Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Ex-economista-chefe do FMI. Está na hora de lançar dívida indexada ao PIB

  • 333

O ex-economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, publica esta quinta-feira um artigo científico a favor da emissão de obrigações públicas com os juros indexadas à evolução do crescimento do PIB

Jorge Nascimento Rodrigues

Chegou o momento na zona euro para analisar o lançamento de dívida pública em que os juros estejam relacionados com o crescimento económico, defende Olivier Blanchard, o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), num artigo científico em coautoria com Paolo Mauro e Julien Acalin publicado nos “Policy Brief” do Peterson Institute for International Economics de Washington.

“Um dos legados da crise financeira global é um rácio elevado da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Ainda que os níveis atuais possam ser sustentáveis, uma outra série de choques ruins pode facilmente fazer pender a balança e conduzir a rácios de dívida insustentáveis e à bancarrota”, refere Blanchard e os seus coautores, para fundamentar a razão por que considera que é a altura de avançar nas economias desenvolvidas, e em particular na zona euro, com aquele tipo de emissões de dívida soberana. “Acreditamos que é o momento certo para o fazer”, dizem.

“Quanto mais elevado for o rácio inicial da dívida [face ao PIB], ou quanto maior for a volatilidade dos défices [públicos] futuros, dos juros [a pagar] e das taxas de crescimento [do PIB], mais elevada é a probabilidade que, a dado ponto no futuro, atinja um nível insustentável. Nestas circunstâncias, os investidores poderão preocupar-se, e quanto mais preocupados estiverem, mais elevado será o prémio que exigirão para deter dívida, e pior se tornará a dinâmica da mesma”, sublinham. Assegurando um nível de serviço de dívida mais baixo quando a conjuntura económica é fraca, o risco de uma explosão da dívida é diminuído, argumentam.

Este tipo de dívida só foi emitida no quadro de reestruturações, como sucedeu nos casos da Bulgária em 1994, da Argentina em 2005, da Grécia em 2012 e da Ucrânia no ano passado. Ou seja, em situações extremas. Blanchard e os seus dois coautores acham que é altura de recolocar a opção que foi debatida na ressaca da crise de dívida dos anos 1980. Mais tarde, o Prémio Nobel Robert Shiller propôs a criação de “macro mercados” para este tipo de títulos soberanos.

O artigo realiza simulações com base nas dívidas espanhola e italiana (neste caso com um rácio da dívida superior a 130%) para demonstrar os benefícios da opção em duas das maiores economias da zona euro e discute o prémio a estabelecer em função dos diversos riscos associados. “Acreditamos, baseados na evidência existente sobre as obrigações indexadas à inflação e em discussões com investidores potenciais, que é razoável esperar, logo que os prémios derivados da novidade e da liquidez [deste mercado] estabilizem, que o prémio [global] se fixe substancialmente abaixo de 100 pontos base [o equivalente a 1 ponto percentual]”, refere o documento.

Para reduzir o prémio de risco, Blanchard e os coautores propõem a “introdução destes títulos numa dimensão suficientemente larga” e a “identificação de investidores potenciais dispostos a manterem-nos até à maturidade”, nomeadamente investidores estrangeiros com estratégias de carteira diversificadas.

No caso da zona euro, a criação deste mercado de dívida ligado à taxa de crescimento poderá fornecer “uma solução parcial baseada no mercado” muito antes de uma união orçamental formal.