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FMI avisa para choques financeiros que vêm dos emergentes

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O que se passa na China e em mais dez economias emergentes, entre elas o Brasil e o México, tem impacto cada vez maior nos mercados financeiros dos países desenvolvidos e globalmente. É o que demonstra um estudo do Fundo Monetário Internacional inserido no “Global Financial Stability Report” que foi esta segunda-feira divulgado antecipadamente

Jorge Nascimento Rodrigues

A evolução da economia, dos mercados e das políticas na China e em mais dez economias emergentes, com o Brasil e o México à cabeça, tem de estar cada vez mais no radar dos decisores nas economias desenvolvidas quando realizam os seus próprios exercícios de previsão. “Ao avaliarem as condições macrofinanceiras, as autoridades talvez precisem de levar em conta, cada vez mais, a evolução da economia e das políticas nas economias de mercados emergentes”, recomenda um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) inserido como capítulo 3 do “Global Financial Stability Report” que foi esta segunda-feira divulgado antecipadamente à reunião da Primavera do Fundo e do Banco Mundial em Washington a partir de 15 de abril.

O estudo do FMI chama a atenção que a “integração comercial e financeira das economias de mercados emergentes na economia mundial e no sistema financeiro aumentou consideravelmente nas últimas duas décadas”fruto da globalização, e que, por isso, no caso dos mercados acionistas e de câmbios internacionais das economias desenvolvidas, os choques que ocorrem nos mercados emergentes já “respondem hoje em dia por mais de um terço das subidas e descidas nos mercados de ações e de taxas de cambio”. No caso do impacto nas outras economias emergentes, essa percentagem sobe para mais de 40%.

O FMI sublinha ainda que o “fator chave por detrás do impacto financeiro crescente [dos emergentes] nos outros países” deriva da “integração financeira crescente mais do que da parcela crescente das economias emergentes no PIB global e no comércio [internacional]”.

A exceção na teia de impactos financeiros, por ora, são os mercados de dívida obrigacionista, que são mais afetados por fatores globais.

Os 10 mais

Desde a grande crise financeira internacional de 2007-2009, o maior impacto relativo desses choques puramente financeiros provem de 10 economias emergentes, com destaque para o Brasil e o México. Na lista incluem-se ainda, por ordem decrescente de impacto nos mercados acionistas, Polónia, Rússia, Chile, África do Sul, República Checa, Turquia, Indonésia e Índia. No caso dos mercados cambiais, as variações do peso mexicano e do rand sul-africano registam os maiores impactos quer nas economias emergentes como nas economias desenvolvidas entre 2011 e 2015.

A China vem depois desse grupo, com um impacto financeiro relativo mais limitado até agora, mas o estudo alerta que “as repercussões da China sobre os mercados financeiros mundiais deverão aumentar consideravelmente nos próximos anos” à medida que "continuar gradualmente a se integrar no sistema financeiro global". Uma 'amostra" dos impactos vindos da China verificou-se aquando das derrocadas bolsistas em Xangai no verão do ano passado e em janeiro deste ano.

Em virtude desse crescente peso decisivo da segunda maior economia do mundo nos mercados financeiros, o FMI chama a atenção das autoridades chinesas “que são cada vez mais críticas a comunicação clara e oportuna das [suas] decisões de política, a transparência quanto aos objetivos dessas políticas, bem como as estratégias compatíveis para a execução desses objetivos”.

O estudo do FMI distingue esta área relativa aos canais de transmissão de impactos puramente financeiros oriundos dos emergentes, do efeito das "surpresas no crescimento" nessas economias que depois se repercutem nos mercados financeiros regionais e mundiais e nos mercados de matérias-primas. Os três principais "transmissores" desse tipo de choques são o Brasil (com dois anos consecutivos prováveis de recessão), a China (as peripécias de um abrandamento mais suave ou de uma aterragem forçada) e a Rússia (também com dois anos consecutivos prováveis de recessão).

Estratégias para limitar contágios

O FMI recomenda ainda aos próprios países emergentes que adotem estratégias para limitar o contágio e os impactos mais globais. Uma delas é criar um núcleo nacional de investidores. Outra é limitar o sobreendividamento do sector empresarial, e em particular das áreas mais dependentes do financiamento externo e das empresas com menos liquidez, maiores necessidades de endividamento e maiores rácios de alavancagem. E outra, ainda, é a adoção de regras que limitem o risco sistémico derivado dos fundos de investimento que têm assumido um papel crescente na intermediação dos fluxos globais de capital.

O "Global Financial Stability Report" é um dos documentos chave que são apresentados na assembleia do FMI que se realiza na Primavera. Esta segunda-feira foram divulgados antecipadamente os capítulos 2 (sobre este tema das economias emergentes) e 3 (sobre a importância sistémica do sector segurador nos últimos anos e a necessidade dos órgãos de supervisão e regulamentação assumirem uma abordagem mais macroprudencial em relação a este sector). Na quarta-feira serão divulgados capítulos do "World Economic Outlook". A reunião da Primavera do FMI e do Banco Mundial realiza-se entre 15 e 17 de abril em Washington DC.

  • O economista Steve Keen aponta a China, Austrália, Suécia, Hong Kong, Coreia do Sul, Canadá e Noruega como registando os mais altos níveis de dívida privada no PIB e as dinâmicas mais altas de crescimento desse rácio recentemente