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Suinicultores em protesto alertam para colapso no sector

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Tiago Miranda

O embargo russo às importações de carne de porco, a queda dos preços e o excesso de produção face ao consumo estão a conduzir a uma tempestade perfeita no sector

As notícias de crise na suinicultura têm-se multiplicado, a dar conta do risco de colapso num sector avaliado em mais de 500 milhões.O mote foram as ações de protesto organizadas um pouco por todo o país, junto a grandes superfícies comerciais, na Bolsa do Porco, nos acessos a uma unidade industrial de processamento de carne. Hoje surge um comunicado discreto a garantir que os suinicultores portugueses vão continuar a dar luta . "Não podemos morrer calados", dizem.

Em causa está um quado de tempestada perfeita, que combina o embargo russo à importação de carne de porco dos países da União Europeia e a consequente queda a pique do preço das exportações de carne na Europa, com uma produção excedentária face ao consumo da população, a par da quebra das vendas para Angola e da política agressiva de promoções nas superfíces comerciais.

Em Portugal, ao contrário do que se passa em termos gerais na Europa, a produção até é deficitária, cobrindo menos de 2/3 do consumo total, mas isso também é um indicador do problemas.

"Portugal passou de uma taxa de autosuficiência na carne de porco de 100% em 1986 para 65% em 2015 e, se nada for feito para atenuar a crise que o sector atravessa, dentro de um ano estaremos praticamente dependentes do estrangeiro", alerta o comunicado dos suinicultores hoje publicado no Correio da Manhã, com um pequeno porco sorridente a segurar a bandeira nacional e o título "suinicultores portugueses não querem morrer".

Os números que têm sido divulgadas pela Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS) refletem problemas vários. Um deles prende-se com o facto de Portugal vender à Rússia, no passado recente, 9% das suas exportações de carne de porco. Mas há outros dados, como custo da produção do kg de carne de porco rondar os 1,45 euros (dados de janeiro), e os produtores receberem apenas um valor na ordem dos 1,08 euros, quase 20 cêntimos menos do que os colegas espanhois que enfrentam custos idênticos, o que nas contas das explorações se traduz de imediato em prejuízos acumulados e está a ameaçar o futuro de cerca de 40% das explorações de suinicultora portuguesa.

O sector estima, também, que as contas da crise implicam perdas diretas de 40% no seu rendimento

"Neste momento, os prejuízos diários dos suinicultores são insuportáveis, pelo que, a não serem tomada quaisquer medidas, o despararecimento do sector é uma realidade, pondo em causa milhares de postos de trabalho e o fim da Carne de Porco Portuguesa", alerta o comunicado de hoje.

Orgulhosamente aparesentada como "a melhor da Europa", a carne de porco portuguesa aponta o dedo diretamente o Governo, lamenta o facto do ministro da Agricultura, Capoulas Santos, não responder ao caderno reivindicativo apresentado, limitando-se a enviar "recados de que está muito preocupado", mas ficando apenas por "falinhas mansas que já não convencem o sector" quando "é preciso coragem e tormar medidas".

Em concreto, os suinicultores referem que Bruxelas atribuiu recentemente uma ajuda de 500 milhões de euros para os sectores do leite e da sunicultura, cada país podia adicionar valor igual a este montante, a Portugal, onde há 14 mil explorações e quatro mil suinicultores industriais registados, couberam 4,3 milhões no âmbito deste pacote, mas "a suinicultura recebeu Zero".

"Enquanto tiverem alento, os suinicultores portugueses vão reagir e, se não existirem respostas rápidas do ministro, vão em breve fazer nova ação pública de protesto", garantem. "Nunca entramos pelo caminho agressivo e violento, como os nossos colegas franceses, mas não podemos morrer calados", acrescentam.

Capoulas Santos esteve em dezembro último com os suinicultores numa ação de protesto em que estes ofereceram a carne assada dos seus porcos em Lisboa e o Ministério da Agricultura criou um gabinete de crise para juntar à mesa das negociações os protagonistas do sector - produtores, indústria (de abate, corte e fabricação de produtos à base de carne de porco) e distribuição. Houve já alguns acordos, mas a guerra dos porcos continua sem fim à vista.