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Esta banca que vos deixo

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Cristiano Salgado

Sistema financeiro português continua a enfrentar problemas de rentabilidade, imparidades e malparado. Reestruturação está longe de concluída. Futuro passa por menos emprego e menos balcões

O estado da banca portuguesa é um enorme e feio elefante no meio da sala. Sete anos depois do início da crise financeira um banqueiro genuinamente confiante continua a ser um 'animal raro'. Quase tão difícil de encontrar como um banco capaz de gerar lucros. Claro que há exceções, mas para a maioria dos bancos a palavra prejuízos passou a ser a que melhor lhes assenta.

Para chegar aqui tiveram de ser cometidos erros de gestão e estratégia anos atrás. A atividade de um banco descrita da maneira mais simples possível: receber dinheiro e devolvê-lo à economia sob a forma de empréstimo. É na diferença entre os juros pagos e os recebidos que está o seu lucro. Quando os empréstimos concedidos deixam de pagar juros e nem o capital é devolvido, então começam os grandes problemas.

Durante anos a banca portuguesa cometeu quatro erros capitais. (1) Expuseram-se demasiado ao risco. De forma sistemática houve uma subestimação dos riscos de crédito. Uma excessiva concentração em sectores como a construção e o retalho, além de modelos de avaliação irrealistas. Em 2007, o valor dos empréstimos que estava em incumprimento atingiu um pico de quase 20%. Seguindo a mesma linha (2) cobravam prémios de riscos demasiado baixos. A tentativa de ganho de quota de mercado levou a uma guerra de preços. Mesmo assim parecia haver mercado para todos e poucos receios em relação ao futuro. Entre 2000 e 2007, os sete maiores bancos em Portugal lucraram 16.569 milhões de euros. 37,5% deste valor (6151 milhões de euros) foi distribuído em dividendos. Mesmo depois de a crise rebentar a percentagem distribuída caiu só para 35,2% (entre 2008 e 2010). (3) Em vez de apostar mais numa política de criação de provisões, a gestão preferiu remunerar os acionistas. (4) E para finalizar o problema criaram macroestruturas desajustadas da realidade. “Tentaram tornar a sala tão grande para ver se não se via o elefante”, afirmou um banqueiro.

O resto é história. E negra. A sala tornou-se demasiado pequena para um elefante enorme. A travagem a fundo obrigou a desalavancagem do sector, imposta pelas autoridades bancárias, e criou uma carência de crédito na economia. Além disso, obrigou os bancos a reduzir a sua estrutura de forma dolorosa. Redução que terá de continuar. Já não chega tirar o elefante da sala. Vai ser preciso redimensionar toda a casa, para uma mais modesta. Com menos ativos, menos trabalhadores e menos balcões. E, como se tudo isto não chegasse, os bancos foram obrigados nesta altura a reforçar os seus rácios de solvabilidade de forma expressiva. Mais ou menos como obrigar uma pessoa obesa a deixar de comer de todo e ao mesmo tempo treinar para ir correr uma maratona.

E agora?

No final de 2015 ainda há muitos problemas no sector para resolver. Os mais urgentes: venda do Banif, alienação do Novo Banco, recapitalização da Caixa Geral de Depósitos. Problemas que Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque não resolveram e que acabaram por cair no colo de António Costa e Mário Centeno.

E com perdas para os contribuintes, possibilidade que Mário Centeno começou por rejeitar. No início de dezembro, o ministro das Finanças afirmou no Parlamento que queria proteger “sem limites o que é o interesse dos contribuintes e do Estado”. Contudo, esta semana, o primeiro-ministro chamou a si o dossiê Banif, face ao agravar da situação. António Costa garantiu a proteção de todos os depósitos, independentemente do seu montante. Mas reconheceu que “a garantia que possa dar aos contribuintes não é a mesma que possa dar aos depositantes”. O objetivo do Governo é vender rapidamente a sua posição no capital do banco, mesmo que seja necessário assumir perdas.

Portugal quer evitar ser de novo cobaia de uma medida de resolução. Em janeiro de 2016, daqui a duas semanas, entram em vigor as novas regras de resolução bancária na Europa, que obrigam ao bail-in nos resgates a bancos em dificuldades. Ou seja, chama acionistas e credores dos bancos — inclusive depositantes acima dos €100 mil — a pagar parte das perdas, antes da entrada de fundos públicos. Só no Banif, o Estado português ainda tem €825 milhões, dos quais €125 milhões de obrigações contingentes (CoCos) ainda por pagar e €700 milhões de injeção direta no capital. Agora, vive-se uma corrida contra o tempo para encontrar um investidor estratégico.

Isto depois de o Fundo de Resolução ter injetado €4,9 mil milhões de euros no Novo Banco a maioria dos quais eram fundos públicos. A venda deverá ser feita por valores muito inferiores e as perdas terão de ser encaixadas pelos restantes bancos do sistema. A não ser que seja encontrada outra solução. Mas a lista de dívidas ao estado é mais extensa. Na CGD estão também €900 milhões de CoCos por pagar, e no BCP €750 milhões dos €3 mil milhões que pediu.

O Estado e o Banco de Portugal estão agora numa corrida contra o tempo para vender Banif e Novo Banco. Algo que era “desnecessário”, diz uma fonte da banca. “Poder-se-ia ter gerido estes casos e eventualmente outros que possam surgir de forma mais célere”. Tal como se fez noutros países. Onde o elefante até era bem maior.