Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Falta de dinheiro reduz consultorias portuguesas em Angola

  • 333

Consultores portugueses à saída da sede da Sonangol, em Luanda

Quintiliano dos Santos

Deputados exigem que presidente angolano José Eduardo dos Santos estanque negócio milionário

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Os deputados angolanos recomendaram ao Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, que “reveja o excessivo recurso à assessoria e consultoria estrangeira” cujos custos, entre 2013 e 2014, ascenderam a 3 mil milhões de dólares.
Com esta medida, poderá vir a ser duramente afetado o emprego de milhares de consultores portugueses, presentes em quase todas as áreas de atividade económica em Angola.

Em 2015, o Estado, segundo dados do orçamento, despendeu 227 milhões de dólares com serviços de estudo, fiscalização e consultoria com várias empresas, entre as quais algumas que funcionam a partir de Portugal como a Deloitte, a KPMG, a Backtill ou a Howard.

Para alguns analistas, apostar na consultoria israelita no megaprojeto agrícola da Quiminha, depois do fracasso da experiência do projeto Aldeia Nova com especialistas da mesma nacionalidade, “significa não querer aprender com o passado”, segundo o sociólogo Filipe Muanza. “Reconhecer esses erros implicaria pôr termo a certas negociatas”, disse ao Expresso.

As autoridades defendem agora o fim da diferenciação de tratamento entre angolanos e estrangeiros, portadores das mesmas qualificações académicas e profissionais. Mas essa preocupação nem sempre tem sido observada. Com muitos angolanos detentores de mestrados e cursos de pós-graduação nos domínios da comunicação e assessoria de imprensa, ainda no mês passado, o Grecima-Gabinete de Revitalização da Comunicação Institucional e Administração, adstrito ao Presidente Eduardo dos Santos, contratou consultores portugueses para ministrar cursos sobre comunicação institucional a embaixadores e diretores de imagem de ministérios e secretarias de estado.

“Em dois dias não transmitiram nada que não tivéssemos aprendido nas mesmas universidades onde eles estudaram connosco”, lamentou Adebayo Vunge, responsável pela assessoria de imprensa do Ministério das Finanças.

O tratamento privilegiado que é dado em Angola à cooperação com Portugal teve sempre em Lopo do Nascimento, dirigente histórico do MPLA, um dos seus adversários mais implacáveis, que conta com muitos seguidores. “Muitos dos novos cooperantes portugueses, saídos diretamente das universidades, encontram em Angola o seu primeiro emprego e é aqui que vêm adquirir experiência. Há que acabar com esse círculo ”, disse ao Expresso Bonifácio Januário, alto funcionário de uma instituição bancária privada de matriz portuguesa. Lopo do Nascimento considera que muitos políticos e empresários angolanos estiveram e estão ainda dominados pelo chamado “chip português”.

Se há três anos, o grupo Media Nova, detentor do semanário “O País”, do canal de televisão TV-Zimbo e da gráfica Dummer, estava pulverizado de portugueses, hoje a presença lusa faz parte do “arquivo-morto”. “Eram dispendiosos e, no final, concluímos que o valor acrescentado que trouxeram, poderia, como agora se comprova, perfeitamente ser assegurado por angolanos”, diz ao Expresso José Kaliengue, diretor de “O País”.

Em diversos meios, nem sempre é bem encarada “a visão portuguesa” de alguns empresários e dirigentes angolanos, acusados de privilegiarem a contratação de portugueses com altos salários, alojamento, pelo menos duas viagens por ano para Portugal e, nalguns casos, subsídio de isolamento.

“Eram excessos a que, graças a Deus, a crise veio pôr fim ou pelo menos poderá reduzir consideravelmente”, diz Ismael Mateus, diretor do IFAL-Instituto de Formação de Administração Local.

“Nalgumas multinacionais norte-americanas como a Halliburton ou a General Eletric, vemos angolanos em lugares-chave mas a nenhum quadro nacional foi dado um cargo de relevância numa empresa portuguesa”, denuncia Lopo do Nascimento.

Mas a realidade não é tão sorridente como possa parecer à primeira vista. Para um universo de 100 mil empresas, Angola conta apenas com 5100 contabilistas e peritos contabilistas mas, segundo a respetiva ordem, nem todos estão habilitados a assinar contas.

São igualmente notórias as debilidades que o país atravessa na área da gestão de ativos. “Temos ainda um longo caminho a percorrer para nos apetrecharmos de players privados competentes para o mercado da bolsa”, reconhece um alto responsável do Ministério da Economia.

É certo que Angola formou milhares de quadros mas, muitos deles beneficiaram de um estatuto de proteção especial. “Muitos têm cursos mas são incompetentes e, como não gostam de trabalhar, refugiaram-se em empresas como a Sonangol, que acomoda muita gente sem provas dadas”, desabafou ao Expresso, Adalberto Ferreira, funcionário reformado da petrolífera angolana. É esse comportamento, acrescentou, que faz com que uma boa parte do trabalho da companhia, entre outros expatriados, seja feita por portugueses.

As autoridades não deixam, por outro lado, de reconhecer ter ainda muitas carências em recursos humanos qualificados e, por isso, acham relevante a contribuição dada por muitos técnicos portugueses em áreas vitais da vida económica e social de Angola.

O diretor-geral da Clínica Multiperfil, Manuel Dias dos Santos, garantiu ao Expresso que “tem sido determinante o desempenho de um grupo de especialistas portugueses licenciados e doutorados em enfermagem na formação de angolanos nas áreas de enfermagem de anestesia, de cuidados intensivos, de nefrologia e instrumentação”.

“É também graças a esse grupo, que especializamos o nosso pessoal em enfermagem médico-cirúrgica e em saúde comunitária”, concluiu o diretor daquele centro hospitalar.