Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Juros da dívida portuguesa em 2,7%

  • 333

Os juros das obrigações dos países da zona euro estão em alta desde segunda-feira. A nova regra de resgate bancário está a afetar o “sentimento” dos investidores na dívida da zona euro. Depois da Grécia, Portugal registou a maior subida de juros desde final do ano passado

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT), no prazo de referência, a 10 anos, estão em 2,7%, o que já não se registava desde meados de novembro do ano passado.

A trajetória de subida das yields da dívida obrigacionista de longo prazo portuguesa é muito clara desde 6 de janeiro. As yields, naquele prazo de referência, já subiram 14 pontos base desde o final de 2015.

Desde o Natal de 2015, o custo dos contratos para cobertura do risco de incumprimento da dívida portuguesa no prazo de cinco anos, designados por credit default swaps, subiram 22 pontos base, tendo fechado na segunda-feira em 192 pontos base (o comprador paga 1,92% do valor a cobrir).

Grécia, Portugal e Espanha são os três países em que as yields no prazo de referência da dívida obrigacionista estão a subir desde final do ano passado. Para as obrigações gregas subiram 18 pontos base, para as portuguesas os já referidos 14 pontos base, e para as espanholas um aumento mais modesto de cinco pontos base.

Quanto aos outros países periféricos e do centro da zona euro, as yields, no prazo de referência, baixaram desde o final do ano, mas estão a subir esta semana.

Medo aos confiscos

Os analistas apontam para o efeito negativo da nova diretiva sobre resgates bancários (o novo regime de bail-in que entrou em vigor em 2016) também nos investidores em dívida soberana na União Europeia.

“O medo, agora, é dos bail-in, dos confiscos, do controlo de capitais e das falências de bancos. Vejam-se os recentes exemplos de Portugal e de Itália”, refere o analista Mike Shedlock na sua “Global Economic Trend Analysis” de ontem. Mesmo antes da entrada em vigor do novo regime, os investidores foram surpreendidos na zona euro. O analista americano destaca o recente caso de transferência de cinco emissões de dívida sénior do Novo Banco para o designado BES “mau” (veículo de ativos tóxicos do anterior grupo financeiro português), uma decisão anunciada a 29 de dezembro.

No passado sábado, o diretor do escritório da Pimco em Londres arrasou aquela decisão do Banco de Portugal em declarações ao Expresso. “Este tipo de decisão nunca aconteceu. Nunca vimos nada assim. Não vimos isto nem na Grécia”, referiu Philippe Bordereau. “A nossa visão é que isto equivale a confiscar ativos injustamente”, sublinhou. Borderau assina esta terça-feira um artigo no jornal britânico "Financial Times" intitulado sugestivamente "Discriminação no banco Novo Banco português estabelece um precedente perigoso".

Este clima estará a contagiar, também, o mercado de dívida soberana.

BCE e agências de notação na mira

Este mercado é, também, sensível ao que se passa com a inflação na zona euro que não descolou de perto de 0% no final do ano passado e aos mais recentes dados dos índices de “sentimento económico” em janeiro e de “expetativas” para o próximo semestre, divulgados na segunda-feira pelo Sentix. O “sentimento” caiu de 15,7 em dezembro para 9,6 em janeiro. As “expetativas” desceram de 18 para 6,3 naquele mesmo período.

A queda a pique do preço do barril de Brent, referência na Europa, influencia negativamente a marcha da inflação, não permitindo uma trajetória de reflação para a proximidade da meta de política monetária do Banco Central Europeu (BCE).

As atenções vão estar, agora, viradas para a reunião do BCE a 21 de janeiro.

Ainda este mês, já na sexta-feira, a agência de notação Moody's poderá publicar a apreciação da situação da dívida de longo prazo portuguesa. Esta agência mantém a classificação de dívida especulativa (vulgo "lixo financeiro", no nível Ba1) para Portugal com uma perspetiva "estável" desde 25 de julho de 2014. Os analistas do Commerzbank sublinham hoje no seu "Rates Radar" que "há um risco da Moody's baixar a perspetiva estável de Portugal".

A 22 de janeiro poderá publicar a apreciação da situação da dívida da Madeira. No mesmo dia, a Standard & Poor's (S&P) poderá reavaliar a notação da dívida grega, que está em situação de risco substancial de incumprimento.

A agência Fitch publica a análise sobre Portugal a 4 de março, a S&P a 18 do mesmo mês, e a canadiana DBRS a 29 de abril. As duas primeiras mantêm a dívida de longo prazo portuguesa em grau especulativo (no nível BB+) e a última ainda a considera em grau de investimento, em BBB (baixo), apenas um nível abaixo de especulativo. o que tem permitido manter a elegibilidade de Portugal junto do programa de compra de dívida soberana pelo BCE.

O país regressa ao mercado de emissão de dívida na próxima semana, a 20 de janeiro, com uma emissão de Bilhetes do Tesouro a 6 e 12 meses. Os especialistas do Commerzbank apontam para a possibilidade do lançamento de uma nova linha de obrigações a 10 anos através de uma operação de sindicação "na próxima semana".