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Crise chinesa provoca rombo de 6% nas bolsas à escala mundial

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A primeira semana do novo ano registou duas derrocadas na bolsa de Xangai, um disparo no pânico financeiro superior a 30%, uma quebra de 10,5% no preço do Brent e um ganho de 4% no ouro

Jorge Nascimento Rodrigues

O novo ano entrou com duas derrocadas nas bolsas chinesas de Xangai e Shenzhen logo na segunda-feira e o caos repetiu-se depois na quinta-feira. As duas bolsas fecharam na sexta-feira com ganhos, mas as perdas acumuladas numa só semana somam quase 10% para o índice composto de Xangai e 14,3% para o índice similar de Shenzhen. O crash fez lembrar os episódios de julho e agosto do ano passado.

O problema estava adormecido e acordou, de novo. A bolsa chinesa sofre a ressaca de uma “bolha” financeira de doze meses entre junho de 2014 e junho de 2015. Nesse período, o índice de Xangai subiu 142%. O índice de Shenzhen disparou 205% entre maio de 2014 e junho de 2015.

Esta semana, pelo caminho, ficou um mecanismo automático de encerramento das bolsas chinesas quando o índice de referência CSI 300 (das trezentas principais cotadas nas duas cidades) ultrapassa a linha vermelha de uma queda de 7%. O novo mecanismo, estreado na segunda-feira, morreu ao quarto dia, pois nessa quinta-feira provocou uma situação insólita – a sessão durou menos de trinta minutos, pela primeira vez na história de 25 anos das novas bolsas chinesas surgidas das reformas de Deng Xiaoping. O jornal britânico “Financial Times” publicou um epitáfio e erigiu-lhe uma lápide fúnebre. O regulador chinês dos mercados financeiros perdeu a face e teve de recuar na quinta-feira à noite.

As duas bolsas chinesas posicionam-se hoje em dia no “clube” das cinco principais do mundo em capitalização bolsista em dólares, segundo a World Federation of Exchanges (WFE). Estão à frente da Euronext, do índice FTSE da London Stock Exchange e de Hong Kong. Deste modo, o contágio foi, de novo, brutal.

As bolsas mundiais perderam 6,16% nesta primeira semana de 2016, segundo o índice MSCI para todos os países. Na crise de agosto de 2015, em todo o mês, perderam 8,2% só nas bolsas afiliadas da WFE, o equivalente ao "desaparecimento" de 5,5 biliões de dólares. O impacto desta crise inicial de 2016 foi, por ora, inferior.

Geografia do contágio

Os dois espaços mais afetados pela derrocada bolsista chinesa desta semana foram a Europa, cujo índice MSCI respetivo perdeu 6,42%, e o grupo dos mercados emergentes, cujo índice MSCI caiu 6,81%.

Apesar do epicentro deste sismo financeiro ter estado na China, a região asiática perdeu perto de 6%, menos inclusive do que as bolsas de Nova Iorque que caíram 6,04%.

Em termos de bolsas por país, os índices das principais praças financeiras com quedas semanais superiores a 7%, foram, para além dos de Xangai e Shenzhen, o Tadawull da Arábia Saudita (recuo de 9,9%), o Dax alemão (-8,3%), o Nasdaq de Nova Iorque, da bolsa das tecnológicas (-7,3%), o MIB italiano (-7,2%), o AEX holandês (-7,02%) e o Nikkei 225 japonês (-7,02%).

Dada a importância de Wall Street como principal praça financeira do mundo, convém referir que, durante a semana, o índice Dow Jones 30 perdeu 6,2% e o S&P 500 caiu quase 6%.

Os índices de volatilidade bolsista dispararam mais de 30%. Eles sinalizam o pânico financeiro entre os investidores em bolsa. Tecnicamente são designados pelo acrónimo VIX.

O VIX relativo ao índice da zona euro Eurostoxx 50 fechou em 30,40 euros na sexta-feira, um disparo de 37% desde final do ano. Está, ainda, longe do máximo registado em agosto de 2015, com o VIX a disparar para 45,70 euros. O VIX relacionado com o índice norte-americano S&P 500 fechou em 27,01 dólares, longe do máximo de 53,29 de agosto do ano passado. O índice VXFXI, relacionado com a China, encerrou em 43,54 dólares, ainda distante dos 58,78 da crise no ano passado.

As cinco “inquietações”

China, queda do preço do petróleo, stresse nas economias emergentes, baixa inflação nas principais economias desenvolvidas (cuja política monetária afeta o mundo), e novos focos de tensão geopolítica marcaram a semana.

Um traço fundamental que não nos vai largar em 2016 é o problema do esvaziar da bolha nas bolsas chinesas - apesar das sucessivas intervenções de fundos estatais e das decisões do Banco Popular da China e do regulador do mercado financeiro - e o abrandamento da segunda maior economia do mundo para níveis de crescimento inferiores a 7%.

O preço do petróleo chegou a estar em mínimos de quase 12 anos durante a semana. Os preços fecharam na sexta-feira em 33,34 dólares para a variedade europeia Brent, de referência internacional, e em 32,89 dólares para a variedade norte-americana WTI. O preço do Brent caiu 10,6% desde o início do ano e o preço do WTI baixou 11,2% no mesmo período. O ciclo de queda do preço do petróleo parece não ter ainda terminado.

No conjunto das matérias-primas, a trajetória é, também, de declínio dos preços. O índice da Bloomberg caiu 2,33% desde o início do ano; o índice CRB perdeu 4,36% e o índice S&P GSCI recuou 5,5%. A matéria-prima cujo preço mais caiu desde o início do ano foi a gasolina reformulada; o preço desceu 11,33%.

O novo foco de tensão geopolítica, com a crise diplomática grave entre a Arábia Saudita e o Irão, reforça ainda mais a tendência de baixa de preços, pois dificulta qualquer acordo, a curto prazo, para uma redução do teto diário de produção pelo cartel da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em que os dois são membros destacados.

O impacto negativo desta componente da energia nos índices de preços das principais economias do mundo continua a preocupar os bancos centrais das economias desenvolvidas. Com a publicação na terça-feira pelo Eurostat da estimativa preliminar para dezembro da inflação na zona euro, a equipa de Mario Draghi, que está à frente do Banco Central Europeu (BCE), ficou com as orelhas a arder. A inflação anual não descolou de 0,2%, uma variação similar à do mês anterior. No caso da Alemanha, a principal economia da zona euro, a inflação anual desceu de 0,3% em novembro para 0,2% em dezembro, o que surpreendeu os analistas que esperavam 0,4% para o último mês do ano.

A próxima reunião do BCE realizar-se-á a 21 de janeiro. No caso da Reserva Federal norte-americana (Fed), a reunião do comité de política monetária está agendada para 27 de janeiro. A probabilidade da equipa de Janet Yellen na Fed optar, nessa próxima reunião, por uma nova subida das taxas de juro é muito baixa, de apenas 11%. Em virtude da divulgação das atas da reunião de dezembro revelar um clima de “inquietação” e de “incerteza” sobre o andamento da inflação e dos mercados de exportação dos EUA, a probabilidade de ocorrer um novo aumento das taxas de juro só é superior a 50% para a reunião da Fed de 27 de abril.

O stresse nas economias emergentes, particularmente nas exportadoras líquidas de matérias-primas, é evidente nos últimos trinta dias, fruto da trajetória dos preços das commodities e do impacto das decisões da Reserva Federal norte-americana em iniciar o processo de subida das taxas de juro na reunião de 15 e 16 de dezembro passado.

Nesse período mais largo, as maiores desvalorizações face ao dólar e ao euro registaram-se para o rand da África do Sul, o rublo russo, o real brasileiro e o peso mexicano. Em virtude das decisões do Banco Popular da China, o yuan desvalorizou, esta semana, 1,4% face ao dólar. Há quatro divisas de economias desenvolvidas que têm sofrido o impacto da atual crise de preços: o dólar canadiano face ao euro e ao dólar, o dólar australiano face ao euro, o won da Coreia do Sul face ao dólar e a libra esterlina face ao euro e ao dólar.

O dólar valorizou-se, esta semana, 0,27% face ao euro. Fruto da política do dólar forte, o euro desceu de 1,089 dólares no final do ano para 1,086 dólares no final desta semana. Não alcançou, ainda, a paridade (1 euro=1 dólar). Sintoma da procura de valores refúgio, o preço do ouro subiu 4,1%.

  • Os índices de pânico bolsista subiram significativamente na China e na Europa. Frankfurt, Estocolmo, Amesterdão, Milão e Tóquio foram as bolsas mais afetadas pelo contágio da derrocada chinesa. Em duas horas, à tarde, o preço do petróleo caiu de um máximo para um mínimo do dia. Derrocada chinesa custou 2% às bolsas mundiais

  • A negociação nas bolsas chinesas foi suspensa pela segunda vez esta semana. Até ao encerramento antecipado desta quinta-feira, Xangai perdia 7% e Shenzhen mais de 8%. Tóquio caiu mais de 2% e Hong Kong mais de 3%. Preço do Brent desceu para mínimos de quase doze anos