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Semana negra "custa" cerca de €500 mil milhões

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Os investidores ficaram insatisfeitos com a injeção de mais €680 mil milhões anunciada pelo BCE na quinta-feira. As perdas semanais nas bolsas mundiais somaram cerca de €250 mil milhões. O rombo no mercado das obrigações na quinta-feira foi de outros €250 mil milhões

Jorge Nascimento Rodrigues

As bolsas mundiais perderam 0,46% durante a semana, segundo o índice global MSCI. Tomando como referência os valores de capitalização mundial para o final de setembro, os mais recentes disponibilizados pela World Federation of Exchanges, a perda semanal pode ter atingido mais de 270 mil milhões de dólares, cerca de 250 mil milhões de euros.

A pior sessão da semana foi quinta-feira, quando o desapontamento com o pacote anunciado pelo Banco Central Europeu (BCE) abalou fortemente as bolsas na Europa e nos Estados Unidos. Em termos “regionais”, a Europa foi a mais afetada no mundo das bolsas, com uma quebra semanal de 0,91% do índice MSCI. No conjunto da semana, o Eurostoxx 50 – um índice abrangendo as cinquenta principais cotadas da zona euro - perdeu 4,53% e a bolsa de Amesterdão liderou as quedas, entre as principais bolsas, com um recuo de 5,35%. O pior desempenho na Europa, no âmbito do Eurostoxx 50, foi protagonizado pela Air Liquide francesa, com uma quebra semanal da cotação na ordem de 9%.

No mercado obrigacionista, as perdas na quinta-feira ascenderam a 162,5 mil milhões de dólares nos EUA e 107,5 mil milhões de dólares na Europa, segundo a Bloomberg, com base em dados do índice global de obrigações do Bank of America Merrill Lynch. O equivalente a cerca de 250 mil milhões de euros.

Grosso modo, o desapontamento dos mercados financeiros com o pacote de estímulos monetários do BCE rondou esta semana os 500 mil milhões de euros, o equivalente ao PIB da Polónia, ou quase duas vezes e meia o PIB português.

€680 mil milhões de estímulos que “os mercados não entenderam”

Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse, na sexta-feira, à cadeia norte-americana CNBC, que “os mercados entenderam errado” o pacote anunciado pelo BCE no dia anterior em Frankfurt. E adiantava que, quando compreendesem a plena extensão do novo pacote, haveria provavelmente uma correção da reação negativa inicial.

Horas mais tarde, o próprio presidente Mario Draghi fazia as contas perante uma plateia de investidores de Wall Street no Clube Económico de Nova Iorque. As palavras de Draghi em Nova Iorque acabariam por ter impacto positivo em Wall Street. Enquanto a Europa fechava com perdas, ainda que ligeiras, nas bolsas na sexta-feira, o índice MSCI para os EUA registava um ganho de quase 2% e salvava o dia para as bolsas mundiais, que acabariam por registar um ganho de 0,81%.

O prolongamento por seis meses do programa de compra de ativos públicos e privados pelo BCE implica mais 360 mil milhões de euros e o comprometimento para reinvestir nas obrigações que chegam à maturidade vale mais 320 mil milhões de euros, disse o italiano. Ou seja, só essas duas medidas do pacote injetam 680 mil milhões de euros.

Um dos campos onde a “incompreensão” dos mercados financeiros se fez mais sentir foi o da dívida obrigacionista da zona euro. As yields das obrigações no prazo a 10 anos dos países do euro subiram significativamente durante a semana no mercado secundário da dívida soberana. Excluindo a Grécia (que está num patamar distinto, acima de 8%, e excluída do programa de compras do BCE), a maior subida registou-se para as obrigações italianas, e, a seguir, para as obrigações francesas e alemãs. Nos casos de Itália, França, Alemanha e Irlanda, o disparo das yields foi superior a 20 pontos base (o equivalente a 0,2 pontos percentuais) no prazo a 10 anos. As yields das Obrigações do Tesouro (OT) português e das obrigações espanholas subiram 19 e 16 pontos base respetivamente naquele prazo de referência.

Juros das OT sobem para perto de 2,5%, mas prémio de risco desce

No caso das OT a 10 anos, as yields atingiram um máximo da semana na quinta-feira fechando em 2,51%, depois de terem fixado um mínimo de sete meses perto de 2,2% durante a sessão antes do anúncio das decisões do BCE. Acabaram por fechar a semana em 2,49%. A subida na quinta-feira, 3 de dezembro, após o “choque” de desapontamento com o pacote do BCE, foi a terceira maior do ano em termos diários, depois de duas anteriores em maio e junho relacionadas com o contágio da crise grega.

No entanto, apesar do disparo das yields durante a semana, o prémio de risco das dívidas portuguesa, espanhola e italiana desceu. A subida das yields das obrigações alemãs a 10 anos de 0,46% a 27 de novembro para 0,69% a 4 de dezembro, provocou a descida dos prémios de risco naqueles periféricos. O prémio de risco da dívida, ou risco país, é calculado com base no diferencial, no prazo a 10 anos, entre o custo de financiamento da dívida de um dado país do euro e o verificado para a dívida alemã, que serve de referência.

O prémio de risco da dívida portuguesa desceu 3 pontos base para 181 pontos, o equivalente a um diferencial de 1,81 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã. O preço dos contratos para cobertura do risco de incumprimento da dívida portuguesa a 5 anos, o que tecnicamente é designado por credit default swaps (cds no acrónimo), desceu de 188 pontos base a 27 de novembro para 169,95 a 4 de dezembro. Este preço dos cds para a dívida portuguesa implica que o comprador do contrato paga cerca de 1,7% do valor a cobrir. Em 13 de novembro, alguns dias depois da rejeição do programa do anterior governo de coligação PSD/CDS, o preço dos cds atingiu um pico de 221 pontos base.

Apesar desta subida recente das yields para perto de 2,5% provocada pelo desapontamento face ao pacote do BCE, este nível é inferior aos 2,8% registados a 9 de novembro (antes do chumbo do programa do anterior governo de coligação PSD/CDS) e aos 3,3% verificados em meados de junho aquando do pico do contágio da cride grega. Antes do "choque" provocado pelo BCE no início da tarde de 3 de dezembro, as yields das OT desceram para um mínimo de sete meses. Na mesma quinta-feira à tarde, em que ocorreu o "choque" negativo provocado pelo BCE, a maioria de esquerda na Assembleia da República chumbava a moção de rejeição ao governo de António Costa.

A ampliação por seis meses do programa do BCE e o reinvestimento que realizará é benéfico para a dívida portuguesa, dado Portugal estar incluído no programa de compras de dívida pública iniciado em março. Em final de outubro, o BCE já havia adquirido cerca de 9 mil milhões de euros de dívida obrigacionista portuguesa.

Euro valoriza-se e preço do Brent recua

O euro valorizou-se, durante a semana, em relação ao dólar e ao cabaz de 19 divisas de parceiros comerciais da zona euro. Face ao dólar, o euro ganhou 2,7% entre 27 de novembro e 4 de dezembro, afastando-se da trajetória de aproximação à paridade com a moeda norte-americana que tem registado em 2015 uma valorização importante (mais de 11% desde início do ano em relação ao euro). Face ao cabaz de 19 divisas, o euro subiu 2,1%, no mesmo período, segundo dados da variação diária nominal efetiva fornecida pelo BCE.

No caso do barril de petróleo da variedade Brent – que serve de referência na Europa -, o preço caiu 3,7% durante a semana. Desceu de 44,86 dólares a 27 de novembro para 43,22 dólares a 4 de dezembro, depois de conhecida a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em adiar para junho a eventual fixação pública de um novo teto oficial de produção diária para o cartel, recusando um corte, que poderia provocar uma subida dos preços. A 2 de dezembro, o preço do barril de Brent havia fixado um mínimo do ano em 42,49 dólares.