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Juros da dívida grega disparam depois de 'fuga' no WikiLeaks

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Os juros das obrigações gregas a 10 anos tiveram esta segunda-feira a quarta maior subida diária do ano com os investidores a 'digerirem' a divulgação de uma transcrição de uma conversa interna do FMI. Contágio aos restantes periféricos foi diminuto. Juros da dívida portuguesa subiram ligeiramente

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram 30 pontos base esta segunda-feira no mercado secundário da dívida soberana fechando em 9%. Foi a quarta maior subida diária registada este ano depois dos disparos de 20 de janeiro, e 8 e 9 de fevereiro nas yields das obrigações gregas.

O contágio para os restantes periféricos foi diminuto. As yields das Obrigações do Tesouro português a 10 anos subiram 2 pontos base fechando em 2,94%; o mesmo aumento registou-se para as yields das obrigações espanholas naquele prazo de referência. As yields das obrigações irlandesas subiram apenas 1 ponto base e as relativas às obrigações italianas não registaram alteração em relação ao fecho de sexta-feira passada no prazo a 10 anos.

O disparo no caso grego deveu-se esta segunda-feira à “digestão” pelos mercados obrigacionistas do vendaval levantado pela divulgação no sábado pelo WikiLeaks de uma transcrição de uma alegada discussão interna a 19 de março entre altos quadros do Fundo Monetário Internacional (FMI) responsáveis pelo acompanhamento do processo de resgate grego.

Nessa discussão interna aventava-se a possibilidade de alavancar um “evento” que levasse Atenas e os credores oficiais europeus a aceitarem as condições do Fundo dirigido por Christine Lagarde em condições de dificuldade financeira extrema para a Grécia (€2,3 mil milhões a pagar em junho e €4,4 mil milhões em julho a credores, incluindo FMI e Banco Central Europeu) e de repercussão do processo de referendo britânico no final de junho. A diretora-geral do FMI, em resposta a uma carta do primeiro-ministro grego exigindo uma clarificação, considerou um “absurdo” que o FMI pudesse usar tal tipo de “tática de negociação” e confirmou a sua confiança na equipa chefiada por Poul Thomsen e Delia Velculescu, os dois principais intervenientes na transcrição.

Entretanto, Martin Jaeger, porta-voz do ministro das Finanças alemão, reafirmou em Berlim que “não está em debate de momento um corte de cabelo na dívida [grega]” e que não havia divergências da Alemanha com o FMI quanto à necessidade do fecho do primeiro exame. Por seu lado, o porta-voz da chanceler alemã Angela Merkel disse que “para nós essa conversa [relatada na transcrição] não existe”, apesar de Thomsen referir explicitamente a chanceler como alvo de pressão a realizar pelo FMI. O jornal alemão “Tagesspiegel” afirmou hoje que foram os serviços secretos helénicos dirigidos por Yiannis Roubatis que gravaram a teleconferência entre o Hotel Hilton em Atenas, onde estava Velculescu, e a sede do FMI em Washington, onde se encontrava Thomsen.

Conversa introdutória para um plano até 22 de abril

As partes regressaram esta segunda-feira às negociações, mas tratou-se, apenas, de uma “conversa introdutória”, segundo o ministro das Finanças helénico Euclid Tsakalotos, Durou não mais de uma hora e serviu para acordar um plano de trabalho entre Atenas e o 'quarteto' representante dos credores oficiais (Comissão Europeia, Mecanismo Europeu de Estabilidade, Banco Central Europeu e FMI) até à reunião do Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças do euro) a 22 de abril no sentido de terminar o primeiro exame ao andamento do terceiro resgate.

Em virtude do arrastamento deste primeiro exame, Atenas não recebeu no primeiro trimestre €4,9 mil milhões de desembolsos do programa, e arrisca-se a perder mais €4,5 mil milhões no segundo trimestre. O site Macropolis adianta como calendário tentativo alguns desenvolvimentos na reunião do Grupo de Trabalho do Eurogrupo ainda esta semana, a 7 abril, um acordo inicial a 13, eventuais negociações à margem da assembleia do FMI que decorrerá em Washington entre 15 e 17, e uma decisão oficial na reunião do Eurogrupo a 22.

Segundo o mesmo site independente, o ponto de situação das negociações entre as partes até à interrupção da Páscoa saldava-se por convergências em matéria de pensões, de impostos e quanto ao Fundo de Privatizações, mantendo-se divergências importantes sobre como solucionar o problema do crédito malparado. De pé está, também, a divergência entre o FMI e os credores oficiais europeus que exigem um excedente orçamental primário de 3,5% do PIB em 2018, o que é considerado por muitos analistas como irrealista. Esta pressão sobre os excedentes orçamentais já levou o ex-ministro grego das Finanças Yianis Varoufakis a considerar a equipa formada por Thomas Wieser, chefe do Grupo de Trabalho do Eurogrupo, e Declan Costello, chefe da Missão da Comissão Europeia em Atenas, como mais “austeritários” do que a equipa do FMI. Na teleconferência revelada, Thomsen adianta que tal meta poderia ser cortada para 1,5% do PIB, mas em compensação deveria acordar-se um plano de reestruturação de dívida mais amplo.

Um entendimento no final de abril permitiria avançar para uma discussão sobre a dívida e permitir ao Banco Central Europeu incluir os colaterais detidos pelos bancos gregos no programa de compra de dívida soberana no mercado secundário que está em vigor desde março do ano passado e abrir à banca helénica a porta, a partir de 1 de junho, da nova linha de financiamento a quatro anos com taxas negativas (de -0,4%) no âmbito das designadas TLTRO.

Se esta agenda falhar, o jornal online grego "Kathimerini" adianta dois outros cenários. Um em que o FMI não se envolve financeiramente, mas continua na posição de aconselhamento, e outro, mais pessimista, em que o Fundo sai de todo o processo podendo gerar uma crise no verão.