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“Cheguei a pensar que o Banif ia implodir via Brasil”

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"O Brasil era um dossiê explosivo, absolutamente explosivo", afirmou Jorge Tomé. O ex-presidente banco diz que houve gestão danosa no Brasil e que só esse caso dava outra comissão de inquérito.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Jorge Tomé contou ao deputado socialista João Galamba que em março de 2012, logo depois de ter tomado posse como presidente do Banif, esteve no Brasil para se inteirar das operações do banco naquele país e veio de lá "muito preocupado".

"Cheguei a Lisboa e disse que provavelmente o Banif iria implodir via Brasil", confessou o responsável pelo banco, acrescentando que só depois dessa viagem teve noção de que as necessidades de capital seriam muito superiores aos 400 milhões de euros que tinham sido estimadas nessa altura.

Depois dessa viagem, a administração do Banif ordenou uma auditoria. Esta, disse Tomé, "não espelhava tudo o que se passava no Brasil, mas já dava uma forte ideia de que o Brasil nos iria consumir muito capital. O Brasil era um dossiê explosivo", reforçou o ex-CEO do banco.

Num primeiro momento, as perdas associadas à operação no Brasil ficaram nos 260 milhões de euros, mas "esse numero foi subindo", acrescentou Jorge Tomé.

"Brasil dava outra comissão de inquérito"

"Daquela carteira de credito do Banif do Brasil, aproveitou-se 10%, não se aproveitou mais", detalhou depois o banqueiro, perante a deputada Mariana Mortágua, que quis saber mais sobre o cenário do Banif naquele país. "O resto foi tudo imparidade. Erros de gestão, claramente. Gestão danosa."

"A primeira medida" que a administração de Jorge Tomé tomou foi "destituir a administração do Brasil. O dossiê do Brasil justificava quase outra comissão de inquérito", assegurou, adiantando que há auditorias forenses e processos judiciais em curso no Brasil. "Tudo aquilo está em investigação".

Devido a estas "surpresas", as necessidades de capital do Banif acabaram por crescer 700 milhões de euros - ou seja, em vez dos cerca de 400 milhões que o Banco de Portugal tinha estimado como suficientes em março de 2012 (e que tiveram um aval do Estado nessa altura), subiram para os 1100 milhões de euros, que viria a ser o valor da injeção de capital do Estado em Janeiro de 2013.

"Certamente o BdP tinha muito mais informação do que a própria administração do Banif", admitiu Jorge Tomé, quando questionado sobre a discrepância entre um valor e outro.

As grandes "surpresas" que prejudicaram as contas do banco, resumiu Jorge Tomé, foram o Brasil, o "desvio do imobiliário muito significativo" e a exposição ao setor da construção, mais tarde, o efeito BES - a exposição do Banif à derrocada do grupo Espírito Santo.

Apesar deste conjunto de desvios e "surpresas", Jorge Tomé assegurou ao deputado socialista que "se não tem sido o impacto que a resolução do BES teve no Banif, o Banif não teria sido resolvido".