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Crise do petróleo custa €2 biliões às bolsas

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A capitalização das bolsas mundiais recuou numa semana mais de 3,5%. Nova Iorque perdeu €900 mil milhões e a Ásia Pacífico cerca de €400 mil milhões. As bolsas das 15 principais economias da Europa levaram um rombo de €260 mil milhões

Jorge Nascimento Rodrigues

A capitalização bolsista mundial perdeu esta semana 2 biliões de euros. O índice MSCI global recuou 3,53%. A volatilidade subiu mais de 50% em Wall Street e 17% na Europa ao longo da semana.

O maior rombo registou-se nas bolsas de Nova Iorque, no NYSE e no Nasdaq, com perdas de 1 bilião de dólares, cerca de 900 mil milhões de euros. Nas bolsas das 15 principais economias da Europa – 13 da União Europeia, incluindo Portugal, mais Noruega e Suíça – o rombo foi superior a 260 mil milhões de euros.

A “região” da Ásia Pacífico foi a segunda mais prejudicada, perdendo cerca de 400 mil milhões de euros. Na Ásia localizam-se quatro praças financeiras, Tóquio, Xangai, Hong Kong e Shenzhen, que, no conjunto, valem em capitalização o mesmo que as bolsas das 15 economias europeias abrangidas pelo índice MSCI respetivo.

O pior dia da semana acabou por ser sexta-feira, com as bolsas mundiais a perderem 1,6%, cerca de 900 mil milhões de euros.

Se somarmos as perdas bolsistas à escala mundial ocorridas na semana anterior, o rombo na primeira quinzena de dezembro totaliza 2,3 biliões de euros.

O "sentimento" dos investidores bolsistas foi abalado esta semana pela derrocada em curso nos preços do petróleo e pela incerteza sobre a China. O atual curso do preço do petróleo tem influência importante na evolução da inflação, agravando os riscos de desinflação e deflação, e o factor China é determinante na evolução da economia mundial. Dois riscos negativos que se somam à expetativa em relação à decisão da Reserva Federal norte-americana na próxima semana sobre a subida ou não das taxas de juro.

Em relação a dezembro de 2014, a capitalização bolsista mundial caiu 4,5% até final de outubro, segundo os mais recentes dados disponíveis na World Federation of Exchanges. Depois de uma queda inicial em janeiro, a capitalização subiu consecutivamente até maio quando ultrapassou o valor de dezembro do ano passado. Em maio atingiu o pico do ano com 70,86 biliões de dólares para depois quebrar sucessivamente nos meses de verão até um mínimo em setembro registando 60 biliões, ou seja uma perda de quase 11 biliões em quatro meses. Em agosto, o recuo foi de 5,5 biliões de dólares, o maior rombo mensal do ano provocado pela crise bolsista chinesa e pelo seu contágio global. Em outubro, a capitalização subiu para 63,84 biliões. Não existem, ainda, dados disponíveis para novembro.

Em relação ao final do ano passado, a maior queda registou-se com a região da Europa, África e Médio Oriente (EMEA, no acrónimo), que perdeu mais de 3 biliões de dólares de capitalização face a uma quebra de 1,1 biliões nas Américas. Pelo contrário, a região da Ásia Pacífico aumentou em 1,5 biliões de dólares a sua capitalização bolsista durante o ano de 2015.

Crash do petróleo

A semana foi marcada pelo crash do preço do barril de petróleo com a variedade europeia Brent a cair para valores de há sete anos, fechando na sexta-feira abaixo de 38 dólares, com uma queda diária superior a 5%. Esta semana ficou marcada por dois crashes diários do preço do Brent; uma queda de 5,09% no dia 7, sofrendo o efeito da decisão da cimeira da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) na sexta-feira anterior, e de 5,08% no dia 11.

O preço do Brent, em dólares, caiu 12,3% em relação ao fecho a 4 de dezembro e 15% em relação ao final de novembro. Desde o final de 2014 já baixou 34%. No contravalor em euros, e segundo o site finanzen.ch, o preço do Brent desceu 12,2% durante a semana e já caiu cerca de 18% desde o final de novembro. Desde 31 de dezembro de 2014, baixou 27%.

O excesso de oferta de crude nos mercados vai estender-se por 2016 até tarde, garantiu, esta semana, a Agência Internacional de Energia, depois de se saber, também, que o cartel do petróleo estava em novembro a produzir quase dois milhões de barris por dia acima do seu anterior teto oficial.

A derrocada do preço do petróleo é um dos sinais do que se está a passar nas matérias-primas. O índice Bloomberg para 22 commodities caiu 4% durante a semana. Os índices da Reuters CRB e da S&P GSCI, cobrindo também matérias-primas, afundaram 6,76% e 7,49%.

O impacto nas economias emergentes e nas exportadoras líquidas de matérias-primas é assinalável. A dinâmica em curso está a atingir o estado de “desastre absoluto”, diz o Credit Bubble Bulletin, no seu balanço semanal. Desde início de dezembro, face ao dólar, as mais significativas desvalorizações registam-se para o peso colombiano (-12,76%), rublo russo (-7,49%), rand da África do Sul (-6,15%; só na sexta-feira caiu 4,76%), dólar canadiano (-2,56%) e rupia indonésia (-2,46%).

Factor China

Também pesou no “sentimento” dos investidores a incerteza sobre o ritmo de abrandamento da China, a segunda maior economia do mundo e onde se localizam, atualmente, as quarta e sexta bolsas do mundo em capitalização, Xangai e Shenzhen, para além da ligação umbilical a Hong Kong, a quinta bolsa mais importante. A designada campanha contra a corrupção seguida por Pequim já afetou mais de três dezenas de conglomerados e entidades financeiras cotadas nas bolsas que viram os seus responsáveis de topo “desaparecerem” ou serem acusados pelas autoridades.

A China fez saber, também, esta semana, que a sua moeda está valorizada 2,93% em relação ao cabaz de divisas dos seus parceiros comerciais e face ao final de 2014. E isto apesar da desvalorização face ao dólar ter empurrado, esta semana, o yuan para mínimos de julho de 2011. Este quadro indicia que o Banco Popular da China, o banco central, poderá prosseguir a estratégia de depreciação da sua moeda. Recorde-se que ela passou a ser considerada uma das cinco divisas mais importantes do mundo (a par do dólar, euro, iene e libra), desde que foi aprovada para ser incluída, a partir de outubro de 2016, no cabaz que suporta a unidade de conta do Fundo Monetário Internacional.

Referências para os cálculos

Os cálculos dos prejuízos bolsistas são aproximados. O valor de capitalização global tomado como referência baseia-se nos últimos dados disponíveis comunicados pela World Federation of Exchanges (WFE). No seu mais recente relatório mensal “Focus”, publicado no início de dezembro, aponta para uma capitalização global de 63,8 biliões de dólares no final de outubro de 2015. A avaliação das perdas percentuais baseia-se nos três índices “regionais” MSCI (Ásia Pacífico, Europa e Estados Unidos) e no global MSCI AC WI. No caso do índice MSCI para a Europa, as bolsas abrangidas incluem 15 países – Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Itália, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça e Reino Unido. A Grécia, por exemplo, está incluída no índice MSCI das economias emergentes. Os cinco principais pilares de gestão das bolsas europeias, em termos de valor de capitalização, são a Euronext (que abrange Bélgica, França, Holanda, Portugal e Reino Unido), a Deutsche Boerse, o SIX de Zurique, o Nasdaq OMX dos Nórdicos e a BME de Madrid, segundo dados da WFE.