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Novo Banco perdoa €88 milhões à Prebuild

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O conglomerado de João Gama Leão ganha uma segunda vida

Nuno Botelho

Com a dívida reduzida a €150 milhões, o grupo abre um novo ciclo

Um desconto de 40% na dívida, ou seja, um perdão de €88 milhões. Foi este o acordo entre o Novo Banco (NB) e a Prebuild, no âmbito dos processos especiais de revitalização (PER) da Goldenpar, a holding financeira e da Tglobal Supply (trading), que serve de referência para os restantes credores. No acumulado, os créditos reclamados nas duas empresas, somam €250 milhões, cabendo ao NB perto de €220 milhões. O Montepio também surge na lista e vai cortar 40% dos €8 milhões da sua carteira de crédito.

Com esta negociação, o conglomerado de João Gama Leão ganha um segundo fôlego, depois de um ano sob uma tempestade perfeita com epicentro na implosão do Grupo Espírito Santo. É “uma batalha que se ganha, permitindo ganhar fôlego para um novo ciclo”, refere uma fonte do grupo. Resolvida a dívida, a Prebuild “aprofundará a reorganização empresarial, consolidando a fileira fabril em Portugal e reforçando nos mercados externos em que opera”. Em Angola, o grupo de Gama Leão já ajustara a operação à nova realidade do país.

A dívida bancária de €150 milhões será paga em 20 anos, com dois de carência, e a uma“taxa de juro muito favorável”, inferior a 1%. Os fornecedores, que surgem neste processo por terem dívida avalizada pela holding, recebem em 15 anos, sem juros. O Estado não concede perdão e recebe em 150 prestações.

O PER segue agora para homologação, e só depois o valor dos créditos aferidos. No caso do NB, surgirá uma divergência (da ordem dos €10 milhões) que resulta da divisão do ex-BES. Na altura, o grupo contava com €100 milhões de cartas de crédito do BESA que suportavam vendas para Angola e cobriam financiamentos em Portugal. Como o BESA transitou para o universo do banco mau, a execução dessas garantias transformou-se em dívida ao NB.

Contactado pelo Expresso, o NB não se pronunciou sobre o processo Prebuild, nem se as imparidades registadas pelo banco no primeiro semestre (€150 milhões) já incorporavam este corte na dívida.

Acidentes de percurso

Quando, em 2010, encetou uma cruzada de diversificação, João Gama Leão optou por indústrias exportadoras da fileira da construção (cerâmicas, alumínios ou mobiliário) com potencial e capacidade técnica, mas em sufoco financeiro. O empresário concluíra que a indústria portuguesa conjugava “uma tecnologia de nível europeu a preços mais atraentes”, que lhe permitia abastecer a frente de construção em Angola e ganhar músculo para vingar em todo o mundo. A partir da base portuguesa, avançou para operações diretas na Argélia e Colômbia.

Era preciso que tudo corresse bem para o plano dar certo. Para financiar as aquisições, recapitalização e investimentos em empresas (mais de 10) como a Levira, Kind, Goldcer ou Porama recorreu ao sistema bancário, beneficiando da cumplicidade com a família Espírito Santo. Gama Leão tornou-se um dos lesados do BES, por ter aplicado mais de €20 milhões na Espírito Santo International. Gama Leão era íntimo de alguns membros da família (não de Ricardo Salgado) a quem chegou a ceder o jato que alugava para uma viagem a Itália. O BES foi seu interlocutor em várias transações, a mais emblemática de todas foi a do grupo cerâmico Aleluia.

O primeiro revés da Prebuild verificou-se na rede de lojas de bricolage Izibuild. O plano fazia sentido como braço comercial do conglomerado fabril mas a aposta revelou-se desastrosa. Em junho, os credores chumbaram o plano de recuperação e a cadeia de bricolage seguiu para a falência com dívidas de €80 milhões.

A dependência do mercado de construção de Angola, as desavenças na Colômbia com o seu parceiro Santo Domingo e vários acidentes de percurso forçaram o grupo a mudar de rumo e concentrar energias na sua sobrevivência. A Porama, um fabricante de portas e roupeiros, ficou sem encomendas por causa do mercado angolano. Encontra-se no circuito dos PER (dívidas de €4 milhões), mas o seu destino está encontrado. A base de Sintra será incorporada na Levira. Fora a pensar no mercado angolano que a Porama evoluíra para o fabrico de roupeiros topo de gama, com modelos em que as gavetas eram acionadas por comando eletrónico.

Nos acidentes de percurso, registe-se ainda o cancelamento da encomenda da Decathlon de 1,5 milhões de bicicletas à Prebuild Sport (a unidade investira €12 milhões) que garantia a produção até 2018 e o falhanço da empreitada de 20 mil casas na Argélia, no âmbito de uma ofensiva de diplomacia económica que não correu pelo melhor.