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Juros da dívida. Pressão sobre Portugal abrandou. Mas sobre a Grécia continua

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Balanço da semana. Juros das Obrigações do Tesouro português atingem pico de dois anos e depois descem, mas estão 1 ponto percentual acima do final de 2015. Grécia continua sob pressão. Alargam-se vários fossos dentro da zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues

A segunda semana de fevereiro ficou marcada, na zona euro, pelo stresse na dívida portuguesa com as yields das Obrigações do Tesouro (OT) no prazo de referência a atingirem picos de dois anos na quinta-feira passada e pela continuação do disparo das yields das obrigações gregas para o patamar dos 11%, um nível que já não se observava desde o início de agosto passado. São níveis registados no mercado secundário da dívida soberana, e não no mercado primário, de emissão obrigacionista pelos estados emitentes.

As yields das OT a 10 anos (que vencem em julho de 2026, um linha lançada em janeiro deste ano e que serve de novo referencial) chegaram a 4,5% durante a sessão de 11 de fevereiro, quando haviam fechado a semana anterior em 3,13%. Este nível já não se registava desde fevereiro de 2014. Depois desceram para fechar a semana em 3,73%, ainda assim mais de 1 ponto percentual acima do valor de fecho do ano de 2015.

Este nível de yields das OT a 10 anos situa-se no intervalo de variação entre 3 e 5% até abril de 2010. O disparo ocorreu depois com a crise das dívidas soberanas dos periféricos do euro.

DBRS deita água fria na fervura

O stresse sobre a dívida portuguesa, alimentado pelas declarações do ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble à entrada no dia 11 de fevereiro para a reunião do Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças da zona euro) e pelo próprio presidente daquele órgão, o holandês Jeroen Dijsselbloem, abrandou claramente na sexta-feira, depois de a Reuters divulgar, à tarde, declarações do vice-presidente sénior da agência de notação canadiana DBRS deitando água fria na fervura.

Fergus McCormick, que é responsável na DBRS pela divisão de dívida soberana, disse que, no momento atual, a agência se sente “confortável” com o facto de ser “apropriada” a classificação de “estável” para a tendência da notação da dívida (que está, ainda em terreno de não especulativa, ao contrário das notações das outras três principais agências de rating). Mas acrescentou que "se a volatilidade no mercado persistir, então, a nossa atenção vai voltar-se para a equação política e o que é exequível em termos de ajustamento orçamental". A DBRS reavalia a notação portuguesa no final de abril.

O disparo do prémio de risco

Mais preocupante foi o disparo na semana passada do prémio de risco, uma designação para o diferencial entre o custo de financiamento de uma dívida de um dado país da zona euro em relação ao custo de financiamento da dívida alemã, que serve de referência. O prémio ultrapassou o limiar dos 400 pontos base (equivalente a 4 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã) durante a sessão de 11 de fevereiro, um nível que já não se registava desde outubro de 2013. O limiar dos 400 pontos base foi galgado em fevereiro de 2011 quando a crise das dívidas dos periféricos acelerou.

O prémio de risco fechou a semana em 347 pontos base, um salto de 63 pontos base (mais de meio ponto percentual) em relação ao final da semana passada. Foi um salto que representa mais do quíntuplo do que se verificou para os prémios de risco das dívidas espanhola, italiana e irlandesa, naquele período. O fosso entre o prémio de risco da dívida portuguesa e os relativos às dívidas espanhola e italiana ampliou-se de uma semana para a outra. Em relação ao final de 2015, o prémio de risco da dívida portuguesa está 157 pontos base acima (mais de 1,5 pontos percentuais).

Vários círculos nos periféricos

O disparo do prémio de risco português verificou-se não só porque as yields das OT a 10 anos subiram, mas também devido à descida das yields das obrigações alemãs naquele prazo, que atingiram mínimos de nove meses, ao fecharem a semana em 0,26%, uma redução de 37 pontos base (0,37 pontos percentuais) em relação a 5 de fevereiro. O fosso entre o custo de financiamento da dívida alemã, e de outras economias do centro do euro, e o relativo aos restantes periféricos, e em particular Portugal e Grécia, não tem parado de se ampliar.

No entanto, há profundas diferenças entre os cinco periféricos em matéria de prémio de risco: a Grécia suporta um prémio de 1121 pontos base (mais de 11 pontos percentuais de diferença) e Portugal regista um prémio que é o dobro do verificado para Espanha e Itália e o quíntuplo do verificado para a Irlanda. Mesmo dentro dos periféricos há vários círculos de risco.

A situação grega depende da conclusão do primeiro exame ao terceiro resgate. Os credores oficiais pretendem que o governo de Alexis Tsipras proceda a um corte generalizado, e permanente, nas pensões de reforma acima de 1500 euros por mês como condição para terminar o exame em curso, segundo o jornal helénico Kathinerini.

Há incerteza se esta medida será aprovada pelo pleno da maioria de deputados no Parlamento que suporta o atual governo de coligação liderado pelo Syriza. Noutra frente, a relação com os agricultores gregos é muito tensa. Algumas sedes do Syriza no mundo rural foram inclusive atacadas. As contribuições para o novo sistema de pensões (se for aprovado) que terão de passar a fazer simplesmente triplicarão.

Custo dos cds mais do que duplicou desde íncio do ano

O mesmo padrão se observa para os designados credit defaut swaps (acrónimo cds), que funcionam como contratos contra o risco de incumprimento da dívida. O custo dos cds a 5 anos é usado como medida de referência.

O preçodos cds para a dívida portuguesa subiu 39% esta semana; saltou de 250,7 pontos base a 5 de fevereiro para 365 na quinta-feira e fechou em 350 na sexta. Este último preço dos cds significa que o comprador do contrato paga 3,5% do valor a cobrir. No início do ano, o comprador pagava 1,7%. Ou seja, mais do que duplicou.

A segunda maior subida. esta semana, registou-se com o custo dos cds para a dívida irlandesa, que aumentaram 36%. Contudo, há que ter em conta que o nível deste preço é o mais baixo entre os periféricos do euro, situa-se em apenas 64,87 pontos base.

Rentabilidade negativa

Mais preocupante para os investidores é a constatação que a rentabilidade da dívida obrigacionista portuguesa é negativa.

A rentabilidade nas últimas 52 semanas passou a negativa a 5 de fevereiro, no mesmo dia em que a Comissão Europeia avisou que havia “risco de incumprimento” das regras por parte do “rascunho” de Orçamento de Estado português para 2016. E esse retorno negativo ampliou-se: de -0,07% dia 5, para -5,51% na quinta-feira passada, fechando em -4,34%, segundo dados do índice da Bloomberg (Bloomberg Global Benchmark Sovereign Bond Indexes). É a única rentabilidade anual negativa na zona euro.

A rentabilidade anual do conjunto da dívida obrigacionista de toda a zona euro é de 0,83%. A mais elevada continua a ser a da dívida grega que, no entanto, desceu de 11,14% a 5 de fevereiro para 2,58% a 12 de fevereiro.

Em termos de rentabilidade negativa no mês de fevereiro (só avaliando este indicador desde início do mês até à data), a dívida portuguesa só é ultrapassada pela dívida grega em termos de retorno negativo. Todos os periféricos registam retornos negativos, o que dá bem a imagem do stresse este mês neste grupo de países do euro: -9,39% para a Grécia; -5,07% para Portugal; -1,46% para Itália; -1,29% para Espanha; e -0,5% para a Irlanda.

  • Balanço semanal. O epicentro da crise bolsista deslocou-se nesta segunda semana de fevereiro para a Ásia e Europa. Índice mundial caiu 2,6% e entrou em “mercado do urso” (tendência de baixa). Apreensão com a reabertura das bolsas chinesas na segunda-feira