Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Stresse na dívida em janeiro. Subida do prémio de risco para Grécia, Portugal e Itália

  • 333

Balanço do mês. Os juros das obrigações britânicas, alemãs e norte-americanas desceram significativamente no mês que finda. O risco da dívida disparou para a Grécia e Portugal. Itália sentiu efeito da incerteza sobre resgate do sector bancário

Jorge Nascimento Rodrigues

O mês de janeiro ficou marcado para Portugal por um aumento das yields no mercado secundário e um disparo no prémio de risco da dívida. O pico do stresse registou-se nos dias 20 e 21 de janeiro, quando as yields das Obrigações do Tesouro (OT), no prazo de referência a 10 anos, ultrapassaram os 3% e o prémio de risco superou os níveis registados em junho de 2015 durante a crise grega.

O agravamento poderia ter sido pior se não tivessem ocorrido três eventos que moderaram as subidas em janeiro no caso de Portugal e que aceleraram a corrida a valores considerado seguros – valores refúgio - como as Bunds (obrigações) alemãs, as US Treasuries norte-americanas e as Gilts (obrigações) britânicas, que viram as yields, no prazo a 10 anos, descer 30, 35 e 39 pontos base no mercado secundário.

Três eventos com impacto positivo

Primeiro, e diretamente importante para a zona euro, e, naturalmente, para Portugal, a expetativa de que o Banco Central Europeu (BCE) venha a reconsiderar a política monetária na reunião de 10 de março, ampliando os estímulos.

O risco para Portugal poder deixar de beneficiar do programa de compras de dívida pública no mercado secundário pelo BCE joga-se na decisão da agência de notação canadiana DBRS a 29 de abril, quando está prevista a revisão da situação, sendo uma das possibilidades o corte do rating da dívida portuguesa de longo prazo para terreno de dívida especulativa (vulgo ‘lixo financeiro’).

Segundo, o corte surpresa, na última sessão do mês, na sexta-feira, pelo Banco do Japão da taxa de remuneração dos depósitos para terreno negativo, cujo detalhe pode ler aqui.

Terceiro, as probabilidades de um segundo aumento das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana (Fed) desceram significativamente durante a semana depois de se ter confirmado um abrandamento do ritmo de crescimento da maior economia do mundo no quarto trimestre de 2015. Antes da reunião da Fed de 27 de janeiro, registava-se uma probabilidade de 53% de ocorrer um novo aumento das taxas de juro na reunião de 27 de julho. No final da semana, uma probabilidade superior a 50% foi chutada para 21 de dezembro. O mercado de futuros das taxas de juro da Fed aponta para um adiamento claro de uma nova subida depois da decisão de dezembro de fixar o novo intervalo entre 0,25% e 0,50%. A Fed, na primeira reunião do novo ano, mostrou-se preocupada com o abrandamento da economia do país e com os “desenvolvimentos financeiros e económicos globais”.

Pico de stresse em janeiro

O pico do stresse para a dívida portuguesa registou-se nos dias 20 e 21 de janeiro em torno da reunião da ISDA, a Associação Internacional dos Swaps e Derivados que, ao apreciar a polémica transferência de uma parte da dívida sénior do Novo Banco para o BES, decidiu adiar para 12 de fevereiro a apreciação sobre se essa decisão do Banco de Portugal gerou um evento de crédito ou não.

As yields ultrapassaram, então, a linha dos 3% e o prémio de risco subiu para 245 pontos base, se for tomada como referência a 10 anos a linha de OT que vence em 2025 e para 264 se a base for a linha de OT que vence em 2026 (e que foi lançada a 14 de janeiro através de uma operação de sindicação em que o Tesouro pagou uma taxa de remuneração de 2,973%). Esses níveis de prémio de risco são superiores aos registados em junho do ano passado durante o pico da crise grega antes de Atenas conseguir o acordo para o terceiro resgate,

A recente chuva de críticas ao “rascunho” de Orçamento de Estado de 2016, nomeadamente por parte das quatro agências de notação de crédito que vão voltar a apreciar, de março a abril, a situação do rating da dívida portuguesa de longo prazo, acabou por, ainda, não revelar um impacto negativo no mercado secundário na evolução das yields que desceram de mais de 3% no pico a 20 e 21 de janeiro para 2,67% (na linha de OT que vence em outubro de 2025) e 2,88% (na linha de OT que vence em julho de 2026) a 29 de janeiro.

O prémio de risco fechou janeiro em 234 pontos base ou 255 pontos base, consoante a referência que se tome para o benchmark a 10 anos. Esses níveis correspondem a um diferencial de 2,34 ou 2,55 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã, que, ainda por cima, baixou 30 pontos base (0,3 pontos percentuais) em janeiro. Esse nível de prémios corresponde a um disparo de 44 ou 65 pontos base durante o mês de janeiro.

Grécia e Itália sob observação

O mais significativo disparo nas yields e no prémio de risco em janeiro registou-se para a dívida grega a 10 anos.

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram 134 pontos base para fecharem em 9,69% e o prémio de risco engordou 1,65 pontos percentuais para fechar em 936 pontos base ( o que significa que o custo de financiamento da dívida grega tem um prémio de mais de 9 pontos percentuais em relação à referência alemã). Apesar da agência Standard & Poor’s ter melhorado, a 22 de janeiro, o rating da dívida de longo prazo helénica – subindo a notação da zona de alto risco de bancarrota para altamente especulativa (tecnicamente de CCC+ para B-) e com perspetiva “estável” -, mantem-se a incerteza sobre o desfecho do primeiro exame ao terceiro resgate.

Itália entrou nos radares com o prémio de risco da dívida a subir 10 pontos base em janeiro, de 97 pontos base no final de 2015 para 107 pontos base a 29 de janeiro de 2016. Contudo, as yields das obrigações italianas a 10 anos desceram 21 pontos no mercado secundário, de 1,6% para 1,4% naquele período, e o prémio de risco mantém-se inferior ao da dívida espanhola (que subiu 2 pontos para 117 pontos base). A incerteza sobre a reestruturação do sector bancário transalpino tem gerado turbulência em particular na Bolsa de Milão, cujo índice MIB perdeu quase 13% em janeiro, a terceira maior derrocada mensal nas principais praças financeiras do mundo, depois das quedas no índice CSI 300 da China e no Tadawull da Arábia Saudita.

Nota sobre Ratings

As três principais agências de rating utilizam uma escala alfabética de A a C ou D com escalões em cada letra para a classificação da situação da dívida soberana de longo prazo.

O mais elevado é triplo A (onde se situam 10 países que recolhem essa notação por parte das três principais agências, sete dos quais na Europa), a que se segue duplo A (grau elevado), apenas A (grau médio superior, onde se encontra a Irlanda segundo a S&P e Fitch), triplo B (grau médio inferior, onde se situa Portugal segundo a agência DBRS e a Espanha e Itália), duplo B (grau especulativo, onde já não se recomenda investimento, onde começa o “lixo financeiro”, em que se situa Portugal para as três principais agências), apenas B (grau altamente especulativo, onde se situa, agora, a Grécia para a S&P), C (que tem três níveis de dívida: risco substancial onde se situa a Grécia segundo a Moody’s e a Fitch; extremamente especulativa; e falta de perspetivas de recuperação) e D (situação de default, de bancarrota, que pode ser total ou seletiva ou limitada, como é o caso atualmente da Argentina).

A partir de duplo A inclusive, as agências aplicam ainda em cada escalão uma graduação com +, sem sinal e –, ou 1 a 3.