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“Diário Económico” fecha edição em papel esta sexta-feira

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Falta de meios financeiros e humanos para assegurar a continuidade do projeto aceleraram fecho da edição em papel do "Diário Económico". Site e canal de televisão ETV mantêm-se no ar, por enquanto

O jornal "Diário Económico" já não vai chegar às bancas na próxima segunda-feira. A informação foi avançada esta quinta-feira tarde aos trabalhadores do jornal pelo administrador Gonçalo Faria de Carvalho, que justificou a medida com a incapacidade de assegurar meios financeiros e humanos para prosseguir com a publicação de versão impressa do Económico. A partir de segunda-feira, o projeto manterá assim apenas a sua edição online e as emissões do canal ETV.

Esta foi a solução encontrada pela administração do jornal para manter a empresa em funcionamento, enquanto aguarda pela aprovação do pedido de Processo Especial de Revitalização (PER) com que avançou no início de março para a editora do "Económico", a S.T. & S. F.. O objetivo é evitar a falência do projeto, cuja edição diária impressa foi fundada em 1989, é atualmente líder de vendas e de audiências na imprensa diária de economia e emprega hoje perto de 150 trabalhadores.

Mergulhada em dívidas ao fisco, à segurança social, a fornecedores e com vários salários e subsídios em atraso aos trabalhadores, a S.T. & S.F – detida pelo grupo Ongoing, de Nuno Vasconcellos – tinha já em 2014, nas últimas contas divulgadas, um passivo na ordem dos 29 milhões de euros. A este montante acrescia ainda o passivo de mais de 11 milhões que a Económico TV apresentava também nesse ano.

Após vários meses de incerteza sobre o futuro do projeto e de alguns processos negociais para procurar potenciais investidores interessados em comprar o "Diário Económico" e a ETV, o cenário de fecho da empresa ganhou consistência nos últimos dias, depois de a administração não ter conseguido encontrar solução para nomear uma nova direção para o jornal.

O impasse na liderança editorial do projeto somou-se assim aos graves problemas financeiros que a empresa atravessava, colocando em sério risco a capacidade da redação para manter o título em funcionamento além desta semana. Aliás, segundo apurou o Expresso, a ideia de que a última edição do jornal seria produzida esta sexta-feira, 18 de março, já era dada como adquirida internamente por vários trabalhadores desde o início da semana.

A atual direção liderada por Raul Vaz estava demissionária desde a semana passada, depois de não ter obtido respostas concretas ao pedido urgente que fizera à administração, a 23 de fevereiro, para que fossem encontradas soluções para os salários em atraso, a falta de condições de trabalho da redação e de estratégias para o futuro do jornal. A ausência de respostas por parte da administração levou mesmo os trabalhadores do Económico a cumprir um dia de greve a 10 de março.

De acordo com as informações recolhidas esta semana pelo Expresso, as tentativas entretanto feitas pelo administrador Gonçalo Faria de Carvalho para nomear uma nova direção para o jornal têm-se revelado infrutíferas. E até a opção de nomear uma direção interina ainda não tinha avançado até ao final de quarta-feira, dado que a administração não conseguiu garantir aos primeiros jornalistas convidados para o efeito as condições exigidas para assegurar a continuidade do projeto com níveis mínimos de qualidade. Na quinta-feira, os jornalistas Mónica Silvares e Filipe Alves acabaram por aceitar assumir interinamente a direção do "Económico" a partir da próxima semana.

Contactado na quarta-feira pelo Expresso, Gonçalo Faria de Carvalho recusou comentar o possível encerramento do "Diário Económico" a partir de sexta-feira. Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, também não esteve disponível para comentar. Raul Vaz, o diretor demissionário do jornal, também não quis comentar a situação e remeteu para a administração quaisquer declarações ou decisões sobre o futuro do projeto.

Projeto sem compradores

As graves dificuldades financeiras do Económico levaram a administração da Ongoing a tentar negociar a venda do projeto a eventuais investidores interessados em assegurar a sua continuidade. Mas apesar das várias negociações mantidas nos últimos meses - das quais as mais prolongadas e avançadas foram com o angolano Domingos Vunge, que entretanto desistiu do processo -, as poucas manifestações concretas de interesse acabaram por não dar origem a qualquer acordo.

Comprado em 2008 pela Ongoing à espanhola Recoletos por 27,5 milhões de euros - numa altura em que além do diário, a empresa detinha também o "Semanário Económico", entretanto encerrado -, o "Económico" viu a sua situação financeira desequilibrar-se progressivamente a partir de 2011. Nesse ano, a editora S.T. & S. F. tinha um passivo de cerca de 16 milhões, que entretanto quase duplicou, para perto de 30 milhões, até 2014. Em sentido inverso, as receitas do jornal foram caindo de forma abrupta, da fasquia dos 10 milhões em 2011, para perto de 4,5 milhões em 2014.

A partir do verão de 2014, na ressaca da implosão do BES e da PT – duas das principais fontes de financiamento do grupo Ongoing –, os problemas financeiros do grupo agravaram-se. E nos últimos meses de 2015 a situação financeira do "Diário Económico" e da ETV piorou de forma drástica tendo os trabalhadores da empresa assegurado a continuidade dos projetos mesmo com vários meses de salários e subsídios em atraso.

A empresa chegou a ver todas as suas receitas penhoradas pelo fisco em janeiro. Segundo fontes então contactadas pelo Expresso, para conseguir levantar essa penhora (e assegurar a continuidade do jornal, do site e do canal de televisão por mais algum tempo) a administração terá dado o título "Económico" como garantia por um valor na ordem dos 500 mil euros.

Na sequência do impasse negocial para a venda do jornal e do canal de televisão, e tendo em conta o avolumar dos prejuízos, a administração viu-se forçada a avançar no início de março com um pedido de Processo Especial de Revitalização (PER) para o "Económico".

Recorde-se que já em fevereiro a casa mãe do "Diário Económico" e da ETV – a Ongoing Strategy Investments – tinha também pedido um PER, na sequência do qual foi já nomeado um gestor judicial, Fernando Silva e Sousa. Neste momento, decorre ainda o período para que os credores da empresa reclamem junto deste gestor judicial os seus créditos em relação à Ongoing Strategy Investments.

Em 2015 o "Diário Económico" teve, segundo os dados da APCT, uma média de circulação paga de cerca de 13.500 exemplares por edição e, segundo o Bareme Imprensa da Marktest, uma audiência média de 164 mil leitores. De acordo com o ranking Netscope da Marktest, o site do Económico foi em janeiro o 14.º site de informação mais visitado do país, com mais de 7 milhões de visitas.