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Angola: receita afunda, inflação dispara

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Aterragem violenta da economia angolana. Nem a TAAG aceita receber em kwanzas

João Carlos Santos

Economia angolana está cada vez mais pressionada

As receitas do petróleo afundam, a inflação dispara, a redução de negócios é acentuada, as divisas são cada vez mais escassas, os produtos essenciais racionados para evitar açambarcamentos e a Standard & Poor’s desceu um nível o rating do longo prazo do país. Com estes ingredientes e neste ambiente adverso em que a economia angolana se move, a combinação pode revelar-se explosiva.

O Orçamento do Estado para 2016 contava com o petróleo a 45 dólares por barril. Com o preço na casa dos 32 dólares, a revisão em baixa da receita de €19,4 mil milhões é uma questão de tempo. Quando o petróleo sobe 2% ou 3% “há logo empresários portugueses que telefonam entusiasmados, mas a verdade é que para o país voltar a um crescimento robusto é preciso que o preço atual duplique”, conta um gestor bancário radicado em Luanda.

A visão de Eduardo Rangel, com duas empresas de logística e 150 assalariados em Angola, incorpora duas narrativas distintas. A atividade interna “revela-se estável e não causa dores de cabeça”. A Rangel não tenciona reduzir ou reorganizar a operação. Outra coisa é a realidade do comércio externo. O comércio com Angola “está a cair 50%, sendo mais acentuada na fileira dos materiais de construção”, revela o empresário. E quem importa tem de pagar em Portugal.

“Há clientes que sugerem pagar no destino, em kwanzas, mas não aceitamos”, diz o empresário. E a Rangel não assume esse risco “porque também tem de pagar o serviço de carga em Portugal”. Até a TAAG, companhia aérea de bandeira do país, cobra em euros. A banca angolana suprimiu as cartas de crédito e são raros os grupos angolanos com acesso a linhas de crédito em Portugal ou seguros da Cosec.
Financiar em Portugal

O segredo para uma aterragem mais suave em Angola reside em financiar a atividade a partir de Portugal. Os exportadores com sucursais no país ou redes comerciais que operam nos dois lados podem optar por manter o nível de negócio, aceitando acumular kwanzas nas contas em Angola.

Um diretor bancário que lida com exportadoras conta ao Expresso que “as empresas reconhecem que, em 2016, o mercado angolano é para esquecer”. As mais expostas revelam “maior nervosismo”, outras adotam uma “atitude de maior comprometimento”, aceitando as novas regras do jogo.

Em janeiro, a taxa de inflação anualizada subiu para 17,3% (14% em dezembro), depois de os preços terem subido num mês 3,4%. A ameaça inflacionista levou o Banco Nacional de Angola (BNA) a subir a taxa de referência em 100 pontos-base (para 12%).

O industrial português Jorge Leal regista “um brutal abrandamento de negócios” e, retrata a partir de Luanda, os sinais de agravamento da crise angolana. Transferir salários “é uma tarefa quase impossível”. E, no domínio das divisas, dá um exemplo: aguarda desde julho, “com toda a documentação direitinha”, a transferência de um valor irrisório de €6350 euros.

Com os preços e os receios a subirem, a tendência é para reforçar na despensa. É um “sinal da perceção pessimista que os angolanos têm da realidade” e que leva “a limitar os produtos como o açúcar, arroz (3 kg por pessoa) ou leite (6 litros)”, conta o empresário. Uma das empresas de que é sócio “ganhou um contrato e vai precisar de importar materiais e subempreitar parcialmente na Europa”. Mas, para isso, terá de pagar as encomendas à cabeça. Sem divisas disponíveis, só o recurso a cartas de crédito poderiam romper este círculo vicioso. Mas, os bancos no exterior não aceitam tal mecanismo sem as divisas depositadas. Um problema insolúvel.

No passado, um expediente permitia aliviar o drama do pagamento de serviços e transferir dólares para o exterior: bastava uma empresa angolana celebrar um contrato e registá-lo no Ministério da Economia para a transferência se realizar. As autoridades criaram, primeiro, uma taxa de 10% e agora, na prática, impedem este tipo de transferências, à exceção de casos de interesse nacional, como o das petrolíferas.