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Os sapatos também podem ser vegan

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Alejandro Pérez fundou a NAE com a mulher, Paula

Alberto Frias

Marca portuguesa No Animal Exploitation (NAE) abre primeira loja em nome próprio em Lisboa

Os sapatos que Alejandro Pérez calça parecem de pele, mas não são. O empresário tem o veganismo como filosofia de vida — que partilha com a mulher, Paula, e com as duas filhas — e não andaria com calçado feito à base de pele ou de qualquer outro material que atentasse contra a vida de animais. Há menos de uma década, encontrar sapatos que lhe satisfizessem as medidas das suas preocupações éticas era uma odisseia para este espanhol que vive há duas décadas em Portugal. Contudo, hoje já dispõe de uma oferta razoável, muito à conta da marca de calçado vegan que lançou, em 2008, com a mulher, a NAE (No Animals Exploitation) e que, depois de se ter implantado nos mercados externos, inaugura este sábado o primeiro espaço em nome próprio em Portugal, na Lx Factory, em Lisboa.

Fabricados em quatro fábricas portuguesas, os sapatos NAE utilizam materiais alternativos ao couro e com impacto reduzido no ambiente, como as microfibras, a borracha natural, o pneu reciclado ou a cortiça. “Na próxima coleção, para o verão, vamos apresentar modelos feitos à base de politereftalato de etileno (PET), proveniente de embalagens de plástico recicladas”, conta o empresário de 42 anos. A coleção seguinte, de inverno, apresentará o Piñatex, material têxtil inovador produzido a partir das fibras das folhas de ananás.

“Trabalhamos com o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, em São João da Madeira, para testarmos estes materiais no nosso calçado. Temos de garantir que, além de vegan e ecológicos, têm as características necessárias de durabilidade, impermeabilidade e conforto”, explica Alejandro Pérez. Encontrar, no início da NAE, fábricas nacionais dispostas a inovar e a fazer diferente foi “complicado. Achavam que nós éramos os ‘maluquinhos’ do plástico”, conta.

Preocupada com a sua pegada ecológica, a NAE procura que os materiais sejam locais — “daí a aposta na cortiça” — mas as microfibras têm de ser compradas a Itália e a Espanha. “Tentamos pôr a etiqueta made in Portugal onde podemos, é muito apreciada e um fator determinante para a venda lá fora”, acrescenta.

Marca internacional

Matemáticos de formação, Alejandro e Paula, casal lusoespanhol, além da filosofia vegan, alimentavam também a vontade de ter um negócio próprio. Nascida no ano em que a crise mundial assolou os mercados e reduziu brutalmente o consumo, a NAE conseguiu fazer vingar o seu conceito. Hoje, 85% das vendas são feitas no exterior. “No início, vendíamos apenas online. Mas começámos a receber muitas chamadas de lojas de moda internacionais a pedir para vender o nosso calçado. Nunca tivemos de fazer qualquer esforço de vendas e já estamos em mais de 50 lojas em todo o mundo”, contabiliza o empresário. A Europa, sobretudo Alemanha e Áustria, é o grande cliente, mas a NAE também já está presente em três lojas nos Estados Unidos (Nova Iorque, Chicago e Los Angeles), outras duas na Austrália e uma na África do Sul.

O mercado doméstico tem crescido para NAE, nos últimos anos, com a maior consciencialização dos consumidores relativamente aos impactos ambientais das suas escolhas. “Há países muito mais avançados nesse aspeto, como a Alemanha, que é o nosso maior mercado. Mas essa tendência está a avançar em todo o mundo. Quando eu e a Paula fomos a uma feira de calçado em Itália, ainda numa fase de pesquisa e à procura de materiais ecológicos, nove de dez pavilhões da exposição eram dedicados ao couro. Hoje, a proporção é de sete para três”, indica.

As vendas da NAE em Portugal são sobretudo feitas através da internet, estando a marca presente em algumas lojas, em Lisboa, Cascais, Coimbra ou na Madeira. “Já vinha sendo altura de termos o nosso próprio espaço, em Portugal. Queríamos que fosse na Lx Factory, pois é um espaço de que gostamos e que diz muito ao tipo de cliente, informado, que a nossa marca tem. Esperámos algum tempo até conseguirmos este espaço, daí ter demorado algum tempo. Foi concebido como um showroom, para mostrar as coleções, mas recebemos tantos contactos de clientes que decidimos transformá-lo numa loja aberta ao público”, afirma.

Os preços da NAE variam entre os €50 (para os modelos mais simples, como sandálias) e os €150. No final deste ano, as receitas deverão atingir €250 mil euros, mas o objetivo é atingir €1 milhão já em 2017, através de um forte enfoque na internacionalização. “Até agora exportávamos porque nos pediam. Mas este ano demos início a uma estratégia estruturada de exportação, com parcerias com distribuidores em mercados de grande potencial como os Estados Unidos e a Austrália. No início do próximo ano, vamos ter um parceiro na Suécia, a ajudar-nos a conquistar a Escandinávia”, desvenda Alejandro Pérez.

A presença em feiras internacionais é agora constante: este ano, a NAE esteve em Las Vegas e em Itália, no início do ano vai estar em Berlim, no Ethical Fashion Show, a pedido da própria organização. Fazendo as contas “por alto”, o empresário afirma que o investimento feito na NAE, até agora, ronda “entre os €75 mil e €100 mil”. Quase todos capitais próprios. Recentemente, a empresa recorreu à linha de crédito Crescimento PME e aos fundos comunitários Portugal 2020 para entrar na nova etapa de crescimento e de internacionalização. Para que o seu slogan vingue: na NAE, a moda tem compaixão (Fashion with Compassion).