Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Reunião histórica da Reserva Federal. E se as taxas voltarem a subir?

  • 333

Janet Yellen, presidente da Reserva Federal

Joshua Roberts / Reuters

Janet Yellen, presidente do banco central americano, pode anunciar hoje o primeiro aumento da taxa diretora desde 2006. A taxa está em ‘zero’ desde dezembro de 2008, no pico da crise financeira

Às 19 horas de hoje, o mundo irá parar para conhecer a decisão do comité de política monetária da Reserva Federal (Fed) dos EUA, o FOMC. A expetativa de uma subida da taxa diretora é elevada, depois de ter sido adiada por diversas vezes ao longo deste ano. A taxa de juro do dólar – a fed funds rate – está a zero (mais concretamente entre 0% e 0,25%) desde o final de 2008 e, a confirmar-se, será a primeira subida em quase dez anos.

A economia americana está a recuperar, o desemprego está próximo de 5% e, apesar de a inflação se manter ainda muito baixa (0,5% em novembro), a Fed acha preferível começar a apertar o cinto. Resta saber se a decisão acontece mesmo e qual o ritmo a que as taxas irão subir. Compreenda o que está em jogo.

1 – Porque se espera o aumento das taxas de juro hoje?

A Fed acha que o andamento da retoma económica nos EUA já permite “digerir” uma subida das taxas de juro que foram fixadas no intervalo entre 0% e 0,25% em 16 dezembro de 2008. O desemprego está baixo, a economia cresce e o único ‘senão’ é a inflação ainda abaixo de 1%. No mês passado, a taxa efetiva da Fed (que mede o valor no mercado tendo em conta o objetivo fixado pelo banco) situava-se em 0,12%. Desde 2008, variou dentro do intervalo fixado (0% a 0,25%) com um pico de 0,2% no verão de 2010 e um mínimo de 0,07% em dezembro de 2011 e em janeiro e fevereiro de 2014. No mercado de futuros, a probabilidade atribuída a uma subida dos juros está acima de 80%.

2 – Há quanto tempo não há uma subida?

O último aumento de taxas de juro pela Fed ocorreu a 29 de junho de 2006, quando a taxa diretora aumentou de 5% para 5,25%. A partir de 18 de setembro de 2007, a taxa foi sendo progressivamente cortada até chegar à decisão de dezembro de 2008 no auge da crise financeira. Face ao colapso bolsista e à aguda crise bancária, a Reserva Federal, então chefiada por Ben Bernanke desde junho de 2006, optou por uma política de taxas de juro perto de zero e por sucessivos programas de compra de ativos, o que ficou conhecido por quantitative easing. A Fed começou em janeiro de 2014 por emagrecer progressivamente os programas de estímulos monetários não convencionais até os descontinuar em outubro de 2014, já com Janet Yellen ao leme, e deixou para o fim a reversão da política de taxas de juro perto de 0%.

3 – Que impactos irá ter na economia mundial?

Depende do processo de subida. Segundo o economista Constantin Gurdgiev, a questão não será tanto o anúncio da subida das taxas de juro, que já está incorporada pelos mercados financeiros, mas a sua dimensão inicial e a indicação sobre o ritmo dessa descida no futuro. Se a opção for por uma primeira subida abaixo de 50 pontos base nos dois extremos do intervalo, passando de 0%-0,25% para 0,25%-0,50%, e a presidente Yellen tranquilizar os outros bancos centrais, sobretudo das economias emergentes, que posteriores subidas serão graduais e espaçadas, é provável que o impacto global seja moderado. Se não, o Fundo Monetário Internacional já alertou para os riscos que um processo abrupto poderá gerar na retoma mundial já de si fraca. Os mercados financeiros esperam que o limite máximo da taxa de juros se situe em 0,85% no final de 2016, enquanto a taxa medina dos decisores da Fed aponta para uma subida até 1,5% daqui a um ano.

4 – E a zona euro e Portugal ganham ou perdem com esta subida?

Depende uma vez mais dos cenários de evolução e da dimensão que irá assumir a divergência entre a política monetária de “aperto” da Fed e a política monetária do BCE ainda apostada em estímulos monetários nos próximos dois anos. E, ao contrário dos emergentes, a zona euro ganha se a Reserva Federal optar por uma política mais abrupta, sublinha Gurdgiev. Mais aperto monetário vindo de Washington e menos gradualismo implicarão um dólar ainda mais forte e uma desvalorização do euro ainda mais drástica, podendo descer abaixo da paridade no câmbio. Um euro cada vez mais fraco significa um impacto líquido positivo dada a importância das exportações para fora da zona euro como motores da retoma económica. Se for muito gradual a subida das taxas de juro nos EUA, o euro provavelmente flutuará no intervalo em que tem variado desde o anúncio em outubro de que a Fed poderia tomar a decisão ainda este ano.