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G20: política monetária não chega para combater riscos globais

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Pool/ Getty Images

Ao fim de dois dias de reunião em Xangai, as 20 maiores economias comprometem-se “individual e coletivamente” a usar todas as “ferramentas” políticas para evitar o descarrilamento da economia mundial e uma guerra de divisas. Política orçamental “flexível” é indispensável. Alemanha está contra

Os ministros das Finanças e os responsáveis dos bancos centrais das 20 maiores economias do mundo, desenvolvidas e emergentes, reconhecem que aumentaram os riscos globais e as vulnerabilidades da retoma económica em curso. O G20 concluiu este sábado uma reunião de dois dias em Xangai.

Para enfrentar esta situação, os participantes no G20 apelaram a que “individual e coletivamente” os governos dos 20 utilizem as três ferramentas de política que têm ao seu dispor, monetária, orçamental e de reformas macroeconómicas estruturais.

Ainda que não tenha saído da reunião um pacote coordenado como sugeria o Fundo Monetário Internacional (FMI), os participantes reconheceram que os riscos globais são diversos e estão a convergir.

O FMI já avisou que, em abril, irá provavelmente rever em baixa, de novo, o crescimento mundial previsto para este ano. Pesam sobre a retoma mundial, a volatilidade nos fluxos de capitais e nos mercados financeiros, a queda continuada dos preços das matérias-primas, as tensões geopolíticas, e, mais recentemente, a crise dos refugiados muito aguda na Europa e a eventualidade dos britânicos decidirem a 23 de junho em referendo uma saída do Reino Unido da União Europeia (o que tem sido designado por Brexit). Este último risco foi considerado, agora, um choque global.

Alemanha contra flexibilidade orçamental

Neste contexto, o G20 acolheu a sugestão do FMI de que a política monetária de estímulos, ainda que necessária e deva prosseguir, não chega. É preciso uma política orçamental gerida de “maneira flexível” e uma nova vaga de reformas macroeconómicas estruturais. A Alemanha está contra essa combinação a três. O ministro das Finanças germânico Wolfgang Schäuble afirmou que o modelo de crescimento baseado no endividamento e a política monetária se esgotaram e que esses estímulos estão a gerar economias zombie.

O ministro das Finanças francês Michel Sapin resumiu o pensamento da maioria do G20, incluindo a posição dos Estados Unidos, do Japão, da China e da própria Comissão Europeia: “Ninguém quer um plano orçamental de relançamento coordenado ao nível mundial, contrariamente ao que sucedeu em 2009, mas exige-se que os países com uma situação mais favorável atuam de um modo mais vigoroso”. E, mas adiante: “Estamos numa situação que torna necessária a utilização de todas as margens de manobra quando existem”.

Em março vão decorrer três reuniões importantes no mundo dos bancos centrais: BCE no dia 10; Banco do Japão nos dias 14 e 15; e Reserva Federal (Fed) nos dias 15 e 16. No caso dos dois primeiros aguardam-se mais estímulos monetários; em relação à Fed, as previsões indicadas pelo mercado de futuros das taxas de juro apontam para uma probabilidade superior a 50% para um aumento destas apenas na reunião de dezembro.

Os EUA e o FMI, desde há alguns meses, que pressionam os países com excedentes externos e com folga orçamental para que usem a política orçamental como impulso à retoma. O documento do FMI preparado para este G20 menciona explicitamente a Alemanha como podendo fazê-lo.

Avisar antes de desvalorização cambial

Outro ponto que aflorou na reunião de Xangai foi o risco de uma guerra de divisas, de desvalorizações competitivas, nomeadamente na Ásia, envolvendo a China e o Japão, apesar de não serem identificados.

Para “evitar surpresas”, revelou Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, o G20 acordou em que os países membros avisem antecipadamente os outros de decisões cambiais que possam implicar desvalorizações.

O G20 é formado por 19 países (9 emergentes, incluindo os quatro BRIC, e 10 desenvolvidos) e mais a União Europeia, contando com a participação do Banco Central Europeu, do comissário dos Assuntos Económicos e Monetários da Comissão Europeia e do Eurogrupo (órgão de reunião dos ministros das Finanças da zona euro), a que se juntam o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Desde novembro de 2008 que se realizam, também, cimeiras de chefes de Estado do grupo. O grupo representa 86% do PIB mundial e 75% do comércio internacional.