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FMI vai avisar Merkel de risco de Grexit e Brexit

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WikiLeaks divulgou o conteúdo de uma conversa entre Poul Thomsen e Delia Velculescu do FMI em que se antecipa a possibilidade do Fundo sair das negociações do terceiro resgate a Atenas se a Alemanha persistir em recusar o “alívio” da dívida grega. O momento de crise pode coincidir com o processo de referendo britânico em junho. Teremos o regresso de um "verão quente"

Jorge Nascimento Rodrigues

Se a Alemanha não aceitar o plano de alívio de dívida da Grécia que o Fundo Monetário Internacional (FMI) acha indispensável, esta organização liderada por Christine Lagarde poderá abandonar o acompanhamento do terceiro resgate a Atenas, coincidindo em junho com o referendo para a permanência do Reino Unido na União Europeia.

O risco fica claro numa alegada teleconferência entre três responsáveis do FMI que Julian Assange divulgou este sábado no site da WikiLeaks onde se pode consultar o teor da teleconferência decorrida a 16 de março. O governo em Atenas já anunciou uma reunião de emergência do primeiro-ministro Alexis Tsipras com alguns ministros-chave para analisar esta "fuga" do WikiLeaks, refere o jornal helénico "Kathimerini" na sua edição online.

“Olhe, senhora Merkel, tem de responder a uma pergunta: tem de pensar sobre o que lhe fica mais caro: continuar sem o FMI – com o Bundestag [Parlamento alemão] a dizer ‘Mas o FMI não está?’ -, ou optar pelo alívio de dívida que nós achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo?”, terá enfatizado Poul Thomsen, o chefe do Departamento Europeu do FMI, numa alegada teleconferência com Delia Velculescu, a chefe da Missão do Fundo em Atenas, que acompanha diretamente em Atenas o andamento do primeiro exame ao terceiro resgate aprovado pela Comissão Europeia e o Banco Central Europeu no verão do ano passado. Na teleconferência participou ainda Iva Petrova, que chefiou a equipa do FMI nas negociações técnicas em Atenas em 2015.

Há o risco de coincidência de uma rutura no processo grego entre o FMI e os europeus da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu (BCE) com o referendo a realizar a 23 de junho em que os britânicos dirão sim ou não a uma Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Thomsen simulava o dilema que o FMI entende colocar à Alemanha se as negociações em Atenas continuarem a marcar passo na primeira quinzena de abril. O responsável pelo Departamento Europeu admira-se como os europeus - e particularmente os alemães - ainda não tomaram uma decisão sobre a Grécia num contexto em que pesa adicionalmente a questão da crise migratória e os dois altos quadros do FMI especulam sobre a necessidade de "um evento" que possa alavancar o confronto de posições.

O FMI realiza em Washington entre 15 e 17 de abril a sua conferência da Primavera, onde à margem do evento se poderão realizar reuniões de discussão da questão grega, incluindo uma nova reestruturação da dívida helénica, o BCE tem nova reunião de política monetária no dia 21 em Frankfurt e o Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças da zona euro) reúne-se no dia seguinte em Amesterdão.

O primeiro "exame" ao andamento do terceiro resgate foi iniciado em fevereiro e continua sem conclusão. Atenas necessita de fechar o primeiro "exame" para receber novas tranches do pacote de resgate e avançar com a discussão sobre uma segunda reestruturação de dívida.

"O governo grego prentede concluir o exame em abril, mas uma fonte oficial europeia disse, esta semana, ao 'Kathimerini' que o processo poderá arrastar-se até final de maio", refere-nos Nick Malkoutzis, editor-adjunto da edição em inglês daquele jornal.

Regresso do verão quente?

Os responsáveis do FMI pela negociação grega admitem que o assunto se arraste por parte dos credores europeus e do próprio governo de Atenas até uma situação limite. Na conversa, Thomsen recorda que, em 2015, a situação limite ocorreu quando os gregos ficaram seriamente sem dinheiro e em risco de bancarrota geral no verão. E tal poderá repetir-se, agora, para mais com a Comissão Europeia centrada na questão do risco de Brexit.

Este ano, o mês crítico para Atenas surge em julho, quando o Tesouro helénico terá de desembolsar 2,3 mil milhões de euros ao BCE (obrigações gregas detidas em carteira pelo banco liderado por Mario Draghi e por bancos centrais nacionais do sistema do euro), cerca de 500 milhões de euros ao FMI (mais uma tranche do pagamento do resgate de 2010) e mais de 1600 milhões de euros aos credores detentores de dívida de curto prazo. Cerca de 4,4 mil milhões de euros terão de ser desembolsados por Atenas em julho, segundo o Greek debt monitor do "Financial Times".

De acordo com o plano inicial indicativo de reembolsos do terceiro programa de resgate, Atenas deveria receber 4,9 mil milhões de euros no primeiro trimestre de 2016 e 4,5 mil milhões no segundo trimestre. O primeiro trimestre já se esgotou sem que Atenas tenha recebido um euro.

Um novo "verão quente" na Grécia tirará da prateleira o risco de Grexit (saída da Grécia do euro e da União Europeia) e uma nova onda de contágio aos periféricos do euro no mercado da dívida soberana.

Recorde-se que a Grécia assinou um novo memorando com a Comissão Europeia a 19 de agosto do ano passado para um terceiro resgate com um envelope financeiro que poderá chegar a 86 mil milhões de euros a usar até agosto de 2018. Os fundos europeus desembolsaram em agosto, novembro e dezembro do ano passado um total de 21,4 mil milhões de euros de um pacote inicial de 26 mil milhões de euros (que inclui 10 mil milhões para a recapitalização da banca helénica, estando por usar cerca de 5 mil milhões).