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Dívida. Juros fecham fevereiro abaixo de 3%, mas rentabilidade continua negativa

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Juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos encerraram a última sessão de fevereiro abaixo de 3% no mercado secundário, mas estão ainda acima do valor de fecho de janeiro. “Clube” internacional dos juros negativos amplia-se na zona euro e passa a incluir o Japão no prazo a 10 anos e a Alemanha no prazo a 9 anos

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência a 10 anos fecharam o mês de fevereiro em 2,989% na linha obrigacionista que vence em julho de 2026. Este nível registado na segunda-feira afasta o custo de financiamento da dívida portuguesa de longo prazo do pico de 4,53% verificado na quinta-feira negra de 11 de fevereiro, mas continua acima do fecho em 2,67% no final de janeiro.

Se o mês de janeiro registou um pico de stresse na dívida portuguesa nos dias 20 e 21 em torno da reunião da ISDA, a Associação Internacional de Swaps e Derivados, para apreciar se a decisão do Banco de Portugal (BdP) em transferir parte da dívida sénior do Novo Banco para o BES “mau” configurou um evento de crédito, em fevereiro o pico do stresse ocorreu a 11 de fevereiro. Uma quinta-feira em que o pânico financeiro subiu 14,5% nas praças financeiras da zona euro, com a Bolsa de Milão em derrocada e as Bolsas de Lisboa e Madrid a perderem mais de 4,5%.

ISDA e Moody's desanuviam pressão sobre a dívida

O desanuviamento da pressão sobre a dívida portuguesa ocorreria pela mão da ISDA e da agência de notação Moody’s. A 16 de fevereiro, a ISDA considera que não houve evento de crédito na questão da decisão do BdP e a 25 a agência de rating dá nota positiva ao Orçamento de Estado para 2016. Entretanto, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) comunicou que realizou “no início de fevereiro” mais uma amortização de 1972 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional e no dia 25 procedeu a uma recompra de 1075 milhões de euros em dívida obrigacionista que vencia em outubro de 2017, junho de 2018 e julho de 2019.

O prémio de risco da dívida portuguesa recuou de um pico de 427 pontos base (equivalente a 4,27 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã que serve de referência) na quinta-feira negra de 11 de fevereiro para 288 pontos base, mas, mesmo assim, ficou 33 pontos base acima do fecho em janeiro em 255 pontos base.

Único caso de rentabilidade negativa na zona euro

O custo dos credit default swaps (cds), que funcionam como contratos para cobertura do risco de incumprimento da dívida a 5 anos, para a dívida portuguesa subiram de 222,39 pontos base no final de janeiro para 302,38 no final de fevereiro, um aumento de 36%. Aquele preço dos cds significa que, no final de fevereiro, o comprador do contrato tem de pagar mais de 3% do valor a cobrir.

A dívida portuguesa é a única na zona euro a registar uma rentabilidade negativa nas últimas 52 semanas, segundo o índice da Bloomberg. Tendo fechado janeiro com um retorno anual positivo de 1,36%, terminou fevereiro com um retorno negativo de -3,62%. A rentabilidade anual do conjunto da dívida da zona euro é de 1,36%. A rentabilidade anual baixou em todos os membros do euro em fevereiro.

Aprofundam-se as diferenças na zona euro

Apesar de uma descida na segunda quinzena, o mês de fevereiro ficou marcado por subidas das yields da dívida obrigacionista dos periféricos da zona euro no mercado secundário, com exceção da Irlanda, em relação ao fecho de janeiro.

No prazo de referência, a 10 anos, as yields subiram 79 pontos base no caso das obrigações gregas, 11 pontos base no caso das OT, três pontos base para as obrigações espanholas e dois pontos base para as italianas. Uma subida de 100 pontos base equivale a um agravamento em 1 ponto percentual do custo de financiamento. Relativamente à Grécia, as yields voltaram a fechar perto de 14,5%, quando no mês anterior haviam encerrado em 9,69%. A Irlanda destacou-se do grupo dos periféricos – as yields da dívida a 10 anos desceram três pontos base e situa-se claramente abaixo de 1% (fechou em 0,8%), o que contrasta com 2,989% para as OT, 1,53% para as obrigações espanholas e 1,42% para as italianas.

Se em quatro dos periféricos se registou uma subida das yields, no caso das economias do centro do euro e das restantes principais do mundo desenvolvido (EUA, Reino Unido e Japão) verificaram-se descidas significativas. A liderar a trajetória descendente no prazo a 10 anos, as yields das obrigações britânicas (conhecidas por Gilts) que recuaram 23 pontos base, seguidas das yields das obrigações alemãs (conhecidas por Bunds) que desceram 22 pontos base para 0,11%, aproximando-se do mínimo histórico de 0,07% registado em abril de 2015. No caso dos títulos do Tesouro norte-americano (US Treasuries), o recuo foi de 18 pontos base e para as obrigações francesas a descida foi de 16 pontos base.

Ampliou-se o “clube” das yields negativas

No Japão, as yields nos títulos a 10 anos passaram a terreno negativo, descendo de 0,1% no final de janeiro para -0,06% no final de fevereiro. O Tesouro nipónico, pela primeira vez na sua história, registou yields negativas a 10 anos, entrando para um clube restritíssimo, onde, apenas, se incluía até agora a Suíça, que regista yields negativas a 10, 15 e 20 anos.

O grupo das economias com yields negativas, ou seja em que os investidores pagam para adquirir os títulos soberanos de alguns países, tem-se ampliado face aos episódios de pânico financeiro nas praças financeiras (desde início do ano, as bolsas da Ásia recuaram 8,1% e as bolsas europeias caíram 6,7%) e na expetativa de mais estímulos monetários em março por parte do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco do Japão, que já optaram por taxas de remuneração negativa dos depósitos dos bancos nos cofres do banco central em Frankfurt e em Tóquio.

A expetativa de novas medidas de estímulos por parte do BCE reforçou-se com a divulgação pelo Eurostat na segunda-feira da estimativa preliminar de inflação anual negativa da zona euro para fevereiro. A inflação anual caiu de 0,3% em janeiro para -0,2% em fevereiro. Inflações negativas já não se registavam desde setembro de 2015 (-0,1%). E uma taxa de -0,2% já não se verificava desde dezembro de 2014. O fantasma da deflação (de uma queda generalizada e contínua de preços no consumidor) regressou. O último ciclo de taxas negativas contínuas registou-se entre dezembro de 2014 e março de 2015 inclusive.

No final de fevereiro, a Suíça registava yields negativas na dívida obrigacionista até ao prazo de 20 anos inclusive, o Japão até 10 anos inclusive, a Alemanha até 9 anos inclusive, a Holanda até 8 anos inclusive, a Áustria, Bélgica e França até 7 anos inclusive, a Finlândia até 6 anos inclusive, e Dinamarca, Eslováquia, Irlanda, República Checa e Suécia até 5 anos inclusive. A Itália registava yields negativas a 12 meses e 2 anos e a Espanha a 12 meses. Só na Zona Euro são 10 os países emitentes com yields negativas no mercado secundário em diversos prazos. Portugal e Grécia não registam nenhuma yield negativa.