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Onde investir em 2016

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Philippe Jabre é fundador da Jabre Capital Partners, uma gestora de ativos com sede na Suíça

ALBERTO FRIAS

Em ações. Na Europa. Por causa do petróleo barato e dos juros baixos. Para já, é melhor ficar longe dos mercados emergentes. De Portugal (quase) nem se fala

É nas ações que há mais oportunidades de ganhos para rentabilizar investimentos em 2016. Sobretudo nas ações europeias, em alguns sectores. Mercados emergentes? Por enquanto são para esquecer. São estas as recomendações de Philippe Jabre, fundador da gestora de ativos Jabre Capital Partners, que esteve em Lisboa na semana passada. Estávamos a dias de o BCE baixar a taxa de remuneração dos depósitos, para níveis que ficariam aquém das expectativas. Mas as baixas taxas de juro europeias são uma das razões para estar otimista, disse Jabre ao Expresso.

A combinação perfeita

A Europa está a beneficiar de uma combinação de fatores que favorecem os resultados das empresas. As baixas taxas de juro reduzem os custos financeiros, o petróleo barato diminui os custos de produção e a desvalorização do euro face ao dólar aumenta a capacidade de vender para o exterior.

“As empresas europeias têm sido capazes de baixar custos, aumentar a sua margem operacional e gerar poupanças de caixa, que nunca estiveram tão elevadas como hoje”, analisa o gestor. Perante isso, “as empresas estão lucrativas” e, como não há investimentos de capital e em equipamentos “por causa da baixas oportunidades de crescimento”, existem “grandes excedentes de caixa”. E isso favorece dois cenários: por um lado, o pagamento de dividendos mais elevados; por outro lado, a possibilidade de fusões e aquisições. “As companhias estão mais líquidas, podem fazer recompras de ações, fazer aquisições, pagar dividendos mais altos”.

É nos sectores das telecomunicações, automóvel, nos seguros e no luxo que Philippe Jabre deteta maiores oportunidades nas ações europeias. O gestor considera que os bancos europeus, assim como as seguradoras, estão suficientemente capitalizados, embora releve a contradição que permanece entre os incentivos dados pelo BCE a que os bancos emprestem mais dinheiro e a obrigação que impõe de reforçar os rácios de capitais. “O debate sobre qual é a estrutura de capital ótima dos bancos” deve ficar esclarecido com a publicação das regras de Basileia 4, com “novas orientações sobre como tratar os ativos por classes de risco.” Saberemos então “que tipo de compromisso de capital é necessário para os bancos”. Porque “se continuamos nesta frente em que os bancos europeus têm continuamente de levantar capital e reduzir a operação, haverá uma desvantagem face aos bancos americanos”, previne Jabre.

O fator BCE

A política expansionista do Banco Central Europeu, que ainda esta semana foi prolongada até março de 2017, é parte da chave de entendimento para as ações europeias. E isso é assim porque não só o BCE tenta controlar a inflação, que permanece próxima de zero na zona euro, mas também porque tem como objetivo “levar os bancos a emprestar mais”, para níveis que ainda não atingiram o ponto ótimo. “Eles querem mais empréstimos às empresas”. A consequência tem sido uma desvalorização do euro. Ou, se preferirmos, uma valorização do dólar, que decorreu da intervenção do banco central americano, o Fed.

“Assim que a expansão monetária acabar na América, e continuando a da Europa, teremos um ajustamento”, comenta o gestor. “As moedas evoluem em ciclos de três a cinco anos e ainda estamos no segundo ano do ciclo do dólar”. Agora que o dólar caminha para a paridade com o euro (um euro valia ontem 1,08 dólares), estamos a chegar ao ponto de equilíbrio? “É difícil por um número mas podemos dizer que o enfraquecimento do euro parará quando o BCE parar de ser tão prolífico no apoio à economia europeia.” O dólar ainda pode valorizar.

Emergentes mas menos

Se Jabre está otimista em relação à Europa (e, menos, em relação aos Estados Unidos), as suas perspetivas são conservadoras para os mercados emergentes. “Se o dólar se valoriza mais por causa de taxas de juro [americanas] mais elevadas, isso pode conduzir à fraqueza continuada nos mercados emergentes e da moeda chinesa. É por isso que as pessoas estão preocupadas”, diz. Até porque a moeda chinesa “tem sido afetada pelo enfraquecimento das moedas dos parceiros locais, como os coreanos e como os japoneses”. Se o dólar ficar abaixo de um euro, “haverá pressão sobre a China para enfraquecer a sua moeda, para se manter competitiva face aos seus parceiros. Se a China fizer isso num ambiente de crescimento, está tudo bem; se o fizer num ambiente de contração, então teremos preocupações”.

Petróleo barato

Não é apenas uma questão de política monetária, é também por causa do custo das matérias-primas. Aliás, Jabre não recomenda investir em matérias-primas. Mas sublinha o ganho que os países importadores estão a obter, nomeadamente com o custo do petróleo.

“O petróleo barato é um grande benefício para a redução de custos, especialmente nos países consumidores de petróleo. Logo, a Europa é uma grande beneficiária. O petróleo não dá apenas dinheiro às pessoas, também aumenta as margens das empresas”, sublinha. Ora, as previsões citadas por Philippe Jabre são de que o petróleo continue em níveis baixos.

Philippe Jabre não tem Portugal no seu radar de investimentos mas, na conferência organizada pelo Banco Carregosa em que esteve presente, o diretor de investimentos da instituição, João Pereira Leite, dedicou (apenas...) um slide a oportunidades em Portugal. Não são muitas, até porque o quadro macroeconómico e financeiro é restritivo. A banca portuguesa, por exemplo, “tem necessidades de aumento de capital e dificuldade em gerar resultados positivos nos próximos tempos”.

Tendências 2016

  • Bancos centrais europeu, japonês e chinês manter-se-ão expansionistas
  • Taxas de juro americanas subirão em ações pontuais
  • Valorização do dólar vai continuar
  • Economias europeia e japonesa melhorarão. China estabilizará
  • Inflação global vai manter-se baixa
  • Preço do petróleo vai manter-se baixo

Recomendações Ocidente

  • EUA: positivo em relação às ações, que são beneficiadas pelo crescimento económico e pelo aumento do consumo; neutral em relação a ativos de rendimento fixo, pois o aumento das taxas de juro vai aumentar os custos de financiamento
  • Europa: positivo em relação às ações, beneficiadas pela extensão da política monetária do BCE, por uma retoma económica baseada em exportações e pelo fim da austeridade; neutral em relação a ativos de rendimento fixo, porque as taxas de juro permanecem relativamente baixas

Recomendações Oriente

  • China: posição neutral em relação a ações de empresas, recomendando-se apenas investimentos oportunísticos
  • Japão: posição positiva em relação a mercados de ações, por causa da continuação dos estímulos monetários e por causa da depreciação do iene; neutral em relação a ativos de rendimento fixo, porque embora o Banco do Japão deva manter os apoios à economia, as taxas de rendibilidade das obrigações já estão muito baixas

Comprar ações... seletivamente

As empresas do índice Standard & Poor’s estão a valorizar menos do que os seus resultados, analisa João Pereira Leite, do Banco Carregosa. Numa conferência na semana passada em Lisboa, e falando depois de Philippe Jabre, o diretor de investimentos do Carregosa também considerou que é nas classes de ações que há oportunidades de investimentos. A recomendação foi, pois, de “comprar ações”, mas “seletivamente”. Em contrapartida, devem evitar-se investimentos em matérias-primas, em obrigações de países emergentes e obrigações de alto risco (high yield). As obrigações, prosseguiu, devem ser substituídas por aplicações em depósitos indexados ou capitais garantidos com maturidades maiores. O que pode correr mal em 2016? Pereira Leite responde: a China desvalorizar a moeda em 15 a 20%; deflação; a crise dos países emergentes afetar países desenvolvidos; e o terrorismo ganhar “na guerra do medo”.