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Menos seis mil empregos, menos crédito, menos lucros, mais prejuízos

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AUSTERIDADE Em seis anos, o BCP foi o banco que mais “emagreceu” - cerca de três mil funcionários a menos, metade da redução total do sector FOTO NUNO FOX

nuno fox

De 2008 a 2014 foram eliminados em média mais de mil postos de trabalho por ano. Com prejuízos em vez de lucros, a banca emagreceu. Cortou no crédito, vendeu ativos, reforçou o capital, muitas vezes com a ajuda do Estado. Balanço do sector desde o início da crise. Texto publicado no Expresso Diário de 23 de junho de 2015

Passaram apenas oito anos, mas podíamos estar a falar de outra era, ou mesmo de outro planeta. Em 2007, 10 bancos do sistema financeiro português - incluindo os maiores - lucraram, em conjunto, mais de 3,1 mil milhões de euros. Lucros gordos que, de então para cá, se transformaram, para a maioria destes bancos, em prejuízos pesados, chegando aos 1,4 mil milhões de euros em 2014. Mesmo assim, números menos negros do que os registados em 2013, quando o somatório dos prejuízos ultrapassou os 2,4 mil milhões de euros.

Claro que os prejuízos pesaram mais nalgumas instituições do que noutras. Até pela sua dimensão, caso de "gigantes" como o BCP e a CGD. Mas nenhum escapou sem consequências à crise financeira mundial, primeiro, e, depois, à crise das dívidas soberanas, que atingiu Portugal em força com a entrada da troika.

Estas crises tornaram “mais evidente a necessidade das instituições financeiras regressarem ao seu core bussiness, de onde nunca deveriam ter saído, e a terem critérios de riscos mais ajustados”, afirma José de Matos, presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Por isso, o líder do banco público e antigo vice-governador do Banco de Portugal considera que “o sector da banca está hoje em melhor do que nas últimas décadas, não porque seja mais rentável ou gerador de avultados ganhos para os seus acionistas, mas porque é mais banca e menos outras coisas”. Este é apenas um dos testemunhos dos gestores de topo dos bancos a quem o Expresso endereçou algumas perguntas sobre as transformações dos últimos anos e os desafios para o futuro do sector.

Só dois não tiveram prejuízos

Entre as diferentes convulsões que atingiram os bancos aqui analisados - CGD, BCP, BPI, BES (agora Novo Banco), Santander Totta, Montepio, Crédito Agrícola, Banif, BPN (nacionalizado em 2008 e adquirido pelo BIC, angolano, em 2011) e BIG - apenas dois não tiveram prejuízos: um dos cinco maiores, o Santander Totta (a par do grupo Caixa Agrícola) e o mais pequeno, o BIG. No entanto, os seus negócios foram alvo de ajustamentos e reposicionamentos.

Dos 10 bancos analisados, BPI, BIG e Novo Banco foram os únicos bancos que não responderam às perguntas colocadas pelo Expresso.

Os bancos foram obrigados a voltar ao básico e a vender posições acionistas e ativos não estratégicos. "Foi um período muito difícil para a banca portuguesa, que teve de vender ativos, viu o crédito mal parado aumentar de forma significativa e teve de recorrer ao Banco Central Europeu (BCE) para se financiar e obter liquidez", salienta Luís Mira Amaral, presidente do BIC Portugal.

A redução não atingiu apenas os lucros e o negócio bancário. Num sector que chegou a empregar mais de 52 mil pessoas entre 2007 e 2009, foram eliminados mais de seis mil postos de trabalho, considerando apenas a atividade em Portugal. O tempo em que a banca era um dos melhores empregadores também chegou ao fim da linha e para isso concorreu não apenas a crise financeira internacional mas também o redimensionamento das operações em Portugal.

O número de balcões espelha esta evolução: desapareceram cerca de 750 balcões. O BCP foi o banco que mais cortou em trabalhadores (fosse por reformas antecipadas ou por rescisões amigáveis) com quase metade (cerca de 2800) dos mais de seis mil trabalhadores que saíram da banca após 2008 - ano do pico do emprego no sector. O segundo banco que mais reduziu o número de funcionários - cerca de 1900 - foi o BPI, seguido da CGD, com perto de 900 trabalhadores. Em sentido inverso está o Montepio ,com um aumento de mais de 1000 trabalhadores no quadro de pessoal. A isso não é alheio o facto de ter comprado o Finibanco, em 2011.

A banca estava demasiado alavancada, com a concessão de crédito a particulares e empresas muito acima dos depósitos. O reajustamento, que ocorreu em força por imposição da troika, teve impacto na economia e no emprego. O rácio que mede a relação entre crédito concedido e depósitos captados chegou a atingir, para o conjunto de todo o sistema financeiro, 161,5%, em 2009, segundo dados divulgados pela Associação Portuguesa de Bancos. No final de 2014 tinha caído para 107,1%.

A banca fechou a torneira do crédito e apostou na captação de depósitos. Foi obrigada a isso. As novas regras de contabilização do peso do crédito em risco - e não apenas do crédito vencido - colocaram uma pressão adicional nas necessidades de capital. Créditos que antes não "comiam" capital passaram a consumir aos bancos maiores recursos próprios. E as imparidades e provisões para crédito dispararam, fruto das novas regras e do aumento do incumprimento das famílias e das empresas.

O presidente do Santander Totta, António Vieira Monteiro, avisa que um dos desafios mais fortes que o setor enfrenta é "a adaptação a um ambiente regulatório cada vez mais complexo e que nem sempre é totalmente coerente com o objetivo de garantir a sustentabilidade do sistema financeiro".

Como resultado das novas regras, os bancos tiveram de recapitalizar-se. Várias instituições apenas o conseguiram com a ajuda do Estado. Outras afastaram essa possibilidade. No caso do BES, que sempre recusou recorrer à linha de capitalização pública, as consequências foram avassaladoras. O banco foi alvo de uma intervenção do Banco de Portugal e separado em dois: o banco “mau”, que concentrou os ativos mais problemáticos e os seus acionistas, e continuou a chamar-se BES; e o banco “bom”, que ficou com os melhores ativos e foi rebatizado Novo Banco, após receber 4,9 mil milhões do Fundo de Resolução da banca.

O caso do BES obrigou Portugal a ser cobaia de regras no resgate a bancos que só no próximo ano entram em vigor para toda a zona euro. O Novo Banco está agora a ser vendido, num processo que o Banco de Portugal e o Ministério das finanças pretendem ver concluído até ao fim de junho.

Para além do BES, que acabou por rebentar já depois da troika sair de Portugal, o BPN teve de ser nacionalizado ,em novembro de 2008, e um mês depois eram conhecidas publicamente as insuficiências de capital do BPP, banco que após várias tentativas para ser recuperado entrou em liquidação. O BPN ainda esteve mais de três anos a ser gerido por administradores da CGD e acabou por ser vendido ao banco angolano BIC, por 40 milhões de euros.

Já no Banif o Estado teve de injetar 1100 milhões de euros, dos quais 700 milhões diretamente no capital, tornando-se o maior acionista do banco fundado por Horácio Roque.

No atual cenário de regulação em que a supervisão dos maiores bancos passou a estar sob a alçada direta do BCE, desde novembro de 2014, a consolidação bancária em Portugal é tida como incontornável. Apesar de, em Portugal, os cinco maiores bancos - CGD, BCP, Santander Totta, BPI e Novo Banco - terem acima de 80% do negócio bancário, o BCE tem dado sinais de que vê com bons olhos a consolidação de operações que possam gerar sinergias capazes de promover uma maior internacionalização dos bancos portugueses.

Licínio Pina, presidente do Crédito Agrícola, considera mesmo que a consolidação bancária em Portugal "é inevitável e também no grupo CA haverá aceleração de processos de fusão de Caixas (o grupo CA é composto por caixas económicas que consolidam na Caixa Central)". Aliás, esta ideia de consolidação entre bancos nacionais é partilhada por outros gestores bancários. Mira Amaral associa "o sério problema de rendibilidade" da banca portuguesa à necessidade de consolidação.

Este movimento de concentração implicará, contudo, novos reajustamentos no mundo da banca, nomeadamente redução de quadros. Para Tomás Correia, do Montepio, a consolidação "é geralmente vista como um veículo interessante para obtenção de sinergias, poupanças de custos e rentabilidade". Mas questiona: "a quem interessa a consolidação? O que ganha o país, o mercado e os consumidores com os processos de consolidação? Reduzem-se as alternativas e as possibilidades de escolha dos prestadores de serviços financeiros, o número de concorrentes, logo o nível de competição, pelo que não será de crer efeitos favoráveis nos preços a que esses serviços são prestados para os consumidores", remata.

[ Texto publicado no Expresso Diário de 23 de junho de 2015 ]