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Falta de coesão entre o BdP, as Finanças e o banco fez com Bruxelas ditasse o destino do Banif

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O vazio de poder que se criou após as eleições de outubro de 2015 e falta de solidez nas relações entre o Banco de Portugal, o Ministério das Finanças e a gestão do banco criaram as condições para que o império burocrático de Bruxelas impusesse as suas regras. "Temos de reavaliar a relação com a União Europeia", diz

"A partir do momento em que rebentou a coesão (entre o Banco de Portugal, o Ministério das Finanças e o a administração do Banif) e passou a haver divergência sobre o destino do banco, perante o vazio político em que o país se encontrava, o império burocrático de Bruxelas impos as suas regras e o desenvolvimento do processo de reestruturação foi efetivamente posto em causa. A partir desse momento, o banco entrou numa séria crise de confiança, e com aqui foi dito numa notícia precipitada e absolutamente inimaginável (a da TVI) agudizou ainda mais [a crise]", afirmou o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-presidente do conselho de administração do Banif, na comissão parlamentar de inquérito do banco fundado por Horácio Roque. "Foi a tempestade perfeita", como referiu várias vezes durante a audição o ex-governante.

Luís Amado refere-se ao período entre as eleições e a tomada de posse do novo governo. Na terça-feira, Jorge Tomé, o último presidente do Banif disse na comissão parlamentar que o Banco de Portugal mudou de atitude face ao destino do Banif naquela altura e que isso tinha sido surpreendente. Chamou-me um "volte face" do governador do Banco de Portugal. E tal como Jorge Tomé, Luís Amado também sublinhou que a notícia da TVI de dia 13 de dezembro, dizendo que o banco iria ser alvo de uma intervenção, agravou de forma dramática a liquidez do banco e acabou por ser a estocada final na viavilização do banco. Um dia depois da notícia foram levantados quase mil milhões de euros.

Bruxelas despreza a idiossincracias ibéricas

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros crítica a falta de intervenção e ação política mais exigente por parte do Governo junto das autoridades europeias na defesa de uma solução para o Banif, cujo destino teria sempre impacto na economia portuguesa e das regiões autónomas onde o banco era forte. "Devia ter havido uma ação política no sentido de criar convergência de posições", sublinhou. Pouco tempo antes da resolução começou a perceber-se que Bruxelas estava inclinada para resolver o Banif. Luís Amado chamou mais do que uma vez às decisões da autoridades europeias e "um rolo compressor".

"O que aconteceu deve fazer-nos repensar a nossa relação com a União Europeia e os fundamentos dessa relação. A partir do momento em que a posição das autoridades europeias em relação ao Banif era tão determinante, a discussão teria de ter passado para o patamar político. Era um banco do Estado, não era um banco privado, não era o banco da família Espírito Santo. Era para mim óbvio que devia ter haver um momento de decisão política", sublinha o ex-ministro que foi o responsável pela diplomacia do governo de José Sócrates.

"Há um choque de decisão. A visão da direção geral da concorrência europeia (DGcom), ditada pelos seus chefes, é muito limitada em relação às consequências das suas decisões. Esse choque de visões tinha de ter uma intervenção política. É preciso ter noção de que estamos num quadro de soberania partilhada", defende o ex-presidente do Banif. E ironiza em relação ao momento da resolução do banco, a 21 de dezembro, dizendo que a burocracia europeia tem o seu calendário próprio, havia que resolver tudo antes de ir para as férias de Natal.

A propósito do poder da banca espanhola em Portugal e da venda do Banif ao Santander, Luís Amado teceu alguns considerações sobre a nova arquitetura do sistema da União Bancária defendida por Bruxelas que quer na Europa bancos de grande dimensão. "A vontade de concentrar num banco como o Santander era evidente", disse. Porém elogiu a capacidade de gestão do Santander, hoje um grande banco europeu e mundial.

"O equilibrio das relações com Espanha tem de ser reavaliado", disse o ex-ministro dos Negócios Estrangeiro. É preciso, disse, olhar para a questão tendo em conta o contexto histórico de uma relação de séculos, que fez com que Portugal e Espanha se tenham sempre diferenciado e estado em sítios diferentes. "Durante anos onde Espanha estava, nós não estavamos". Bruxelas, defendeu, "desconhece" e "despreza" as idiossincracias da relação ibérica. "Temos de revisitar os fundamentos da relação (com a União Europeia) e dos equilíbrios da relação com Espanha", frisou.