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Desempregados viram-se para a informática

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Gonçalo Quadros defende políticas públicas que apoiem tecnologia portuguesa

Mike Sergeant

Critical Software reconverte 70 licenciados para combater escassez de informáticos

João Ramos

João Ramos

Jornalista

A Critical Software já reconverteu 70 licenciados desempregados à área do software no âmbito da iniciativa Acertar o Rumo que a tecnológica criou em parceria com a Universidade de Coimbra. Perante os bons resultados alcançados, Gonçalo Quadros, presidente-executivo da empresa, revela que o projeto vai ser alargado a um maior número de pessoas com potencial para ter uma carreira na área de tecnologia, faltando apenas determinar o número de vagas no terceiro ciclo que vai arrancar em 2016.

“Há uma escassez enorme de recursos humanos qualificados a nível mundial, sobretudo na área das tecnologias de informação que pode travar o crescimento de um dos sectores mais dinâmicos da economia portuguesa”, refere Gonçalo Quadros, mostrando-se orgulhoso com os resultados alcançados. “Resolvemos um problema de negócio e proporcionamos a dezenas de pessoas uma carreira interessante”, sublinha.

Outra iniciativa que a tecnológica tem em curso na área da requalificação dos recursos humanos é a iT Grow, em parceria com o BPI. “É um acelerador de talento que já qualificou em áreas tecnológicas algumas centenas de pessoas para a Critical e para o BPI”, esclarece Gonçalo Quadros.

Startups e multinacionais disputam talento

A pressão na procura de recursos humanos qualificados na área de tecnologia em Portugal está relacionada, segundo o fundador da Critical, com a instalação em Portugal de centros de competência de multinacionais e com o aparecimento de um número significativo de startups inovadoras. Gonçalo Quadros receia que um fenómeno ponha em causa o outro.

“As empresas que instalam centros de engenharia recrutam bem e rapidamente secam as competências que são precisam para as outras empresas”, denuncia. Admite que as multinacionais podem trazer emprego qualificado, mas considera que pode “ser mais importante que as startups cresçam em Portugal porque produzem propriedade intelectual no país”. Por isso, defende que é preciso ter uma estratégia que estimule o equilíbrio ente os dois modelos. Recomenda que os políticos definam o que queremos ser: especialista em centros de engenharia de grandes empresas ou um país muito vibrante em startups tecnológicas.

Provavelmente devem existir os dois, mas não se deve é deixar que um esmague o outro. É preciso que não desapareçam as ideias, a vontade e a estamina das pessoas que são mais novas e que vão para o terreno lançar os seus projetos”, defende Gonçalo Quadros. Perante o problema demográfico do país, o gestor defende que as universidades deveriam atrair mais estudantes estrangeiros, por exemplo, brasileiros. A Universidade de Coimbra, nota, tem vindo a ter sucesso na atração de estudantes brasileiros.

Criada em 1998, a Critical Software ganhou grande notoriedade quando foi contratada pela NASA para fornecer o XCEPTION (sistema de deteção de falhas) que tinha sido desenvolvida pelos três fundadores na Universidade de Coimbra. “Foi isso que nos deu convicção de que a Critical era um projeto com valor e que nos manteve sempre ligados à universidade”, recorda. Desde então, a empresa especializou-se na área de serviços tecnológicos e criou modelos híbridos, autonomizando o negócio de produtos que dão origem a spinoffs (ver caixa). “Os gestores têm autonomia de gestão e a entrada de outros acionistas pode acontecer”, refere Gonçalo Quadros.

Para que haja uma indústria sólida de base tecnológica em Portugal, este responsável defende que, além da ligação com as universidades, é importante “uma ligação às Forças Armadas que estão cada vez mais dependentes de tecnologia”.

Firmámos vários acordos com a Marinha, o Exército e a Força Aérea”, refere. Dá como exemplo o sistema de vigilância marítima Oversee que foi desenvolvido em parceria com a Marinha portuguesa e que foi recentemente adotado pela Guarda Costeira irlandesa. “Para que haja exportação de tecnologia portuguesa, é preciso que o Estado e as grandes empresas encomendem projetos inovadores às tecnológicas nacionais. Para isso, é preciso que haja visão e estratégia nas políticas públicas de compras”, defende Gonçalo Quadros.