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Alemanha contra o resto do G20 e o FMI

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Horas antes da abertura da reunião do G20 em Xangai, o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble vincou que está contra qualquer pacote de estímulos orçamentais e que a política monetária está esgotada. O FMI propôs esta semana que o grupo "identifique proativamente" politicas de estímulos que possam ser colocadas em prática rapidamente em caso de necessidade

Jorge Nascimento Rodrigues

A Alemanha opõe-se a qualquer plano de estímulos coordenado pelo G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, desenvolvidas e emergentes, que iniciou esta sexta-feira em Xangai uma reunião dos ministros das Finanças e dos banqueiros centrais.

Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças da chanceler Angela Merkel, pronunciou-se contra a proposta do Fundo Monetário Internacional poucas horas antes da reunião do G20 se ter iniciado em Xangai. “Falar de mais estímulos é apenas desviar das verdadeiras tarefas que temos em mãos”, vincou o ministro que acrescentou que o espaço para as políticas monetária e orçamental atuarem está esgotado e que não concorda com um pacote de estímulos.

Estímulos estão a transformar as economias em zombies

"O modelo de crescimento financiado pela dívida atingiu os seus limites. E inclusive está a causar novos problemas, aumentando a dívida, gerando bolhas e a assunção de riscos excessivos, transformando a economia num zombie", disse Schäuble na conferência organizada pelo Instituto de Finanças Internacionais.

Ora, o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou esta semana um documento preparado para a reunião do G20 em que apela a que as maiores economias do mundo “identifiquem proactivamente políticas que possam ser colocadas rapidamente no terreno se necessário”.

O FMI identifica um conjunto de recomendações de estímulos nas áreas da política monetária e orçamental, mencionando sugestões específicas para os BRIC e para a Zona Euro, Japão e Estados Unidos. Algumas delas visam diretamente o Banco Central Europeu e a própria Alemanha.

BCE deve continuar com estímulos, mas não chega

“Com a inflação a permanecer baixa, o BCE deverá continuar a sinalizar fortemente a sua vontade para usar todos os instrumentos disponíveis até que cumpra o seu mandato de estabilidade de preços. Além disso, o quantitative easing deve ser apoiado por uma mais equilibrada combinação de políticas, incluindo apoio orçamental, correção do balanço e reformas estruturais”, refere o documento, na mesma semana em que o Eurostat divulgou uma estimativa final de 0,3% para a inflação anual em janeiro na zona euro, uma décima abaixo da previsão inicial.

Mas o FMI não se fica pela política monetária. Recomenda, em geral, que se “evite um excesso de confiança” nesta política. Recomenda ao G20, por isso, que “uma política orçamental de curto prazo deverá apoiar a retoma, onde for apropriado e desde que haja espaço orçamental para tal, focando-se no investimento”. Dirigindo-se à zona euro, o FMI especifica que “os países com espaço orçamental deverão fazer mais para apoiar o crescimento”, e, neste ponto, aponta diretamente o país de Merkel e Schäuble: “por exemplo, através de investimento em infraestruturas na Alemanha”.

Recorde-se que nese documento preparado para o G20, a instituição dirigida pela francesa Christine Lagarde adianta que devertá proceder, em abril, a uma nova revisão em baixa das suas previsões de crescimento para 2016, apenas três meses depois de ter publicado uma atualização. Na revisão de janeiro, o FMI cortou 0,2 pontos percentuais nas taxas de crescimento do PIB mundial para 2016 e 2017, avançando com 3,4% e 3,6% respetivamente. Em fevereiro, a OCDE reviu em baixa a sua previsão para 2016, apontando para 3%. Crescimentos abaixo desse limiar são considerados de risco de recessão para a economia mundial no seu conjunto.

Lagarde socorre-se de Confúcio

"Quando é óbvio que os objetivos não podem ser alcançados, não ajuste os objetivos, ajuste as etapas da ação”, referiu, em Xangai, a diretora-geral do FMI na abertura de um seminário do G20 sobre reformas estruturais, citando o filósofo chinês Confúcio.

Lagarde falou de “três dimensões económicas particularmente importantes para o sucesso da implementação de reformas estruturais”.

A primeira tem a ver com o foco de desenvolvimento. A diretora-geral socorreu-se do ditado “não tente correr antes de poder andar”, para recomendar aos países desenvolvidos a aposta em reformas estruturais que fomentem a tecnologia e a inovação e às economias emergentes que se centrem nas reformas que fortaleçam os direitos de propriedade e os mercados de capitais.

A segunda dimensão tem a ver com a importância dos “multiplicadores orçamentais”, que são fundamentais quando “o crescimento económico é inferior ao seu potencial”. E para potenciar esses multiplicadores, o investimento em projetos de infraestruturas gera maiores ganhos no curto prazo.

O terceiro vetor aponta para que cada país procure avaliar as melhores práticas internacionais, fazendo as escolhas que se adequem “às preferências sociais”. Cita casos de sucesso como soluções de “flexisegurança” nos países nórdicos e anglo-saxões, ainda que assentes em “políticas muito diferentes no mercado de trabalho”.