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O imbróglio do BPI em Angola

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Isabel dos Santos volta a surpreender e apresenta um plano B à proposta da gestão liderada Fernando Ulrich. Relações entre a investidora angolana e a gestão do BPI estão tensas

RUI DUARTE SILVA

Isabel dos Santos volta a encostar Fernando Ulrich contra a parede e obriga a gestão do BPI a colocar a sua proposta de compra de 10% do Banco de Fomento Angola (BFA) em cima da mesa. Projeto de cisão das operações do BPI em África em causa. Mercado reage positivamente à alternativa da empresária angola

O BPI tem de arranjar uma solução para o mercado africano e sobretudo para o angolano, onde tem uma posição maioritária de 50,5% no Banco de Fomento Angola (BFA). E não está fácil. A angolana Isabel dos Santos, segunda maior acionista do BPI, opõe-se à solução de cisão proposta pela gestão de Fernando Ulrich, e avançou este domingo com um plano B, a compra de 10% do BFA, por 140 milhões de euros.

Não é de agora o desacordo. Administração do BPI já sabia desde há semanas que Isabel dos Santos era contra, e a Unitel, empresa angolana que detém mais de 49,5% do Banco de Fomento Angola, já tinha feito saber em outubro que não daria consentimento à transmissão por cisão da participação do Banco BPI no BFA. No domingo a Unitel, empresa onde Isabel dos Santos detém 25% do capital, foi dura com a administração do BPI. As relações já estavam tensas e terão ficado mais. A Unitel disse que era contra a proposta de cisão dos ativos africanos do BPI de forma “final e definitiva”. O caldo está entornado.

Fernando Ulrich insistiu na cisão apesar de Isabel dos Santos estar contra. Restantes acionista apoiaram decisão da gestão do BPI

Fernando Ulrich insistiu na cisão apesar de Isabel dos Santos estar contra. Restantes acionista apoiaram decisão da gestão do BPI

FOTO NUNO BOTELHO

A questão voltou à ribalta depois do BPI ter anunciado a 28 de dezembro que iria avançar com uma Assembleia Geral de acionistas, dia 5 de fevereiro de 2016, para aprovar o processo de cisão das operações em África. Naquela altura já Isabel dos Santos havia dito estar contra.

No dia 3 de janeiro de 2016, a investidora torna mais firme a sua intenção, e avança com uma oferta por 10% do BFA. Desta forma a sua posição no banco angolano, onde já detém através da Unitel 25% do BFA, e o BPI perderia o controlo. A proposta da Unitel é válida até ao final de janeiro e pressupõe a sua conclusão até ao dia 10 de abril.

Os angolanos tornaram-se acionistas em dezembro de 2008, e fizeram um acordo parassocial que à luz desta proposta querem rever, já que ficariam com cerca 60% do capital. Sugerem mesmo, nesse âmbito, analisar com o BPI “a oportunidade de manutenção dos membros dos órgãos sociais até ao final do presente mandato”, que termina em dezembro de 2016.

Cisão foi resposta ao BCE

Angola é uma operação rentável para o BPI, e a gestão também não queria separar as águas, mas foi obrigada a arranjar uma solução por causa das alteração das regras europeias. Em causa está a imposição do Banco Central Europeu (BCE), que determina a contabilização da dívida pública angolana a 100% a partir de 2016, e não como anteriormente, que era até 20%. Face a esta nova situação, o BPI, que consolida a operação angolana, teria de aumentar em muito o capital ou vender parte posição (para ficar minoritário) ou separar a atividade. Optou pelo último cenário.

Resta saber se o Banco Central Europeu (BCE), que terá concordado com o processo de cisão, poderá no futuro considerar válida também a proposta avançada no domingo por Isabel dos Santos. Ou seja, a compra de 10% do BFA, ficando o BPI com uma posição minoritária, indo assim ao encontro da posição do Banco Central Europa. O BCE não quer para já comentar as soluções avançadas para o BPI-BFA.

O La Caixa, maior acionista do BPI com 44,1% do capital, não quer para já comentar a proposta alternativa de Isabel dos Santos. Mas, fonte oficial, sublinha que o banco espanhol votou favoravelmente a proposta de cisão apresentada pela administração do BPI, assim como outros acionistas o fizeram. Até ao fecho da edição do Expresso Diário desta segunda-feira não foi possível obter um comentário da administração do BPI.

Mercados aplaudem

As ações do BPI dispararam esta segunda-feira em bolsa, e fecharam com um ganho superior a 6%, num claro sinal de que os acionistas consideram a proposta da Unitel e de Isabel dos Santos interessante. O ganho do BPI tornou-se ainda mais expressivo porque esta segunda-feira na Bolsa de Lisboa, e nos mercados internacionais, foi de fortes quebras. As ações fecharam a 1,16 euros, o valor mais alto desde 1 de outubro.

Os investidores gostam da operação do BPI em Angola, o BFA é um banco bem gerido e tem sido rentável, por isso, agrada-lhes mais a proposta da Unitel que a cisão, admite um analista. Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB Portugal, alerta para uma questão que a oferta levanta: Será que manter 40,1% do BFA é suficiente para satisfazer os requisitos do BCE face à exposição do BPI a Angola?

Os analistas sublinham também o facto de o comunicado de domingo da Unitel ser hostil à administração liderada por Fernando Ulrich, colocando-a numa posição delicada.

[Texto publicado no Expresso Diário de 4 de janeiro de 2016]

FOTO RUI DUARTE SILVA

Isabel dos Santos é decisiva

Face ao futuro, Isabel dos Santos, detentora de 18,6%, tem a faca e o queijo na mão. Os estatutos do BPI têm os direitos de voto bloqueados a 20% do capital e por isso, embora o espanhol La Caixa seja o maior acionista, Isabel dos Santos é quem tem ditado as regras do banco. Inviabilizou que se desbloqueassem os estatutos quando o La Caixa lançou uma OPA sobre o BPI e propôs informalmente uma fusão entre o BPI e o BCP. O BCP manifestou o seu agrado, mas administração do BPI nunca olhou para a proposta, o La Caixa não tomou posição e Isabel dos Santos nunca a formalizou.