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Esta abelha pode valer 523 mil milhões de euros

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A influência das abelhas na economia mundial é maior do que se pensa. Um estudo divulgado esta semana pela ONU revela que pelo menos 70% das culturas alimentares de todo o mundo dependem de alguma forma da polinização dos insetos e outros pássaros

André Rosa

Em todo o mundo, pelo menos 75% das culturas alimentares dependem, de alguma forma, da polinização. A produção agrícola dependente de animais polinizadores aumentou 300% durante os últimos 50 anos. Só a produção de cereais e frutas, que depende diretamente da polinização entre 5% a 8%, representa cerca de 213 a 523 mil milhões de euros.

Tendo em conta estes números, já se pode ver como um pequeno inseto pode afetar a sustentabilidade da agricultura mundial. É o que pode acontecer se o fenómeno do desaparecimento das abelhas e outros agentes polinizadores se agravar. O tema não é novo mas o alerta foi reforçado esta semana pela Organização das Nações Unidas, com base no relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES, em inglês) entretanto divulgado.

"Um número crescente de espécies polinizadoras está a caminhar para a extinção devido a vários fatores, muitos deles provocados pela ação humana, ameaçando milhões de meios de subsistência e centenas de milhões de dólares em alimentos", lê-se naquele que é o primeiro estudo do género em todo o mundo, uma tentativa de conhecer e gerir um elemento crítico no ecossistema global – as abelhas.

Risco de extinção

As abelhas e outros insetos – borboletas, moscas, vespas, besouros – e até pássaros e morcegos têm uma ação polinizadora indispensável à vitalidade de muitas plantações alimentares por todo o mundo, nomeadamente vegetais, frutas, cereais, sementes e nozes, essenciais à alimentação humana.

O problema é que as populações de abelhas (de que se conhecem 20 mil espécies) e borboletas "têm vindo a diminuir em abundância, ocorrência e diversidade" em regiões do nordeste da Europa e América do Norte, alerta o documento. Na Europa, sabe-se que em algumas regiões mais de 40% das espécies de abelhas podem estar ameaçadas e o risco de extinção é de 31% no caso das borboletas.

As alterações climáticas provocadas pelos humanos são um dos fatores de risco para os agentes polinizadores, assim como a destruição de habitats, uso de pesticidas e práticas agrícolas agressivas. Como se não bastasse, as abelhas são, por si, um grupo vulnerável a doenças e têm sido ameaçadas pela vespa asiática.

Mais de mil novos negócios em cinco anos

Em Portugal o cenário não é tão alarmante. "O fenómeno do desaparecimento das colmeias e da morte das abelhas nunca teve a intensidade que se verifica noutros países", começa por explicar João Casaca, técnico da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal. Na sua opinião, não há razões para alarme, antes para os apicultores ficarem "atentos" à situação.

As baixas no número de abelhas são habituais no inverno, "o que se verifica é que os apicultores, ano após ano, têm tido mais dificuldade em repor essas baixas e os enxames ficam muito mais debilitados", por questões ambientais (primaveras instáveis, por exemplo) ou por uma intensificação da produção dos apicultores. Mas as abelhas não estão a desaparecer, antes pelo contrário: "Nos últimos cinco anos foram criados mais de mil novos negócios apícolas", revela o técnico, e isso fez com que o número de abelhas se mantenha mais ou menos estável.

Planeta menos doce

"Sem polinizadores, muita gente vai deixar de poder saborear café, chocolate ou maçãs, entre muitos alimentos que fazem parte do quotidiano", avisa Simon Potts, docente co-autor do estudo, da Universidade de Reading, no Reino Unido. Algodão, medicamentos e materiais de construção também derivam de plantações em que a ação dos insetos é decisiva.

Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, assegura que o desenvolvimento sustentável é uma prioridade no sentido de melhorar a relação das pessoas com a natureza. João Casaca, por sua vez, defende que "os Estados têm de agir em conjunto para controlar os fatores que ameaçam os agentes polinizadores".

O estudo da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas foi encomendado pela ONU em 2012 e desenvolvido ao longo de dois anos por cerca de 80 especialistas, sobre os ecossistemas de 60 regiões em todo o mundo.