Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Draghi. Não hesitaremos em agir em março. Política orçamental tem de ajudar

  • 333

O presidente do Banco Central Europeu insistiu esta segunda-feira perante os deputados do Parlamento Europeu que é indispensável mais investimento público e menos carga fiscal. Procurou tranquilizar sobre a situação da banca europeia

Jorge Nascimento Rodrigues

“Não hesitaremos em agir”, afirmou Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), aos deputados do Parlamento Europeu em Bruxelas esta segunda-feira no início da sua comparência perante a Comissão de Assuntos Económicos e Monetários.

O presidente do BCE garantiu aos deputados que, se as medidas de estímulos tomadas até à data se revelarem insuficientes face ao contexto de turbulência financeira e de “importação” de baixa inflação, a equipa de banqueiros centrais tomará medidas adicionais a 10 de março, na próxima reunião.

Mas não chega o BCE fazer a sua parte. As políticas orçamentais têm de apoiar a retoma em curso na zona euro. Investimento público, particularmente, infraestruturas públicas adequadas, e menos carga fiscal são indispensáveis. “Em paralelo, outras políticas têm de ajudar a colocar a economia da zona euro em terreno firme. Tem-se tornado cada vez mais claro que as políticas orçamentais terão de apoiar a retoma económica por via do investimento público e de menos carga fiscal. Além disso, o ciclo de retoma em curso terá de ser suportado por políticas estruturais efetivas”, afirmou. Draghi destacou: “Em particular, ações para melhorar o ambiente de negócios, incluindo uma infraestrutura pública adequada, são vitais para aumentar o investimento produtivo, impulsionar a criação de emprego e subir a produtividade”.

Avaliação dos riscos: turbulência financeira e quebra de preços do petróleo

Draghi tem na agenda a reunião da sua equipa de banqueiros centrais a 10 de março, que procederá a uma reanálise das medidas de política monetária de “alívio” que têm sido tomadas desde março do ano passado. O BCE vai avaliar se essas medidas – desde a decisão em iniciar em março passado a compra de dívida pública no mercado secundário até à descida da taxa de remuneração dos depósitos bancários para -0,3% em dezembro - têm tido êxito na sua “transmissão” para a economia real através do sistema financeiro da zona euro.

Esta avaliação é tanto mais pertinente “à luz da recente turbulência financeira”. Draghi disse hoje à tarde aos deputados europeus que “vamos analisar o estado de transmissão dos nossos impulsos monetários através do sistema financeiro e, em particular, por parte dos bancos” da zona euro. Além disso, há o problema da dinâmica de desinflação “importada” com o seu impacto na formação de salários e dos preços internos e nas próprias expetativas de inflação. Essa avaliação “vai depender da dimensão e da persistência da queda de preços do petróleo e das matérias-primas e a incidência de efeitos de segunda ordem nos salários e preços domésticos”, referiu o presidente do BCE. “Se qualquer um destes dois fatores implicarem riscos descendentes para a estabilidade dos preços, não hesitaremos em agir”, concluiu.

Malparado pode ser resolvido “de um modo ordenado”

Draghi reconheceu perante os deputados europeus que houve “uma deterioração geral no sentimento do mercado desde início de dezembro e que criou raízes e ganhou ritmo ao longo da última semana”. Se, de início isto parecia estar mais ligado ao abrandamento da economia global, em particular do grupo dos mercados emergentes, “o sentimento de mercado tornou-se mais volátil e susceptível de mudanças rápidas”.

Um dos impactos deste agravamento sentiu-se também nas ações dos bancos na Europa, apesar de uma exposição limitada aos mercados emergentes e aos países produtores de matérias-primas. A quebra bolsista dos bancos foi “amplificada pelas perceções de que terão de fazer mais para ajustarem os seus modelos de negócio a uma envolvente de menor crescimento, de mais baixas taxas de juro e de um enquadramento de regulação mais forte".

Neste quadro, o presidente do BCE salientou que as exigências em capital não serão aumentadas. E tranquilizou dizendo que os bancos europeus estão em boa posição para diminuírem de “um modo ordenado nos próximos anos” o crédito malparado, que atingiu um nível particularmente elevado num “subconjunto de bancos”.

Como se espalhou, recentemente, o rumor de uma ação em relação à banca italiana (que está inundada de credito mal parado), Draghi disse no Parlamento: “Eu não sei de onde veio essa história de que o BCE pretende comprar crédito vencido dos bancos italianos. Não há quaisquer negociações com o governo italiano”. O que se está a estudar é a possibilidade de se aceitarem instrumentos de dívida titularizada (ABS, asset backed securities) relacionados com crédito malparado como garantia se tiverem pelo menos uma notação de crédito de A, disse o italiano.