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Manifesto ‘anti-espanhol’ divide empresários e economistas

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Não há consensos sobre documento anunciado para contestar o peso da banca espanhola no mercado nacional

O grande peso dos espanhóis na banca em Portugal é polémico e poderá mesmo dar origem a um manifesto a divulgar entre 4 e 10 de abril. Mas o documento não é consensual e esse facto pode condená-lo ou, pelo menos, alterar a sua natureza, retirando referências específicas a Espanha.

O “Manifesto contra a espanholização da banca” começou a ser falado no fim de semana passado e reflete críticas à forma como o Banco de Portugal tem regulado a atividade bancária e ao papel que o Banco Central Europeu (BCE) desempenha no processo de consolidação do sector na Europa.

João Salgueiro e Alexandre Patrícia Gouveia foram dois nomes associados a este movimento. Mas o primeiro já veio dizer que se trata de especulação. “Eu não conheço isso, não aceito essa lengalenga da espanholização”, disse o economista na SIC Notícias. Já Alexandre Patrício Gouveia, administrador do grupo espanhol El Corte Inglés, disse ao Expresso que não vai promover nem subscrever o documento.

O Expresso contactou parte dos subscritores do Manifesto dos 40, que foi lançado há 14 anos para defender os centros de decisão em Portugal, perguntando-lhes se assinariam este novo documento, caso ele se materialize. Dois dos principais subscritores do manifesto de 2012 dizem que não. Alexandre Soares dos Santos, cuja família controla a Jerónimo Martins, diz mesmo que hoje tem “muita dificuldade em assinar manifestos desta natureza, porque as coisas mudam com muita velocidade. O mundo hoje é cada vez mais aberto”, justifica. Jardim Gonçalves, que na altura presidia ao BCP, diz por seu lado que “não deveríamos referir determinada origem do capital mas sim assegurar a soberania para poder acolher esse mesmo capital”. Acredita que “isso ainda é possível”.

Já Francisco van Zeller, ex-presidente da CIP, diz que em 2002 ainda valia a pena debater a causa dos centros de decisão nacionais, “mas eles foram embora e já não há nada a fazer”. Receia “um excesso de ‘espanholização’ da banca” e por isso aceita subscrever o manifesto. Há um limite “a partir do qual se perde a liberdade de decisão” com efeitos prejudiciais no tecido empresarial. E diz sentir revolta “pela interferência do BCE, que nos está a empurrar para os braços dos bancos espanhóis”.

Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo, acredita ser “fundamental continuar a defender os centros de decisão em Portugal”. Mas, quanto à discussão da ‘espanholização’, recusa “assumir uma postura contra a entrada de outros bancos europeus em Portugal”.

O economista Miguel Beleza considera “perigoso a banca portuguesa ficar toda nas mãos da banca espanhola. Os interesses não serão os das empresas portuguesas, mas sim os das empresas espanholas. Assinaria este manifesto com certeza”.

António Nogueira Leite não conhece o manifesto que está em preparação. “Mas em princípio não subscrevo mais manifestos desse tipo. É certo que nem todo o dinheiro é igual, mas o capital tem de ter várias origens”, afirma.

Ludgero Marques, antigo presidente da Associação Empresarial de Portugal, assume que “a espanholização da banca é uma preocupação. É muito desagradável para todos nós, que trabalhamos para ter banca, ver desaparecer tudo”. Quanto a assinar um novo manifesto, mostra algumas reticências porque já se retirou “dessas guerras”.

O empresário José Alexandre Oliveira, presidente da Riopele, admite que neste momento vê um problema “potencialmente muito maior do que no passado”, mas mais do que a espanholização da banca preocupa-o “a tendência crescente para a sua concentração”. “Isso é extremamente perigoso e vai ter consequências no tecido empresarial”. Neste momento, não se vê a assinar um manifesto.

O empresário Ilídio Pinho reafirma que “é fundamental manter os centros de decisão em mãos portuguesas” para que o país não dependa de vontades alheias. Na banca, verifica que o poder espanhol “está no limite do aceitável e corre o risco de se tornar excessivo”. Como “os grandes bancos ibéricos estão em Espanha há uma ameaça séria de que o centro de decisão do sistema financeiro português fique em Madrid”. É “uma situação preocupante” que choca com a autonomia de decisão e a confiança dos investidores que considera essenciais. Sobre o novo manifesto, assinaria se ele traduzisse estas suas preocupações.

Neiva de Oliveira diz não estar preocupado com a ‘espanholização’ da banca. Mas o empresário, já na reforma, lamenta que o investimento no sector financeiro “não tenha outras origens, designadamente a partir de uma base portuguesa”. Mas, acrescenta, não se pode lutar contra a realidade.