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As 50 sombras do BES

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Exclusivo: conheça os 50 maiores clientes do BES antes do escândalo. Muitos deles nunca pagariam as suas dívidas. Novo Banco continua a ter prejuízos por causa desses créditos antigos que não são pagos

Elsa Araújo Rodrigues

Texto

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

Foi uma lista decisiva para a descoberta do escândalo no Grupo Espírito Santo, mas permaneceu em segredo mesmo para os deputados da comissão parlamentar de inquérito, que não tiveram acesso a nomes por causa do sigilo bancário. Mas é deste relatório, revelado pela primeira vez pelo Expresso, que depende, também, o valor final do Novo Banco: a lista dos 50 maiores clientes empresariais do Banco Espírito Santo, encomendada pelo Banco de Portugal em 2013.

A análise agrega os 50 maiores devedores do BES à data de 31 de dezembro de 2012, isto é, antes de rebentar o escândalo no Grupo Espírito Santo. Ora, o Novo Banco continua a acumular prejuízos, resultantes de perdas com créditos empresariais.

No total, estes 50 maiores devedores do BES somam um valor superior a €10 mil milhões. Note-se, no entanto, que esta lista de devedores empresarias foi concebida em função da exposição total do BES a cada cliente, o que em vários casos é superior à dívida reembolsável. É o caso típico das construtoras: grande parte destes valores inclui não só dívida mas também garantias bancárias, muitas vezes exigidas em obras. Nas garantias bancárias, o banco não está a conceder um crédito, apenas a assumir o risco de pagar a uma determinada contraparte em caso de incumprimento da empresa.

O relatório que o Expresso revela corresponde ao ETRICC — Exercício Transversal de Revisão das Imparidades das Carteiras de Crédito, que o Banco de Portugal encomendou para os bancos portugueses no período de vigência da troika.

O exercício compilou os 50 maiores clientes de cada banco. Mais tarde, o supervisor cruzaria os relatórios para apurar os clientes com risco sistémico, aqueles que caso entrassem em incumprimento provocariam perdas nos bancos, ao ponto de pôr em causa os rácios de capital. Deste segundo relatório, o ETRICC 2, resultaria uma lista com 12 clientes. Entre eles estava o Grupo Espírito Santo. Foi a partir deste processo que o Banco de Portugal detetou o ‘buraco’ no GES depois do verão de 2013, que levaria ao seu colapso em 2014. Quando os deputados pediram este ETRICC 1, na comissão parlamentar de inquérito, o Banco de Portugal enviou a lista de devedores sem a identificação dos seus nomes.

A lista dos 50 maiores clientes visível na infografia está dividida por grupos e tipos de devedores. Essa classificação foi feita pelo Expresso

Empresas relacionadas com o Grupo Espírito Santo

Ricardo Salgado sempre disse que a exposição do BES ao GES era relativamente baixa, o que se confirma em termos de crédito concedido. Antes do rebentamento do escândalo, a Espírito Santo International (a holding que tombaria, derrubando como um dominó tudo o resto) nem sequer está na lista de maiores devedores do Banco de Portugal. De lá para cá, estes ativos do grupo que entretanto implodiu foram mudando de mãos, da venda da Espírito Santo Saúde à participação na PT, que era o grande ativo estratégico do GES, em parceria com acionistas brasileiros como a Andrade Gutiérrez, dono da Zagope, construtora que também era cliente do BES.

Grandes empresas

A relação do BES com grandes empresas sempre foi histórica. E isso era válido tanto em empresas do sector energético como nas telecomunicações.

Luís Filipe Vieira

A ligação de Luís Filipe Vieira ao Banco Espírito Santo era forte e conhecida. E isso acontecia com diversas empresas de construção e imobiliário a que estava ligado. Além disso, o próprio Benfica, de que Vieira é presidente, tinha relações de crédito fortes com o BES. No final de 2012, a dívida bancária junto do BES era de pouco mais de cem milhões, valor que subiria no ano seguinte para quase 150 milhões, estando agora o Novo Banco a exigir uma redução dessa exposição.

Outras empresas

Há diversas empresas grandes clientes de crédito do BES que não são notícia habitual mas demonstram a relação forte com diversos empresários, como, na Madeira, a Avelino Farinha & Agrela (AFA) ou a Heliportugal (ligada a Pedro Silveira).

Grupos familiares

A relação creditícia do Banco Espírito Santo com grupos económicos familiares sempre foi forte. Alguns desses grupos, aliás, eram acionistas do próprio Grupo Espírito Santo, tendo perdido dinheiro com o colapso do GES. Neste grupo, o maior credor era o Grupo José de Mello (incluindo a Brisa), a quem Ricardo Salgado acudiu quando a banca estrangeira deixou de o apoiar. O grupo José de Mello tem vindo a vender empresas para reduzir esta dívida. Assim foi também com a Fundação José Berardo. A SGC (de João Pereira Coutinho), a Logoplaste (de Filipe de Botton), a Sonae (de Belmiro de Azevedo) ou a Sumolis (família Eusébio) eram também clientes.

Mota-Engil

A Mota-Engil é a empresa a que o BES tem maior exposição, com um total de 760 milhões de euros. Este valor, no entanto, incluía garantias bancárias no valor de 245 milhões, o que não constitui dívida reembolsável. Entretanto estes valores reduziram-se substancialmente: no final de 2014 a dívida reembolsável ao Novo Banco era de 250 milhões. A empresa controla ainda a Martifer, que está ligada à IM SGPS. BES e Mota eram sócios na Ascendi.

Emídio Catum

O empresário ligado à construção tem uma presença discreta mas negócios ativos. Já quando o BPN colapsou o empresário estava na lista dos devedores. Na altura, a sua empresa entrou em insolvência e a dívida não foi paga.

Construtoras

O sector da construção era aquele a que o BES tinha, na sua carteira de crédito empresarial, maior exposição. Aliás, além das empresas identificadas neste grupo há ainda empresas como a Mota-Engil, que está isolada supra. Entre estas empresas inclui-se o empresário José Guilherme, que ficou célebre por ter dado 14 milhões de euros a Ricardo Salgado. Refira-se que parte deste dinheiro que é identificado como exposição do BES a estas empresas não é crédito, mas sim cartas de garantia para determinadas obras ou projetos.

Hotéis

O turismo e hotelaria eram sectores com peso relevante na carteira de crédito do BES. Parte deste dinheiro foi entretanto perdido. O grupo de Carlos Saraiva teve a reestruturação mais estrondosa.

Imobiliário

A exposição do BES ao sector imobiliário era elevada, quer através do financiamento a fundos quer através de empresas de construção, turismo e hotelaria. É o caso da GEF, de Vasco Pereira Coutinho, amigo de Salgado.

Estado Português

Nota: este texto foi publicado originalmente na edição de 11 de julho do semanário Expresso. A lista dos 50 maiores devedores pode não ser visível em alguns telemóveis.