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Quem comprar o Banif leva também com os ativos tóxicos

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Tiago Miranda

O Governo e a gestão do Banif estão a trabalhar uma solução de venda do banco que passa pela criação de um fundo de investimento para acomodar os ativos problemáticos da carteira de imobiliário do banco

O Governo e a gestão do Banif estão a trabalhar uma solução de venda do banco que passa pela criação de um fundo de investimento para acomodar os ativos problemáticos da carteira de imobiliário do banco.

O objetivo é libertar o balanço do banco destes ativos e reduzir as necessidades de capital. Mas o fundo será detido a 100% pelo Banif. Tudo está a ser ponderado nas conversas que estão a ser feitas com os potenciais candidatos à compra do banco.

Segundo apurou o Expresso, esta solução já foi apresentada em Bruxelas à Direção Geral de Concorrência da União Europeia (DGCom) em setembro, na sequência do plano de reestruturação do banco que tem sido discutido entre Bruxelas e o Ministério das Finanças. E para o qual não há ainda luz verde. Este veículo a constituir é mais uma adenda ao plano de reestruturação para convencer Bruxelas a viabilizar finalmente a reestruturação do Banif.

Os ativos imobiliários em carteira ascendem a 1000 milhões de euros, e as imparidades assumidas são superiores a 350 milhões de euros, referiu fonte do banco. Em 2013, a carteira de crédito imobiliário para venda ascendia a 1200 milhões de euros e o objetivo da sua venda era libertar capital e amortizar as ações do Estado no banco, mas a alienação de parte desta não foi suficiente para o fim visado. A carteira de ativos imobiliários para venda está agora mais uma vez a ser avaliada pelo mercado e esta solução visa numa primeira fase libertar capital e facilitar a venda do banco.

Este fundo será, ao que apurou o Expresso, detido a 100% pelo Banif numa primeira fase mas poderá ser vendido posteriormente. Ou pelo Banif, ou no caso de este ser vendido, pelo novo dono. Ou, num outro cenário permanecer no banco, independentemente de quem o detiver enquanto são vendidos os ativos em carteira. Uma solução que diverge da criada para os ativos tóxicos do BPN cujo veículo que os acomoda foi parar à esfera do Estado, para que o banco fosse vendido aos angolanos do BIC.

Os interessados no Banif

Entre os interessados à compra da posição do Estado no Banif (60,5% do capital), nesta fase, estão seis entidades, entre as quais os espanhóis Santander e Banco Popular e o fundo norte americano Apollo Managment.

O Estado precisa da autorização da DGCom para avançar com a constituição do fundo de investimento e também para aprovar o plano de reestruturação que ainda não viu luz verde de Bruxelas.

Neste momento o Estado ou vende e perde muito dinheiro, pois injetou 700 milhões de euros no capital do Banif em 2012 (levou este montante ao défice de 2013) e o Banif valia na segunda feira cerca de 40 milhões de euros, tendo o Estado ainda por receber 125 milhões de euros do empréstimo de 400 milhões de euros que concedeu ao Banif em obrigações convertíveis, os chamados CoCos. Ou, se não vender, arrisca-se a ter de injetar mais dinheiro no banco, porque é o maior acionista e a partir de 2016 as novas regras exigem que sejam os acionistas, os obrigacionistas e os depositantes acima de 100 mil euros a suportar as exigências de capital necessárias.

Depois de instalado o pânico

Nas últimas semanas a especulação sobre o que vai acontecer ao Banif, nomeadamente uma noticia veiculada pela TVI no domingo à noite de que o Banif iria fechar, deixou esta segunda e terça feira os clientes preocupadas e a corrida aos balcões do banco foram expressivas desse receio.

O Banif veio em comunicado desmentir categoricamente o fecho do banco, e hoje o Banco de Portugal veio dizer que está a acompanhar a situação, o que é aparentemente normal. "O Banco de Portugal, em articulação com o Ministério das Finanças, está a acompanhar a situação do Banif, garantindo, como é da sua competência, a estabilidade do sistema financeiro, bem como a segurança dos depósitos.” O supervisor adianta ainda que “o plano de reestruturação do Banif está a ser analisado pela Comissão Europeia e, em paralelo, está a decorrer um processo de venda internacional da instituição financeira conduzido pelo Conselho de Administração”.

Também o primeiro ministro António Costa deu garantias de normalidade sobre o banco e que o processo de reestruturação está a decorrer com normalidade. Ou seja, que não está em causa um iminente colapso do banco presidido por Jorge Tomé. António Costa garantiu ao presidente do governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, que o objetivo do governo passa pela "alienação do capital no Banif" e pela salvaguarda dos depositantes, os acionistas (leia-se Estado) e a posição estratégica que o banco tem junto da comunidade emigrante madeirense.

E em entrevista à RTP- Madeira, ontem à noite, Jorge Tomé sublinha que o banco conta com uma posição de “liquidez confortável” e garante que “os depositantes e contribuintes podem estar descansados”. na noite desta segunda-feira.

O presidente do Banif garantiu que a negociação para a venda da instituição está a "correr muito bem". E que quanto quanto ao incumprimento do pagamento da última tranche dos Cocos (de 125 milhões de euros), que deveria ter sido feita no início do ano, o Banif justifica-a com colapso do BES, que 'contaminou' a instituição. Acrescentou: "Teve um impacto bastante negativo no Banif, foi por isso que o Banif não pagou esta última tranche dos chamados CoCos de 125 milhões de euros".