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Tivoli vendido aos tailandeses em fevereiro

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Luis Barra

Após dois anos de imbróglio, o grupo Minor pode finalmente comprar os hotéis do ex-grupo Espírito Santo, onde já entrou com €300 milhões. Os próprios trabalhadores foram aos tribunais ajudar a acelerar a venda

Foi numa “conversa no refeitório” que surgiu entre os trabalhadores dos hotéis Tivoli a ideia de se mobilizarem para desatar “o último nó” de um embrulhado processo judicial que pesava sobre a rede hoteleira do ex-grupo Espírito Santo (GES). Com um grupo tailandês interessado em comprar a Tivoli, o processo estava a marinar nos tribunais devido ao arresto de bens decretado em maio do ano passado a todo o universo GES, o que incluiu os hotéis.

“Nós, trabalhadores, estávamos decididos a fazer qualquer coisa para sensibilizar o juiz a andar com as coisas para a frente”, conta António Leitão, chefe de cozinha do Tivoli Lisboa, que em outubro entregou em mãos nos tribunais a petição dos trabalhadores apelando “à celeridade do andamento do processo, pois muitas famílias dependiam deste trabalho”. O arresto foi levantado em dezembro e com ele o último obstáculo que impedia a venda à Minor.

A compra dos hotéis pelo grupo tailandês vai ser concretizada em fevereiro, segundo adianta Filipe Santiago, administrador da Tivoli, enfatizando aqui a “resiliência e o apoio” da Minor, que há dois anos se mantém firme no objetivo de adquirir a cadeia hoteleira portuguesa, apesar de todo o folhetim judicial que protagonizou desde então.

A venda dos 14 hotéis Tivoli em Portugal e no Brasil tinha sido decidida antes da derrocada do GES, mas foi apanhada no turbilhão. Já decorriam negociações com a Minor quando o processo foi parar ao tribunal do Luxemburgo (país onde estava a sede da Rioforte, holding não financeira do grupo), que inviabilizou a solução apresentada, obrigando a avançar para um plano B.

“Começa então um período de incerteza”, conta Filipe Santiago. “Perante o arrastar do processo e no objetivo de ganhar algum oxigénio até o tema se resolver, tivemos de avançar para um Processo Especial de Revitalização (PER) e apresentar aos credores um plano de recuperação que consistia na venda dos hotéis à Minor”.

A Minor, um grupo com 140 hotéis concentrados sobretudo na Ásia, para quem a aquisição da Tivoli significava entrar na Europa e na América Latina, foi entretanto “comprando tudo o que podia” e estava fora de restrições judiciais, designadamente a operação da Tivoli no Brasil e a propriedade de cinco hotéis em Portugal (Tivoli Lisboa e Oriente, Vilamoura, Portimão e Carvoeiro). Ao que o Expresso apurou, a Minor já desembolsou até à data cerca de €300 milhões na Tivoli, valor que inclui €90 milhões de dívidas pagas a credores da Tivoli no âmbito do PER.
Em agosto veio mais um revés: o Montepio contestou o PER e pediu a insolvência da Tivoli, alegando dívidas de €60 milhões. “É quando isto começa outra vez a embrulhar”, refere Filipe Santiago, explicando que “o Montepio não foi aceite em tribunal como credor, porque a sua dívida era à Espírito Santo Hotéis, que estava por cima da Tivoli”. Mas a solução resolveu-se em outubro, com a própria Minor a entrar em acordo com o Montepio.

Segundo o administrador, o último engulho eram mesmo “os arrestos que tinham sido feitos a eito no ex-grupo Espírito Santo”, e que após a intervenção dos trabalhadores foram levantados pelos tribunais em meados de dezembro. “Foi um excelente presente de Natal poder dar-lhes esta boa notícia”.

Informar os trabalhadores “sem floreados”

Mas “os problemas da Tivoli começaram em 2009”, lembra Filipe Santiago, com a crise internacional e agravada pelo resgate financeiro a Portugal em 2011. “Foram anos muito difíceis para o turismo, com a procura em forte retração e a abertura de oferta que vinha de tempos do boom”, salienta. “A nós apanhou-nos num período de grande expansão”. A Tivoli estava “em fase forte de investimento”, tinha montado a operação no Brasil (com a compra do resort Praia do Forte em 2006 e do hotel de São Paulo em 2009), avançado parcerias internacionais e reformulado a marca, e teve de pôr travões a fundo neste plano expansionista — o último hotel a abrir foi o Tivoli Victoria em Vilamoura, em junho de 2009.

“Vínhamos de um ciclo em que éramos as estrelas do mercado e fomos apanhados em cheio. Felizmente, fomos rápidos a reagir”, nota o administrador da Tivoli, lembrando o “plano muito forte de redução de custos em 2008 antecipando anos difíceis que tínhamos pela frente, e sem prever ainda que o GES fosse colapsar”. Com este plano “conseguimos reduzir custos em €5 milhões em 2010, que eram 7% do volume de negócio”. Em 2011 foi reestruturada “toda a máquina comercial da Tivoli, que era muito pesada e ficou superágil”. Como frisa Filipe Santiago, “quando o GES decide alienar este negócio em finais de 2013, já estava perfeitamente ajustado. Olhando para trás, se não déssemos estes passos se calhar não conseguíamos chegar aqui”.

Apesar de estarem sob processo de PER, os hotéis Tivoli cresceram 16% em receitas desde 2014 e o resultado antes de impostos (EBITDA) galgou 130%. O administrador enfatiza aqui o papel de todos os parceiros, desde trabalhadores a fornecedores. “O negócio continuou sempre a crescer porque eles nos apoiaram. Imagine-se o que seria tirarem-nos o tapete no verão de 2014 com o colapso do GES”. Uma palavra especial aos trabalhadores “que foram incansáveis, nunca baixaram os braços, e nos hotéis o foco tem de estar sempre em ter clientes satisfeitos e bons reviews no Trip Advisor. Foram um exemplo de força de vontade, e a mim fica-me para a vida”. Frisa que a tónica foi sempre “uma comunicação direta com os trabalhadores, sem floreados ou a esconder o que se passava”. Foi também sem floreados que o anterior administrador da Tivoli, Alexandre Solleiro, comunicou aos trabalhadores que ia sair da empresa no verão do ano passado por razões pessoais. “Ele sempre foi muito direto connosco, e compreendemos bem os seus motivos”, garante o chefe António Leitão.

Em fevereiro, quando for finalizada a compra dos hotéis pela Minor, fica fechado o PER e todo o processo judicial que vinha de trás. Com donos tailandeses, abre-se agora à Tivoli um mundo novo. “Vamos ser integrados numa cadeia global que se está a expandir e em que a nossa aquisição é estratégica para abrir mercados na Europa e América Latina”, sustenta Filipe Santiago, concluindo que até aqui o processo “foi um thriller, mas acabou por ser uma história com um final feliz, e crescemos todos com isto”.