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Subida dos combustíveis pressiona angolanos

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Nova desvalorização do kwanza faz derrapar poder de compra da classe média

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Na passagem de 2015 para 2016, um verdadeiro ‘ciclone’ virou completamente do avesso a vida da maioria dos angolanos, depois de o Governo ter decretado o maior aumento de preços dos combustíveis na história do país. Com os combustíveis, veio atrelada a subida do preço da água, da luz e do gás de cozinha. E, ainda, uma nova desvalorização oficial do kwanza, que num ano reduziu em 60% a capacidade de importação de Angola.

Anunciando-se tempos ainda mais difíceis ao longo deste ano que agora começa, um médico disse ao Expresso que, neste cenário, “pedir menos turbulência é um desejo quase irrealizável”. Apanhados completamente em contramão, os angolanos, pela primeira vez desde o fim da guerra e do colapso do boom petrolífero, começam a ter noção de que o período de prosperidade acabou.

Para o economista António Gomes, “acabou porque andámos, durante anos, a viver sem os pés assentes no chão”. De mãos atadas, sem os recursos de outros tempos, o Governo quer agora poupar 5 mil milhões de dólares (€4,6 mil milhões) com o fim dos subsídios aos combustíveis.

Este montante, que no passado chegou a fazer parte da verba destinada aos investimentos públicos, deverá, segundo o secretário de Estado do Orçamento, Alcides Safeka, servir para “reduzir o défice orçamental e garantir o funcionamento das instituições do Estado”.

Mas não é a única medida restritiva. Aplaudida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a decisão de reduzir em 30% o subsídio à água e eletricidade nas províncias de Luanda e Benguela vai fazer o Estado poupar ainda, anualmente, mais de 400 milhões de dólares (€366 milhões).

Transportes mais caros

Com esta ‘cirurgia’, chega também ao fim o desvio de milhões de litros de gasóleo subvencionados pelo Estado para o sector das pescas, que eram vendidos no mercado paralelo ou contrabandeados na fronteira com os Congos Democrático ou Brazaville. “Estas medidas eram incontornáveis mas deveriam ter sido adotadas, há bastante tempo, de forma gradual”, disse o empresário Carlos Ferreira.

O choque da sua aplicação fez os ‘candongueiros’ (táxis coletivos privados) soarem o alarme e, de imediato, encurtaram as rotas e subiram a bandeirada. Com a subida de 100 para 200 kwanzas (€0,7 para €1,4) do preço da corrida dos táxis, muitos cidadãos, sem recursos, estão agora a percorrer centenas de quilómetros a pé, para poderem chegar ao emprego.
Quem habite no Kilamba gasta agora cerca de 500 kwanzas (€3,5) só de ida até à Baixa de Luanda. Antonica Sebastião, empregada doméstica em Talatona e moradora no Cacuaco, auferindo um ordenado de 45 mil kwanzas (€304), por falta de dinheiro para apanhar todos os dias o ‘candongueiro’, foi obrigada a deixar de trabalhar. “Nas circunstâncias atuais, há gente que vai ter de pagar para ir trabalhar...”, avisam os analistas.

O preço do gás também não escapou à turbulência do mercado e uma botija de 15 quilos, que custava em finais do ano 625 kwanzas (€4,3), está agora a ser comercializada por concessionários da Sonangol por 1200 kwanzas (€8,1). “No mercado paralelo, já pagamos 3000 kwanzas (€20,3) em alguns locais”, lamenta Madalena Armando, moradora no Bairro Palanca.
O preço do pão subiu para 40 kwanzas (€0,3) e os proprietários das padarias associam essa alteração ao brutal aumento do preço do gasóleo.

“Ao mesmo tempo que se tomam medidas que penalizam a maioria da população, gostaria de ver também o chefe do Executivo adotar medidas de contenção das despesas, como diminuição de viagens desnecessárias, de seminários e de workshops sem utilidade e redução de ministérios”, disse ao Expresso o agrónomo Fernando Pacheco.

Depois de terem feito troça da crise por que passaram os portugueses, os angolanos começam, agora, também a lamber as suas próprias feridas.

Com o cerco económico e financeiro a apertar por todos os lados, quem investiu no negócio imobiliário começa a ver os apartamentos fechados por falta de clientes. “Ninguém vai voltar a alimentar a especulação imobiliária”, adverte o economista Jeremias Salvador.

Muitos angolanos que vivem em Portugal à custa de casas arrendadas a preços elevados estão agora a pensar em regressar ao país por não poderem fazer transferências.

Em Luanda, os proprietários de viaturas de gama alta já não enchem, com a mesma facilidade do passado, os depósitos das suas viaturas. Pior do que isso é o panorama no meio rural, onde o aumento do gasóleo constituiu um rude golpe para quem recorria a geradores de baixo custo como única fonte de energia elétrica. E, no Dondo, província do Cuanza-Norte, os motociclistas já não conseguem abastecer as motorizadas com mais de 130 kwanzas (€0,9), o equivalente — como disse, ao Expresso, Mário Torres, concessionário de uma bomba de combustível naquela localidade — a menos de um 1 litro.