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Não há só uma divergência monetária entre os Estados Unidos e a Zona Euro

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O analista Marc Chandler, de Wall Street, diz que há uma divergência geopolítica crescente entre os dois lados do Atlântico Norte em relação à Rússia e à China e que isso trará importantes impactos económicos em 2016

Jorge Nascimento Rodrigues

“As trajetórias de política monetária entre a Reserva Federal (Fed) e o Banco Central Europeu (BCE) estão a divergir. É a pedra angular da antecipação de um euro mais fraco no próximo ano. Mas, para além desta divergência de que todos falam, é uma outra, de âmbito geopolítico, que terá uma importância crescente”, refere o analista norte-americano Marc Chandler, responsável pela estratégia nos mercados globais cambiais da Brown Brothers Harriman em Wall Street.

“No coração dessa divergência geopolítica estão perceções assimétricas de ameaças” globais face a dois BRIC, a Rússia e a China. “De um modo simples e cru, os Estados Unidos entendem que advém uma ameaça muito maior das ações da Rússia do que muitos na Europa julgam”, diz Chandler numa nota de fim de ano aos clientes, onde acrescenta o segundo pilar da divergência entre os dois lados do Atlântico Norte: “Os EUA também acham que uma economia dirigida pelo Estado dá à China vantagens injustas que têm de ser bem verificadas”.

A agenda desta divergência geopolítica estende-se ao longo do primeiro semestre do próximo ano. A par de marcos importantes no plano da política monetária, como a reunião do BCE a 10 de março, aquando do primeiro aniversário do lançamento do programa de compra de dívida pública no mercado secundário da zona euro, e a reunião do comité de política monetária da Fed seis dias depois (registando-se uma probabilidade de 60% de que a equipa de Janet Yellen opte por uma segunda subida das taxas de juro), o fosso poderá ampliar-se com as divergências em torno das sanções à Rússia e da atribuição do estatuto de “economia de mercado” à China.

Sanções à Rússia depois de julho

A União Europeia (UE) estendeu as sanções à Rússia até julho, mas “provavelmente o debate deverá ser reaberto no segundo trimestre de 2016”. Os alvos das sanções à Rússia são os bancos, as empresas de energia, o mercado de armas, as transferências de tecnologia e o acesso ao crédito internacional. “Um certo número de países da UE pretende reatar com a Rússia”, refere Chandler, sobretudo depois da alteração da situação na guerra da Síria e ao Estado Islâmico com o envolvimento direto russo.

Quanto à China, a maioria dos europeus está inclinada para que seja concedido pela Organização de Comércio Internacional (OCI) o estatuto de “economia de mercado” à segunda maior economia do mundo. A Comissão Europeia poderá fazer essa recomendação já em fevereiro, a que se seguirá, depois, um processo de aprovação pelos 28 membros e pelo Parlamento Europeu.

Depois de ter conseguido a integração da divisa chinesa no cabaz de moedas que baseia a unidade de conta do Fundo Monetário Internacional a partir de 1 de outubro de 2016, a obtenção daquele estatuto pela OCI é um segundo objetivo geoestratégico de Pequim.

Estatuto de economia de mercado para a China

A designação de “economia de mercado” tornará muito mais difícil aos EUA e à Europa acusar as empresas chinesas de dumping, havendo um conjunto de sectores europeus mais vulneráveis a “um dilúvio de produtos chineses”, refere Chandler.

O Reino Unido é o mais ativo proponente da atribuição daquele estatuto à China. Foi também o primeiro país europeu a integrar o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (conhecido pela sigla AIIB em inglês), face a objeções claras dos EUA. A City londrina pretende ser uma plataforma global financeira de capitais chineses.

Outras importantes economias europeias pretendem assegurar investimento chinês no plano de infraestruturas da Comissão Europeia e muitos outros países esperam aproveitar janelas de oportunidade comerciais na transição da economia chinesa para uma economia de consumo e de inovação.