdP.

A especulação sobre que tipo de decisão negativa – baixa da perspetiva (outlook) ou mesmo corte do rating para terreno especulativo (“lixo financeiro”), o que teria consequências graves - poderá tomar a agência de notação canadiana DBRS a 29 de abril voltou à ribalta nos últimos dias e hoje, de novo, com declarações no Luxemburgo do diretor do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Klaus Regling.

O segundo maior aumento registou-se nas yields das obrigações gregas que fecharam em 9,22%, uma subida de 14 pontos base em relação ao fecho de ontem, quando registaram um disparo, em virtude do impacto da “fuga” publicada pelo WikiLeaks no sábado a respeito de uma teleconferência entre altos quadros do Fundo Monetário Internacional (FMI) em que alegadamente se discutia a alavancagem de um “evento” na Grécia no verão e a coincidência com o impacto do referendo britânico de permanência ou não na União Europeia.

A diretora-geral do FMI reuniu esta terça-feira com a chanceler alemã em Berlim. Angela Merkel repetiu que um perdão da dívida grega detida pelos credores oficiais europeus é "legalmente impossível", referindo que há "outras possiblidades" de mudança do perfil daquele dívida e insistindo que a Alemanha quer o Fundo como "participante no programa" de resgate.

As yields das obrigações espanholas e italianas subiram quatro pontos base e as relativas às obrigações irlandesas aumentaram apenas um ponto base.

Crescimento medíocre e perda de fé

Os mercados financeiros da Ásia, à Europa e aos Estados Unidos foram esta terça-feira afetados negativamente por duas ocorrências com impacto global, uma sobre o cenário mundial macro e outra sobre o mercado petrolífero, que estão apara além do problema grego (risco de uma nova crise grave no verão) ou português (stresse grave provocado por decisão negativa da DBRS a 29 de abril).

Por um lado, a diretora-geral do FMI afirmou numa conferência em Frankfurt e em declarações à Bloomberg que o Fundo que dirige “está em alerta, mas não alarmado” face à perspetiva de a economia mundial ficar presa numa situação de “novo medíocre” (uma retoma com um crescimento medíocre, excessivamente vagarosa, demasiado frágil e com a probabilidade de durabilidade a aumentar, para usar as expressões de Christine Lagarde).

O FMI tem vindo a preparar a opinião pública mundial para um novo corte nas previsões de crescimento mundial na assembleia da Primavera que se inicia a 15 de abril em Washington. Lagarde referiu ontem em Berlim: "A perspetiva global piorou mais nos últimos seis meses, portanto poderão deduzir que haverá uma revisão ligeira" das previsões do FMI no próximo "World Economic Outlook" que será divulgado na íntegra na próxima semana para a assembleia do Fundo e do Banco Mundial a partir de 15 de abril.

Por outro, os operadores do mercado petrolífero “perderam a fé” na reunião agendada para Doha a 17 de abril entre o cartel petrolífero da OPEP (Orgaização dos Países Exportadores de Petróleo) e países não membros (como a Rússia), como sublinhava o “Oil Price Intelligence Report” de hoje. Entretanto, o Kuwait insistiu que é possível um acordo em Doha mesmo sem o Irão, o que permitiu ao preço do barril de petróleo de Brent fechar em alta acima de 38 dólares.

As bolsas mundiais perderam esta terça-feira 1,39%, segundo o índice MSCI global. A maior queda registou-se no índice MSCI para a Europa que recuou 1,95%. As maiores quedas de índices nas principais praças financeiras incluíram o MIB de Milão, com uma perda de 3%, e, com quedas entre 2% e 3%, o Dax de Frankfurt, o Nikkei 225 de Tóquio, o Ibex 35 de Madrid, o Cac 40 de Paris e os dois índices de Mumbai. O índice PSI 20 da Bolsa de Lisboa perdeu 2,07%. As bolsas de Nova Iorque recuaram 1%, sendo o segundo dia consecutivo desta semana no vermelho.