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Governo chamado a salvar cinema Odéon

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O edifício com 88 anos encerrou há duas décadas e está neste momento à venda

MARIO JOAO

Património arquitetónico em risco de se perder

Marisa Antunes

Jornalista

Foi uma das maiores salas de cinema do país (uma das preferidas de Salazar), palco das estreias dos grandes clássicos portugueses como o “Pátio das Cantigas” ou o “Leão da Estrela” e local escolhido pelas estrelas da época como Madalena Iglésias ou António Calvário para as suas atuações. Inaugurado em 1927, o cinema Odéon, com 5 mil metros quadrados e situado numa das zonas mais nobres de Lisboa (tendo por vizinhos o Condes, atual Hard Rock Café, e o Ateneu de Lisboa, nas Portas de Santo Antão) foi durante décadas um espaço de cultura e glamour, ainda que tenha terminado os seus dias a passar filmes pornográficos. Está há 20 anos encerrado, num penoso processo de degradação que corre o risco de ser irreversível.

Para alertar e sensibilizar o novo ministro da Cultura para essa indiferença que tem vindo a perpetuar-se há anos, o movimento cívico Forum Cidadania Lx fez-lhe chegar esta semana uma carta lembrando-lhe a “grande importância que o edifício tem para a cidade de Lisboa e para o país, sendo por isso incompreensível e inaceitável o estado de abandono e de futuro incerto em que permanece”.

Paulo Ferrero, fundador do Forum Cidadania Lx, lembra que este “edifício sui generis foi o primeiro a utilizar o betão e também o primeiro a usar a arquitetura com ferro”. No seu interior, cada vez mais degradado, resiste ainda o maciço teto em madeira “pau-brasil”, único no mundo, o palco com frontão art deco e uma série de camarotes (onde Salazar tinha lugar cativo). “Entretanto, o enorme lustre da sala, mandado fazer na Alemanha, foi vandalizado para se retirar o cobre, as cadeiras foram vendidas e os letreiros que diziam ‘Odéon’ foram também retirados”, descreve Paulo Ferrero.

Expropriar para preservar

Considerado o “cinema com mais história de Lisboa e a única sala de espectáculos da capital com alusões ao período de art deco”, segundo a Wikipedia, o Odéon chegou a ser avaliado pelo IGESPAR entre 2004 e 2009 (um processo desencadeado por Paulo Ferrero), para conseguir o estatuto de Imóvel de Interesse Público. Mas o processo acabaria arquivado de forma dúbia, diz o responsável, “sem que se tivessem alterado objetivamente as qualidades que serviram de fundamento à abertura do processo”.

O imóvel edificado pelo construtor Guilherme A. Soares, pertence atualmente à Sociedade Parisiana (cujo registo telefónico não foi possível apurar e que terá mais de 60 sócios), que colocou o imóvel à venda na Sotheby’s por um valor sob consulta e apenas acessível a potenciais investidores. Aliás, o imóvel está à venda há já vários anos e chegou inclusive a ter um projeto para a construção de um centro comercial, com manutenção apenas da fachada.

Este projeto, diz o responsável do movimento cívico, chegou a ter um Pedido de Informação Prévia (PIP) da câmara municipal de Lisboa em 2011, mas “o PIP terá já caducado”.

Recorde-se ainda que em março de 2014, uma petição com 11 mil assinaturas do Forum Cidadania Lx para a preservação do edifício chegou a ser discutida em plenário mas acabaria arquivada.

Mas o movimento cívico não desiste e fez agora uma nova tentativa junto de João Soares. “O Estado deve intervir naquilo que tem valor e este é um dos casos em que se justificam uma expropriação alegando precisamente esse valor. Apelamos ao ministro João Soares — que já antes, como presidente da câmara de Lisboa, salvou o cinema São Jorge — que salve também o Odéon”, reforçou ainda Paulo Ferrero.