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Como poupar e investir no ano antipoupança

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Construir uma boa poupança é como criar laços e relacionamentos. Requer paciência, alegria e dedicação. Há quem diga que a isto se chama amor. Vai ser preciso muito em 2016

Elisabete Tavares

Elisabete Tavares

Texto

Jornalista

Olavo Cruz

Olavo Cruz

Infografia

Sou tímida. Ergui muros ao longo da vida para evitar que me conheçam e que cheguem até mim. Resultou. O que tem isto a ver com um artigo sobre poupança e investimento? Tudo.

elacionamentos erguidos em areia acabam por ruir um a um. Construir uma poupança sólida e próspera requer à partida resposta a duas questões: quem é?, o que quer? E por esta ordem.
As dicas dos especialistas são importantes, e lá iremos. Mas há que fazer um perfil de investidor, um escrutínio do comportamento e das atitudes e uma radiografia da vida em termos financeiros. Pode ser feita numa folha Excel. Assim, com o deve e o haver na balança, calcular os objetivos adequados aos montantes disponíveis e ao perfil do investidor.

Ter um fim em vista e passar pelo processo com alegria e empenho, em vez de olhá-lo como algo enfadonho, faz toda a diferença. Para que se quer fazer o plano de poupança? Onde se quer usar o dinheiro poupado/ganho?

Infografia Olavo Cruz

“Para se escolherem os mapas ou se definirem as trajetórias, é importante primeiro perguntarmo-nos: o que queremos? E mais importante do que isso: porquê?”, diz Hugo Santos, psicólogo e consultor.

Ver os custos e receitas fixos e variáveis de forma objetiva e realista pode logo gerar algumas conclusões lucrativas. Tal como pode haver rendimentos potenciais não estudados (vender objetos esquecidos, alugar uma casa online na Airbnb ou em sites similares ou arrendar um quarto vazio em sites como o da Uniplaces). E não deixar de verificar se há perdas de rendimentos por via de mau preenchimento do IRS, por desleixo a pedir faturas, ou por manter seguros antigos, entre outros. O levantamento da vida financeira pode revelar surpresas.

Até onde está disposto a ir?

Fazer um plano de poupança sólido implica ter uma radiografia da situação financeira. Os débitos e os créditos (incluindo os potenciais) devem ser postos a nu, lado a lado. Depois, quanto se está disposto a poupar? O ideal é colocar de lado, periodicamente (à semana, ao mês...), um valor para poupar/investir. Perceber porque se faz e ter um objetivo em mente ajuda a fazê-lo com ânimo e propósito. Com o tempo, pode tornar-se um jogo divertido e viciante (no bom sentido) ver quanto se consegue poupar ou quanto se consegue ganhar.

O montante que se pretende (ou pode) aplicar em poupança e investimento é outro dado fundamental para delinear uma estratégia.

“Caso se tratem de montantes relativamente pequenos — o que considero poder ir até aos 250 mil euros, aproximadamente —, parece-me fazer sentido que sejam feitas aplicações que estejam enquadradas dentro da segurança conferida pelo Fundo de Garantia de Depósitos”, afirma Filipe Garcia, economista da Informação de Mercados Financeiros (IMF). “Soluções como os produtos de poupança estatais são alternativas viáveis, mas deve sempre assegurar-se uma suficiente diversificação por tipo de produtos, instituições e, eventualmente, jurisdições”, acrescenta.

Para montantes mais elevados, “há que ter em conta desde logo o novo enquadramento legal em torno dos depósitos e de instrumentos financeiros como as obrigações”, que podem levar a perdas em caso de problemas na instituição. “Nesse sentido, parece-me recomendável que os aforradores/investidores recorram a serviços especializados e devidamente autorizados de gestão de patrimónios e consultoria para o investimento, nem que seja apenas para uma consulta inicial sobre o tema”, sugere o economista.

Independentemente do perfil de investidor, dos montantes disponíveis e das metas, há recomendações que são universais e intemporais. Diversificar os investimentos por tipos de ativos e produtos e regiões é uma delas. Hoje em dia, ter uma boa parte da poupança disponível (liquidez) é crucial.

João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa, recomenda ainda que se “deve evitar subscrever produtos complexos aos balcões dos bancos” e, “optando por investir em fundos, deve-se diversificar”.

O que deve saber sobre 2016

As perspetivas não são as melhores. 2016 está a revelar-se um ano ‘urso’ (em oposição a ‘touro’). Ou seja, está a ser negativo, com quedas acentuadas nas Bolsas a nível mundial.

“Este será um ano muito complicado para a poupança, com ganhos reais muito limitados”, avisa António Ribeiro, economista e analista de produtos financeiros da Deco. A inflação esperada para este ano é de 1,1%. “O capital de renda fixa com rentabilidade pelo menos igual à da inflação, para não se perder dinheiro, não é fácil de encontrar”, diz.

Assim, para um perfil mais conservador, os depósitos são uma opção, mas vale a pena procurar os que dão maior taxa de juro, e nesse caso há que ter em atenção as campanhas dos bancos online, por exemplo, que garantem um rendimento real líquido (descontando a inflação). Os depósitos não devem ultrapassar os 100 mil euros assegurados pelo Fundo de Garantia, mas pode-se ter várias contas em diferentes bancos ou adicionar titulares à conta, dado que o montante garantido é por titular.

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Os Certificados do Tesouro são uma alternativa vantajosa, sobretudo se se ficar até ao fim do prazo (cinco anos), visto que as taxas de juro são crescentes.

Os especialistas recomendam que até 20% da poupança deve estar alocada a outras aplicações, como fundos. Aqui, é útil recorrer a especialistas. Acarreta custos (comissões, por exemplo), mas pode compensar. Seguros de capitalização são outra opção recomendada. “Têm rentabilidades interessantes e a vantagem de poderem receber entregas periódicas”, aponta o especialista da Deco, cujo site disponibiliza vários tipos de simuladores de poupança e investimento.

Nas ações, é preciso prudência. Analistas antecipam maiores quedas nas Bolsas, com as previsões a oscilar entre descidas de 30% e o apocalipse. João Pereira Leite alerta para “as ações de empresas cujas receitas dependam de países emergentes [China, Brasil e Índia, por exemplo]”.

Para o BiG, a aposta vai para “o mercado acionista europeu, na medida em que a divergência de políticas monetárias [expansionista do BCE versus restritiva da Reserva Federal dos Estados Unidos] sustenta um melhor desempenho das ações europeias face às norte-americanas”.

“Muito provavelmente, vamos voltar a assistir a variações de preço que podem assustar ou excitar, levando muitas vezes à tomada de decisões erradas, instigadas por estas emoções. No entanto, se o investidor estiver mentalizado de que esta volatilidade vai ser normal no decorrer de 2016, estará mais bem preparado para tomar decisões acertadas”, alerta a equipa de análise do BiG.

Luís Bravo, gestor da Dif Broker, afirma que “os investidores mais conservadores poderão ter um cenário mais complexo para se adaptarem, devendo provavelmente olhar para produtos com maior lógica de preservação de capital, assumindo risco de capital apenas em mercados desenvolvidos [Europa, Estados Unidos e Japão] e numa percentagem reduzida do total do seu património [não mais do que 15%]”.

Mas, sobretudo, deve-se estar confortável com o plano de poupança e a carteira de investimentos. “Todos nós erramos, felizmente, e por vezes não cuidamos de nós da melhor forma. Mas no mais profundo de nós, por trás das camadas que o sistema nos impingiu, está um repertório inato e aprendido de autopreservação, uma intuição aguçada, uma força enorme, uma energia vital capaz do que quiser.” Palavra de psicólogo.