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Tsipras procura condenação europeia para a “conspiração” do FMI

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THIERRY CHARLIER/ Getty

O primeiro-ministro grego vai sensibilizar os parceiros europeus contra as “táticas perigosas” do FMI que ameaçam provocar “uma desestabilização geopolítica” na Europa, segundo revela este domingo o jornal helénico “Ethnos tis Kyriakis”

Alexis Tsipras acusa dois altos quadros do Fundo Monetário Internacional (FMI) de utilizarem “táticas perigosas” nas negociações em torno do primeiro 'exame' ao andamento do terceiro resgate grego que ameaçam a unidade europeia e que poderão causar “uma desestabilização geopolítica mais ampla” na Europa.

Este domingo o jornal “Ethnos tis Kyriakis” ("Nação" dominical) revela que o primeiro-ministro helénico reagiu, com dureza, ao conteúdo de uma transcrição de uma teleconferência entre Poul Thomsen, chefe do Departamento Europeu do FMI, e Delia Velculescu, chefe de Missão do FMI em Atenas, revelada no WikiLeaks. Os dois altos quadros do Fundo alegadamente discutiram a 19 de março a possibilidade de esperar por um “evento” para se pressionar o governo grego a aceitar medidas de austeridade mais duras e os credores oficiais europeus, nomeadamente a chanceler alemã Ângela Merkel, a darem luz verde a uma segunda reestruturação da dívida helénica.

O periódico grego refere em manchete “A resposta à conspiração do FMI. Tsipras: ‘Nós não vamos deixar Thomsen quebrar a Europa’. Jogos perigosos de desestabilização, denuncia o primeiro-ministro. Merkel também alvo de chantagem”. O jornal refere que o primeiro-ministro enviou “uma mensagem forte para vários destinatários, dentro e fora da Europa”. Baseando-se em fontes seguras, o jornal relata a reação “visivelmente irritada” de Tsipras junto dos membros do gabinete ministerial helénico.

O primeiro-ministro grego já enviou uma carta a Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, pedindo esclarecimentos sobre o conteúdo da teleconferência revelado por Julian Assange no sábado e tenciona desenvolver a partir de segunda-feira uma operação diplomática na União Europeia (UE) para condenar o FMI. Segundo o jornal, Atenas vai expor aos parceiros europeus as “táticas” do Fundo alegadamente ameaçando com “um evento de crédito num membro da União”, associando o risco de uma nova crise grega com o período de referendo britânico sobre a manutenção ou não na UE, e chantageando a própria chanceler alemã. Tsipras referiu que a confiança no FMI foi seriamente abalada.

Equipa do FMI colocada em causa

O site “The Huffington Post” na edição em grego publicou este domingo a carta de Tsipras para Lagarde. Dirigindo-se à “Cara Christine”, o primeiro-ministro grego expressa a sua “profunda preocupação com as posições de altos funcionários do FMI com papel importante no programa grego” e exige à diretora-geral do Fundo que esclareça se o que foi revelado na transcrição “reflete a posição oficial do FMI”. Sublinha que “o uso de um evento de crédito como meio de pressão junto da Grécia e de outros está para além dos limites de um processo de negociação”.

Em segundo lugar, Atenas quer saber se “a Grécia pode confiar e continuar a negociar de boa fé com funcionários do FMI que expressam pontos de vista como os referidos naquela transcrição”. Tsipras remata dizendo a Lagarde que “negociações bem sucedidas são, muitas vezes, difíceis, mas, no entanto, exigem confiança e credibilidade da parte de todos”.

Entretanto, o ex-ministro das Finanças Yianis Varoufakis publicou um tweet em que discorda dos que só colocam Poul Thomsen como alvo. “Visar unilateralmente Thomsen foi estúpido. [Thomas] Wieser/[Declan] Costello são igualmente culpados por insistirem num excedente [orçamental] que exige ainda pior austeridade do que o FMI”, escreveu o ex-aliado de Tsipras, que abandonou o lugar de ministro das Finanças no início de julho do ano passado e que viria a sair do Syriza em desacordo frontal com Tsipras. Varoufakis refere-se a Thomas Wieser que é o chefe do Grupo de Trabalho do Eurogrupo que prepara as decisões para aquele órgão de ministros das Finanças do euro e a Declan Costello atual chefe de Missão da Comissão Europeia na Grécia. Noutro tweet, o ex-ministro considerou, ainda, a troika como sendo “um para-Estado de pseudo tecnocratas incompetentes que minam a Europa”.

  • O primeiro-ministro grego vai escrever à diretora do FMI pedindo esclarecimentos sobre uma alegada teleconferência entre altos quadros do Fundo a respeito da estratégia da organização de Washington para o exame em curso que foi divulgada este sábado pelo WikiLeaks

  • WikiLeaks divulgou o conteúdo de uma conversa entre Poul Thomsen e Delia Velculescu do FMI em que se antecipa a possibilidade do Fundo sair das negociações do terceiro resgate a Atenas se a Alemanha persistir em recusar o “alívio” da dívida grega. O momento de crise pode coincidir com o processo de referendo britânico em junho. Teremos o regresso de um "verão quente"