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Petróleo barato não está a ajudar a retoma

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MIKHAIL MORDASOV/GETTY

A queda brutal dos preços do barril de crude desde junho de 2014 não está a ser um ganho líquido para o crescimento mundial, conclui um novo estudo do Fundo Monetário Internacional preparatório do “World Economic Outlook” que será divulgado em meados do próximo mês

Jorge Nascimento Rodrigues

O petróleo barato não está a ter o impacto positivo global que se esperava no crescimento da economia mundial. Um estudo publicado na quinta-feira no blogue “IMF Direct” do Fundo Monetário Internacional (FMI) refere que os mercados financeiros não reagiram positivamente à queda dos preços do barril de crude e sublinha que os efeitos globais dessa queda de preços reforçando a desinflação não estão a ajudar a retoma económica.

Em suma, o efeito positivo, simulado em estudos anteriores do FMI em dezembro de 2014 e julho de 2015, “está por se materializar”. O artigo intitulado “Oil Prices and the Global Economy: It’s Complicated” divulgado no blogue tem como um dos autores Maurice Obstfeld, o economista-chefe do FMI, e é uma nota de conclusões sobre o controverso tema em antecipação ao que será “documentado” no próximo “World Economic Outlook” (WEO), que será divulgado aquando da reunião da Primavera do FMI e do Banco Mundial entre 15 e 17 de abril.

Esta falta de efeito positivo global, apesar de uma queda média do preço do petróleo em moedas locais na ordem dos 60 dólares desde junho de 2014, tem “intrigado muitos observadores, incluindo os técnicos do Fundo”, diz o artigo assinado por Obstfeld, Gian Maria MIlesi-Ferretti e Rabah Arezki (este último tinha assinado com Olivier Blanchard, o ex-economista chefe do FMI, em julho do ano passado, um estudo apontando para o saldo positivo líquido da queda dos preços do petróleo).

Numa conclusão surpreendente, os economistas do FMI referem: “Argumentamos que, paradoxalmente, os benefícios globais de preços [do petróleo] baixos, provavelmente, só aparecerão depois destes preços recuperaram um pouco, e após as economias desenvolvidas realizarem mais progressos superando o atual ambiente de baixa taxa de juros [na política monetária]”.

Uma crença que não se confirmou

Resumidamente, os técnicos do FMI e muitos analistas “acreditavam que o declínio dos preços do petróleo seria um ganho líquido para a economia mundial, obviamente prejudicando os exportadores [de crude], mas sendo mais do que compensado pelos ganhos por parte dos importadores”. E explicam o porquê da simulação feita em dezembro de 2014 que apontava para um ganho entre 0,3 a 0,7 pontos percentuais no crescimento da economia mundial em 2015: “A principal premissa dessa crença é que haveria uma diferença específica de comportamento em termos de poupança entre os importadores de petróleo e os exportadores de petróleo: os consumidores em regiões importadoras de petróleo, como a Europa, teriam uma maior propensão marginal a consumir do que os em países exportadores como a Arábia Saudita”.

Os técnicos do FMI começam por dizer que a realidade nos mercados financeiros não validou o efeito positivo esperado: “Os mercados bolsistas mundiais claramente não subscreveram esta teoria. Nos últimos seis meses ou mais, os mercados de ações tenderam a cair quando os preços do petróleo desceram, ao contrário do que seria de esperar se preços do petróleo mais baixos ajudassem, em termos de balanço global, a economia mundial. Na verdade, desde agosto de 2015, a correlação simples entre preços das ações e do petróleo não só tem sido positiva, como duplicou em comparação com um período anterior a partir de agosto de 2014”.

Política monetária esgotada, necessidade de apoio à procura

A descida do preço do petróleo desde meados de 2014 ocorreu num quadro económico e monetário específico. “Em comparação com os ciclos de preços anteriores, a queda dos preços do petróleo, desta vez, coincide com um período de lento crescimento económico, tão lento que os principais bancos centrais têm pouca ou nenhuma capacidade de reduzir ainda mais as taxas de juro da sua política monetária no sentido de apoiarem o crescimento e combaterem as pressões deflacionistas”, sublinha o estudo.

“A descida da inflação (real e prevista) devido a menores custos de produção aumenta a taxa real de juros, comprimindo a procura e muito possivelmente sufocando qualquer aumento da produção e do emprego”, explica o documento. Este ciclo infernal de preços baixos do crude, de desinflação ou mesmo deflação nos preços no consumidor e na produção, e de dificuldades crescentes da política monetária em contrariar essa tendência, alimenta uma retoma fraca e mesmo os riscos de estagnação. Espera-se inclusive que o FMI corte em baixa as suas previsões para o crescimento em 2016 no próximo WEO.

Danos colaterais

E os efeitos negativos em cadeia poderão não ficar por aqui. Como dano colateral, este ciclo pode potenciar inclusive bancarrotas de países e de empresas, o que, por sua vez, alimentará, ainda mais, o nervosismo dos mercados financeiros, sublinha o estudo.

Face a um quadro de diminuição crescente da margem de manobra e do efeito positivo da política monetária nas economias desenvolvidas, o FMI insiste na urgência de que “a comunidade global apoie a procura em simultâneo com uma série de reformas do sector financeiro e reformas estruturais específicas a cada país”.