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Pânico financeiro nas bolsas europeias. Dívida dos periféricos sob ataque

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O índice de volatilidade europeu subiu mais de 11% esta segunda-feira. Derrocadas bolsistas em quatro periféricos. Portugal escapou. Sete principais bancos europeus com quedas em bolsa superiores a 5%. Prémios de risco das dívidas portuguesa e grega disparam

Jorge Nascimento Rodrigues

O pânico financeiro regressou esta segunda-feira à Europa. O índice de volatilidade relacionado com o Eurostoxx 50 subiu 11,26%, atingindo 33,24 euros. Conhecido tecnicamente por VSTOX está, ainda, abaixo do nível registado a 20 de janeiro, quando subiu para 35 euros, mas sinaliza uma situação de grande stresse na Europa.

O índice bolsista Eurostoxx 50 (das cinquenta principais cotadas da zona euro) fechou a cair 3,25%. Milão e Madrid lideraram as quedas nas principais praças financeiras europeias, com os seus principais índices, o MIB e o Ibex 35, a caírem mais de 4%. Frankfurt, Amesterdão e Paris perderam mais de 3%.

Os analistas apontam para a conjugação esta segunda-feira de vários fatores negativos que alimentaram o pânico.

À escala global, a China continua a marcar os riscos. Durante o fim de semana, Pequim divulgou uma quebra em janeiro de 99,5 mil milhões de dólares nas reservas de divisas chinesas que são as maiores do mundo.

O Instituto alemão Sentix revelou que na zona euro a maioria dos entrevistados considera, agora, que foi um erro a decisão, em dezembro passado, de subida da taxa de juros pela Reserva Federal norte-americana.

O preço do barril de petróleo de Brent voltou às quedas, recuando 2,3%, cotando-se, no patamar dos 33 dólares.

Na Grécia a incerteza sobre o desfecho do primeiro exame ao terceiro resgate domina o sentimento dos investidores. O aviso da Comissão Europeia sobre os riscos de incumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento por parte de Portugal em 2016 continua a pesar negativamente. Em Espanha prossegue o impasse político. A incerteza sobre a configuração do futuro Parlamento irlandês depois das eleições que se vão realizar no final deste mês veio para ficar. Em Itália, o problema da situação do sector bancário domina as atenções.

Derrocadas em Atenas e Dublin

Os países periféricos do euro estiveram em destaque nesta maré vermelha europeia. As bolsas de Atenas e Dublin registaram derrocadas, com o índice geral grego a cair 7,87%, um desastre financeiro que não se observava há 26 anos, e o ISEQ irlandês a perder 5,36%. O Ibex 35 espanhol caiu 4,44% e o MIB italiano recuou 4,69%. Escapou a quebras daquela grandeza a Bolsa de Lisboa, com o índice PSI 20 a perder 2,8%.

Fora da zona euro, observou-se uma derrocada na bolsa de Copenhaga com o índice OMX 20 dinamarquês a recuar 5,19%. A bolsa de Estocolmo perdeu 4,22%.

Os principais bancos da zona euro estiveram também sob pressão. No índice Eurostoxx 50, sete bancos registaram quedas superiores a 5% - Deutsche Bank alemão, que liderou perdendo 9,5%, Santander espanhol, Société Générale francês, ING holandês, Unicredit italiano, BBVA espanhol e BNP Paribas francês. Em Itália, que tem estado em foco por causa do grave problema que aflige o setor bancário, as ações de três bancos transalpinos perderam mais de 10% esta segunda-feira – Banca Monte dei Paschi di Siena, Banca Popolare Emilia Romagna e UBI.

Prémios de risco de Grécia e Portugal disparam

Esta segunda-feira observou-se no mercado de dívida um movimento em tesoura – as yields dos cinco periféricos da zona euro subiram enquanto se registava o movimento contrário para a dívida das economias do centro, nomeadamente para as obrigações alemãs. A subida foi mais acentuada para a Grécia e Portugal.

As yields das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam em 3,38% na linha que vence em julho de 2026 e em 3,22% na linha que vence em outubro de 2025. Foi a maior subida diária registada este ano e a segunda maior desde junho de 2015. Neste período, a maior subida diária verificou-se a 29 de junho do ano passado, com um disparo de 38 pontos base, aquando do contágio da crise grega. Hoje a subida foi de 25 ou 27 pontos base, consoante a linha de OT a 10 anos que se toma como referência.

No caso das obrigações gregas, as yields fecharam em 10,42%, um nível que já não se observava desde a crise grega do verão passado, antes da assinatura do terceiro resgate.

As yields das obrigações alemãs a 10 anos desceram hoje para 0,23%, ainda que estejam distantes do mínimo histórico de 0,079% registado a 12 de abril do ano passado.

Fruto dessa divergência de trajetórias, os prémios de risco dos cinco periféricos subiram, com destaque para a Grécia e Portugal.

O prémio de risco helénico subiu para 1020 pontos base, estando, agora, acima do prémio para a dívida russa, que aringiu 1015 pontos base.

O prémio de risco português aumentou para 315 ou 299 pontos base, em função da linha de OT que se toma por base. Este nível de prémio já não se observava desde meados de fevereiro de 2014.Cada 100 pontos base equivalem a 1 ponto percentual de diferencial em relação ao custo de financiamento da dívida alemã. O prémio de risco da dívida portuguesa está acima do da Polónia.

Amplia-se a dívida com juros negativos

Em simultâneo ampliou-se a dívida obrigacionista dos países do centro que registam yields negativas, ou seja, títulos que os investidores se dispõem a adquirir ou manter em carteira mesmo tendo de “pagar” aos estados emitentes.

Nos casos da Alemanha e da Holanda, as yields negativas abrangem os prazos até 7 anos inclusive. Para a Áustria, Bélgica, Finlândia e França, o leque estende-se até ao prazo de 6 anos inclusive. No caso da Eslováquia, registam-se yields negativas para as obrigações a 4 e 5 anos. E no caso da Irlanda para as obrigações a 3 anos. Fora da zona euro, mas na União Europeia, registam-se yields negativas na Dinamarca, República Checa e Suécia. Fora da UE, a Suíça registou hoje yields negativas até ao prazo de 15 anos inclusive, caso único no mundo.

Em termos de variação relativa, no prazo de referência, a 10 anos, as yields que mais desceram esta segunda-feira, à escala mundial, foram as das obrigações nipónicas, seguidas das alemãs, francesas, belgas, austríacas, holandesas, finlandesas e norte-americanas. As que mais subiram foram as relativas à dívida argentina, do Qatar, espanhola e turca.

O fosso entre os pejorativamente designados PIGS (grupo formado por Portugal, Itália, Grécia e Espanha) e o "centro" da zona euro tem-se ampliado claramente nestas semanas do novo ano.