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Há quem pague para depositar €10 mil no banco

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ana baião

Com taxas de juro tão próximas dos 0%, é preciso fazer bem as contas antes de aplicar as poupanças num vulgar depósito a prazo

Zero foi o número mais ouvido pelo Expresso na ronda feita pelos principais bancos das ruas de Lisboa, enquanto cliente-mistério na busca do melhor depósito a prazo para aplicar €10 mil.

Aos balcões do BPI, da Caixa Geral de Depósitos, do Deutsche Bank, do Novo Banco, do Millennium BCP, do Montepio e do Santander Totta — onde os portugueses depositam mais de quatro quintos das suas poupanças — perguntou-se pelos melhores produtos para aplicar o dinheiro, depósitos a prazo ou soluções de poupança equivalentes, com capital garantido e proteção do Fundo de Garantia de Depósitos.

As respostas são sempre em termos da taxa de juro anual nominal bruta (a chamada TANB). Para ver quanto se ganha efetivamente ao fim de um ano, é preciso descontar a inflação, os custos de manutenção da conta no banco e a taxa liberatória que é o imposto (IRS) de 28% que incide sobre os juros que as famílias ganham.

A melhor proposta para um normal depósito a prazo veio do Montepio. O Super Depósito 2016 garante uma TANB de 1,25% nos primeiros seis meses para novos clientes que tragam pelo menos €10 mil. O Depósito 4D a um ano também garante 1,10% no primeiro semestre e 1,50% no segundo semestre, mas já implica ter cartão de débito e de crédito, conta-ordenado e apólice de seguro no Montepio.

Os valores do Montepio contrastam com a generalidade dos outros bancos que oferecem juros próximos dos 0%, mesmo quando o dinheiro é para ficar quieto no banco durante vários anos.

O Novo Banco ainda propõe remunerações na casa dos 0,50% ou dos 0,75% e isenta o cliente de outros custos. Mas noutros bancos ouviram-se propostas que não chegam a cobrir os encargos fixos com a manutenção da conta. Por exemplo, o BPI oferece 0,10% numa aplicação a três anos, mas cobra €5 por trimestre. O Santander Totta oferece 0,15% no primeiro ano e 0,10% nos dois anos seguintes, mas cobra €4,5 por mês.

Não é preciso fazer muitas contas para perceber que as poupanças se arriscam a descer em vez de subir em normais depósitos a prazo. Pagar para depositar €10 mil no banco é uma nova realidade capaz de baralhar os depositantes mais prudentes. A um dos balcões até confessaram que, na verdade, não queriam o nosso dinheiro. Noutro propuseram em alternativa ao depósito um alarme para a casa — uma solução de segurança que agora a banca comercializa — caso decida, no final de contas, comprar algo de valor, como uma joia, em vez de pôr o dinheiro no banco.

Em alternativa aos convencionais depósitos a prazo, a maioria dos bancos está a propor um produto financeiro mais complexo chamado depósito indexado. O capital está à mesma garantido, mas a remuneração é incerta e o dinheiro não pode ser tirado antecipadamente. A taxa de juro exata só é conhecida no final do prazo porque depende da evolução de outras variáveis como, por exemplo, o preço de ações, a cotação de moedas ou o valor da Euribor, a taxa de juro que serve de referência aos empréstimos na área do euro.

Um dos depósitos indexados propostos pela CGD é o Caixa Valor Março 2018 que garante uma taxa de juro entre 0,049% e 0,541% caso a libra esterlina não varie mais do que 7,5% face ao euro nos próximos dois anos. O Santander Totta propõe o Depósito Valor Universal que garante um juro mínimo de 0,048%, mas que pode subir até 1% ou mesmo 2%, se tudo correr pelo melhor, nos próximos três anos, com as ações das multinacionais Shell, BP, E.ON, Pfizer e Schlumberger e a Euribor a seis meses. O BCP propõe depósitos indexados a vários prazos, caso do Millennium Mix Empresas Mundiais Abril 2018, que paga entre 0,074% e 1,107% dependendo da valorização das ações das multinacionais Ing Group, Zurich, Royal Dutch Shell, Vivendi e Walmart. A poupança do Expresso não chegou para aproveitar a proposta Cash to Invest do Deutshe Bank, que oferece 1,25% aos novos clientes que transfiram pelo menos €25 mil para o banco alemão.

Os juros oferecidas pela banca superaram os 4% em 2011 mas caem a pique desde então. O Banco de Portugal diz que a chamada taxa acordada anualizada (TAA) — que cobre apenas os pagamentos de juros e não outros encargos — atingiu o mínimo de 0,49% em janeiro de 2016, contra 1,24% em idêntico mês de 2015, 2,01% em 2014, 2,57% em 2013 e 3,87% em 2012.

texto publicado no caderno de Economia do Expresso a 19 de março